Com rejeição a vacinas, República Democrática do Congo tem novo caso de ebola na fronteira

Médicos Sem Fronteiras confirmou na quarta (31) morte de paciente infectado pelo vírus na cidade de Goma

Carolina Vila-Nova
São Paulo

Os esforços para a contenção da epidemia de ebola da República Democrática do Congo estão enfrentando uma série de obstáculos, entre eles a resistência de autoridades e da população às campanhas de vacinação, o foco considerado excessivo na doença e os conflitos no combate à moléstia com as tradições locais.

Nesta terça-feira (30), um segundo caso de paciente infectado pelo vírus ebola foi detectado na cidade de Goma, segunda maior cidade do país.

“É um sinal preocupante de que o surto claramente não está sob controle”, afirmou em nota a organização Médicos sem Fronteiras (MSF). Na quarta-feira (31), quase 26 horas após o paciente ser recebido no centro de tratamento, o MSF confirmou a morte da pessoa infectada.

A notícia aumenta temores de que o vírus possa se estabelecer numa área densamente povoada —2 milhões de habitantes— e que sua propagação adquira caráter transfronteiriço. Já houve alertas de casos em Uganda e perto da fronteira com o Sudão do Sul. 

Segundo autoridades locais, o novo paciente não tem relação com o primeiro caso detectado em Goma em julho, que resultou em morte e fez com que a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarasse o surto no país como uma emergência internacional de saúde pública

Criada em 2005, a classificação só havia sido empregada em quatro ocasiões até agora. 

“O trabalho tem sido feito ao lado de autoridades locais e religiosas para sensibilizar a população, desmistificar a doença, falar das precauções e impedir o aumento da contaminação”, relatou à Folha Antoine Gauge, chefe da missão do MSF para combater o ebola em Goma, na fronteira com Ruanda.

“É um trabalho de respeitar a tradição e prevenir a doença”, explica Gauge sobre o trabalho na região. Ele conta que o contato físico com o morto é um aspecto importante da cultura local. “Eles querem tocar, abraçar, mas é preciso alertar que isso leva a uma maior contaminação.” 

Fontes locais relatam que o uso de truculência por parte das autoridades locais ao impor a restrição do acesso dos familiares aos cadáveres acabou levando a uma maior resistência da população e uma piora do acesso dos médicos.

“Há uma resistência ainda devido à atenção maciça dada ao ebola e que não está na mesma escala da atenção dada a outras doenças que também fazem muitas vítimas nas comunidades”, diz Gauge. 

A preocupação vai além de obter atendimento médico para incluir questões como onde encontrar abrigo seguro nas regiões de conflito armado. Embora não seja ela própria região conflagrada, Goma fica na província de Kivu do Norte, com forte presença de milícias e grupos armados.

Isso levou a uma revisão da estratégia da entidade, para oferecer à população opções de tratamento mais abrangente, independentemente da doença, além dos cuidados para os casos de suspeita de ebola.  

Desde que o surto foi registrado pela primeira vez, em agosto de 2018, mais de 1.700 mortes pelo vírus ebola foram registradas no país. Em média, são contabilizados entre 75 e 100 novos casos por semana. Até 18 de julho, foram confirmados 2.438 casos. 

A epidemia na África Ocidental entre 2014 e 2016 matou mais de 11,3 mil pessoas.

A estratégia dos agentes de saúde para a chamada vacinação “em anel” é identificar, vacinar e monitorar todas as pessoas com quem os infectados tiveram contato, bem como todos os seus contatos. 

Pela primeira vez, essa estratégia está sendo implementada em larga escala. Mas trata-se de um método demorado e complexo: além da dificuldade para identificar os contatos individuais de cada pessoa, há problemas de segurança em Kivu do Norte, onde ocorre a maioria dos casos. Em alguns locais, centros de tratamento foram atacados.

O estoque de vacinas experimentais da fabricante americana Merck é considerado extremamente baixo —menos de mil doses. A ideia é aplicar uma segunda vacina experimental, essa fabricada pela Johnson & Johnson, como uma espécie de “parede de proteção” em áreas ainda não afetadas pelo vírus do ebola.

Para alguns, a demissão na semana passada do ministro da Saúde, Oly Ilunga, que se opunha à vacinação em massa, pode destravar a ação. Mas, para agentes de saúde locais, ainda vai levar meses até que a desconfiança da população seja vencida e que o tratamento comece a apresentar resultados. 

“Os congoleses têm o direito de ter o ‘padrão-ouro’, a melhor vacina. Eles não precisam se sujeitar a experimentações”, afirmou Ilunga à agência de notícias Reuters logo após sua renúncia. Segundo ele, a eficácia das vacinas não foi comprovada.

“Não podemos ter um grupo de promotores, produtores da vacina e pesquisadores de universidades querendo introduzir uma vacina sem contatar as autoridades sanitárias.”

MSF explica, no entanto, que toda sua atuação está sujeita a aprovação prévia pelo Ministério da Saúde e que nenhum tratamento é dado sem consentimento explícito do paciente.

Ativistas dizem que a população está assustada e confusa com os vários medicamentos em uso. Além das vacinas, há outros quatro tratamentos experimentais fornecidos a pacientes, sem licenciamento e em fase de ensaios clínicos.

“Não deveríamos introduzir uma segunda vacina se não temos conclusões cientificamente comprovadas da que já está sendo testada”, afirmou à Reuters Matina Mwanack, do grupo Famílias Unidas contra o Ebola, na cidade de Butembo. 

 
 

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