Descrição de chapéu The New York Times

Jackie Chan e outros artistas temem represálias por apoio a protestos em Hong Kong

Perseguição faz com que artistas como Jackie Chan evitem tomar posições políticas

Hong Kong | The New York Times

Enquanto os protestos em Hong Kong evoluem para uma luta contra o poder autoritário da China, uma das maiores estrelas pop da cidade surgiu como um ícone de desafio. Ela falou em comícios, distribuiu formulários de registro de eleitores em manifestações e ficou na linha de frente com a população, pedindo à polícia antimotins que não atacasse.

Denise Ho, cantora de cantopop [música popular cantonesa], é uma das muitas figuras de destaque no movimento de protesto descentralizado, mas entre as celebridades de Hong Kong ela é uma peça rara. Ho colocou seu estrelato por trás do movimento pró-democracia da cidade há cinco anos, e desde então tem pago o preço: ser barrada no lucrativo mercado chinês.

A cantora Denise Ho, durante show na Noruega - Ryan Kelly - 27.mai.2019/AFP

Ho defendeu os protestos recentes após os atos destrutivos de segunda-feira (1), quando um grupo de jovens manifestantes invadiu o Legislativo da cidade. Naquele dia, Ho deixou uma marcha pacífica para se juntar a uma multidão que aplaudia os estudantes diante do complexo, e continuava lá depois de 0h, quando centenas de policiais chegaram para dispersá-los, alguns disparando gás lacrimogêneo.

Em 2014, a carreira de Ho estava decolando na China e ela fez mais de cem shows por lá. Em seguida, participou de um movimento de protesto em Hong Kong que pedia eleições mais livres no território semiautônomo.

O governo chinês a proibiu de se apresentar e retirou sua música das listas de reprodução de sites de streaming. A medida cortou cerca de US$ 120 mil de sua renda anual, segundo seu empresário.

A proibição apenas estimulou Ho, lembrando a necessidade de proteger a liberdade de expressão e outras liberdades civis que diferenciam Hong Kong do resto da China.

"Para mim, tudo tem a ver com as pessoas, que as pessoas sejam empoderadas e acreditem que podemos controlar nosso destino", disse ela em uma entrevista recente.

Mas para outras celebridades, cujas carreiras passaram a depender do mercado chinês, a punição de Ho serviu como a mais recente advertência do Partido Comunista, no governo, de que tem baixa tolerância à dissidência política. A maioria das estrelas fica fora da política. Outras escolheram apoiar Pequim e foram recompensadas.

"A maioria dessas pessoas ficou em silêncio", disse Ho, que transmitiu ao vivo suas aparições em manifestações, incluindo uma em que ela pareceu ser empurrada por um policial. "É realmente frustrante e, claro, solitário para as pessoas, especialmente para os mais jovens."

De seu lugar privilegiado, Ho deu voz às queixas de Hong Kong em todo o mundo, falando no Fórum da Liberdade de Oslo, na Noruega, escrevendo artigos de opinião e dando entrevistas. Ela tem reunião marcada com o Conselho de Direitos Humanos da ONU em Genebra na segunda-feira (8).

No entanto, poucos artistas de Hong Kong fizeram aparições públicas nos amplos protestos das últimas semanas contra um projeto de lei que permitiria extradições para a China.

É um contraste gritante com 1989, quando Hong Kong ainda era uma colônia britânica em meio a uma era de ouro do entretenimento, e havia poucos obstáculos ao mercado chinês continental. Naquele ano, uma série de estrelas de Hong Kong participou de um concerto em apoio aos estudantes que se manifestavam a favor da democracia na praça Tiananmen, em Pequim. Jackie Chan se apresentou, e os atores Andy Lau e Chow Yun-Fat apareceram para expressar seu apoio.

Nos últimos anos, à medida que o sentimento nacionalista no continente cresceu e a economia se expandiu rapidamente, as autoridades, as empresas e os fãs frequentemente evitaram os artistas que adotavam posições consideradas críticas a Pequim.

Além de Ho, outros colocados na lista negra após os protestos de 2014, conhecido como Movimento Guarda-Chuva, incluíram Chow e Tony Leung Chiu-wai. Algumas estrelas viram-se excluídas por fãs e empresas do continente. As oportunidades de trabalho de repente evaporaram.

Durante os recentes protestos, várias organizações do setor, incluindo a Associação de Diretores de Cinema de Hong Kong, emitiram declarações exigindo a retirada total da lei de extradição.

No entanto, além de Ho, apenas alguns artistas individuais, incluindo o ator Anthony Wong Chau-sang e o cantor Anthony Wong Yiu-ming, se manifestaram.

Alguns artistas que apenas sugeriram apoio às manifestações foram pressionados a esclarecer suas posições.

Miriam Yeung Chin-wah, atriz e cantora de Hong Kong, postou uma imagem da expressão "R.I.P." em seu Instagram, o que muitos fãs viram como uma homenagem a um manifestante que foi morto no mês passado. Yeung depois apagou o post sem explicação, provocando uma onda de críticas de fãs que a acusaram de se submeter à pressão do continente.

Charmaine Sheh, atriz de Hong Kong popular na China continental, sofreu uma série de ataques online depois que curtiu um post mostrando os protestos contra a extradição no Instagram, que está bloqueado na China.

Sheh se desculpou logo depois. "Fiquei chocada mais tarde, quando percebi o que estava no post", escreveu ela em um site de mídia social chinesa. "Eu, Sheh Sze-man, amo o país e amo Hong Kong!"

Algumas estrelas, como o ator Tony Leung Ka-fai e o cantor Kenny Chung, apoiaram publicamente a polícia, que os manifestantes condenaram por usar força excessiva ao dispersar multidões.

"É um pouco perigoso para nós agirmos hoje como figuras públicas", disse Chung em um comício pró-polícia no domingo. "Mas não estamos falando de política —estamos falando de justiça."
Outros alegaram ignorância.

Jackie Chan, o superstar de Hong Kong e ator de "A Hora do Rush", estava em Taiwan para promover um novo álbum no mês passado, quando repórteres perguntaram sobre suas opiniões sobre os protestos em Hong Kong. Chan disse que acabara de saber deles.

"Não sei nada sobre isso", afirmou.

Anthony Wong Yiu-ming, 57, cantor de cantopop, é um dos poucos artistas estabelecidos que se manifestou contra a lei de extradição, juntamente com Ho. Ele se declarou gay em 2012 e disse que a experiência o encorajou a quebrar o silêncio do setor sobre política.

"Sou primeiramente um civil", disse Wong em entrevista por telefone, "depois um músico e também um ativista social."

Mas falar em apoio ao Movimento Guarda-chuva, que Pequim criticou como uma ameaça à segurança nacional, teve um alto custo. Wong disse que perdeu mais da metade de sua receita anual proveniente da China, além de parcerias com marcas internacionais.

"Eu canto há 30 anos e posso pagar esse preço", disse ele. "Muitas pessoas ficariam com medo de falar ou se expressar. Essa é a parte mais assustadora".

Ho, que agora está considerando ser candidata, disse que decidir falar foi libertador. "Estou me sentindo muito livre", disse ela.

Na noite de sexta-feira, a cantora falou para uma manifestação de cerca de mil pessoas e pediu que perseverassem, apesar da prisão de vários manifestantes.

"Temos que aprender a transformar um protesto de curto prazo em uma resistência de longo prazo", disse ela. "E temos que aprender a integrar a resistência em nossas vidas diárias."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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