Após morte de 17 ciclistas, NY adota plano de segurança de US$ 58 milhões

Prefeito promete mais ciclovias protegidas e reforço policial em cruzamentos com alto número de acidentes

Winnie Hu
The New York Times

As coisas aparentemente não poderiam ficar muito piores do que no início de julho, quando três ciclistas morreram em pouco mais de uma semana nas ruas de Nova York.

Mas ficaram. Dois outros ciclistas foram atropelados e morreram na terça-feira (23) —um no Brooklyn e um em Staten Island— , enquanto outro, este atropelado na manhã de quarta-feira (24) no Queens, se encontra em estado crítico.

O número crescente de ciclistas mortos —17 até agora este ano, sete a mais que em todo o ano passado—provocou a fúria de ciclistas e ativistas dos transportes públicos, intensificando a pressão sobre o prefeito Bill de Blasio, democrata que é pré-candidato à Presidência, para garantir mais proteção a quem anda de bicicleta em um momento em que cada vez mais pessoas na cidade se deslocam desta forma.

NY Bicycle
Ciclista em Nova York cruza rua em que outro ciclista, Kenichi Nakagawa, morreu após colisão em maio - Ivan Armando Flores/The New York Times

Em resposta à pressão, De Blasio pretende anunciar esta semana um plano de US$ 58,4 milhões que visa tornar o ciclismo na cidade mais seguro, com a instalação de mais ciclovias protegidas, mudanças no design de cruzamentos e a contratação de 80 funcionários novos do setor de transportes da cidade que se dedicarão a criar melhorias para ciclistas.

A política de transportes públicos Vision Zero, pela qual De Blasio é conhecido, procura tornar as ruas da cidade mais seguras.

“Este ano vimos uma alta perigosa nos acidentes fatais com ciclistas”, disse De Blasio. “Nenhuma morte em nossas ruas é aceitável. O ano passado foi o mais seguro da história. Precisamos continuar a fazer mais, aumentar nossos esforços.”

Sob o novo plano, Nova York vai concentrar esforços para criar uma rede de ciclovias protegidas em toda a cidade. No momento o município tem 2.000 quilômetros de ciclovias, dos quais 770 são protegidos —ou seja, há barreiras físicas separando os ciclistas de outros veículos.

A prefeitura pretende começar a construir mais 50 quilômetros de ciclovias protegidas por ano, sendo que nos últimos três anos construiu em média 20 quilômetros a cada doze meses.

Além disso, a intenção é ampliar as pistas para ciclistas –incluindo pistas protegidas— em dez áreas designadas como “distritos de prioridade para bicicletas” no Brooklyn e no Queens, que possuem relativamente poucas ciclovias mas já tiveram grande número de acidentes envolvendo ciclistas que tiveram ferimentos graves e mortes.

Esses distritos vão abranger bairros como Corona, East Elmhurst e Jackson Heights, no Queens, e Bay Ridge, Midwood, Sheepshead Bay e Brownsville, no Brooklyn. Doze dos 17 acidentes fatais com ciclistas este ano ocorreram no Brooklyn.

As autoridades de transportes da cidade pretendem redesenhar 50 cruzamentos de modo a tornar os ciclistas mais visíveis aos motoristas, usando medidas como caixas de bicicleta, onde os ciclistas ficam esperando diante de veículos, e ciclovias pintadas de verde, para facilitar sua visualização.

Também será ampliado um plano piloto conhecido como a “onda verde”, que ajusta o timing dos faróis de modo que todo os condutores que andam a cerca de 25 km/h, incluindo ciclistas, possam avançar por um corredor ininterruptamente, passando por sucessivos faróis verdes. Isso reduz a tentação de furar faróis e diminui a velocidade dos veículos.

A maior parte das verbas para o programa de segurança no ciclismo será usada para contratar mais funcionários da prefeitura para realizar as melhorias, somando-os aos 110 empregados atuais do setor de transportes.

Os policiais de trânsito vão intensificar o policiamento em cem cruzamentos com alto número de acidentes, ficando atentos especialmente para caminhões. Este mês a polícia já abandonou a prática amplamente criticada de multar ciclistas que desobedecem normas de trânsito em um local onde ocorreu um atropelamento fatal.

“As medidas que estamos propondo são coisas que sabemos que funcionam”, disse a comissária de transportes de Nova York, Polly Trottenberg. “Construção de infraestrutura protegida, um design mais seguro nos cruzamentos e o policiamento seletivo de comportamentos perigosos de condutores.”

O plano do prefeito recebeu elogios discretos de alguns defensores do ciclismo.

“Parece bom no papel; realmente estamos precisando de mais ciclovias protegidas”, disse Jon Orcutt, diretor de comunicações da Bike New York, um grupo de educação e defesa de ciclistas. “Mas a dificuldade está na implementação.”

Segundo ele, para realmente garantirem a segurança dos ciclistas, as novas ciclovias terão que se conectar com outras ciclovias protegidas, em vez de terminar e forçar os ciclistas a andar nas pistas de tráfego geral.

Para ele, as barreiras devem ser posicionadas em proximidade estreita e ser robustas o suficiente para impedir carros de invadir as ciclovias. Já houve casos de automóveis que atravessaram as barreiras de plástico flexível que acompanham o percurso de algumas ciclovias.

O uso de bicicletas vem explodindo em Nova York com a expansão do programa de "bike sharing" Citi Bike, além da frustração crescente das pessoas com os atrasos do metrô e dos ônibus.

Cerca de 460 mil deslocamentos em bicicleta ocorrem diariamente na cidade. Em 2006, foram cerca de 180 mil, segundo a prefeitura.

Ao mesmo tempo, as ruas de Nova York estão mais congestionadas que nunca, graças à proliferação de serviços de carona como Uber, Lyft e outros, além do aumento da circulação de vans e camionetes graças às entregas feitas pela Amazon e de compras de supermercado feitas online.

“Com mais carros, mais camionetes e mais bikes, estamos com uma situação tóxica nas ruas”, comentou Orcutt.

O vereador Ydanis Rodriguez, presidente do comitê de transportes da Câmara Municipal, considerou que o plano do prefeito é um passo na direção certa, mas acha que é preciso fazer mais. Ele quer que a prefeitura construa 160 quilômetros de ciclovias protegidas por ano nos próximos seis anos.

“Estamos vendo cada vez mais nova-iorquinos recorrendo à bicicleta como modo de transporte”, ele disse. “Precisamos traçar planos para permitir esse aumento.”

Tradução de Clara Allain

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