Descrição de chapéu Brexit

Espontaneidade e franqueza de Boris Johnson atraem eleitores

Imagem não convencional e discursos diretos são vistos como pontos fortes do novo premiê

Lucas Neves
Londres

“Ele é como um slogan antigo de uma marca de cerveja: ‘chega a lugares que outros não alcançam’.”

A imagem é usada por um filiado ao Partido Conservador para descrever Boris Johnson, eleito líder da agremiação e novo primeiro-ministro do Reino Unido nesta terça (23). 

O consultor de relações públicas David Roach, 37, é um dos cerca de 2.000 membros da legenda que, na última quarta (17), foram assistir ao último dos 16 encontros com os dois finalistas da corrida pelo comando do partido, em um centro de convenções no leste de Londres.

O novo premiê do Reino Unido, Boris Johnson - Simon Dawson/Reuters

O oponente do ex-prefeito da cidade foi Jeremy Hunt, atual secretário de Relações Exteriores e ex-titular da Saúde e da Cultura —correto, articulado, mas talvez um pouco opaco para os tempos atuais, além de muito associado ao governo Theresa May, que chega ao ocaso sem entregar o brexit.

 
“Veja como nos saímos na eleição para o Parlamento Europeu, em maio [9% dos votos, conquistando apenas o quinto lugar]”, diz Roach, adesivo “Back Boris” (apoie Boris) na lapela do paletó. “Precisamos de alguém especial, com carisma e personalidade, para reenergizar o partido.”

Ele lembra que Johnson rompeu a “bolha” do Partido Trabalhista (oposição) ao se eleger duas vezes em Londres e dobrou outro bastião progressista ao reunir público expressivo em comícios do “Leave” (sair) no norte inglês, durante a campanha para o plebiscito de 2016 —daí a alusão ao velho anúncio de cerveja.

“Nos últimos 20 anos, o discurso político foi ficando muito asséptico, seguro. É surpreendente ver alguém que fala o que vem à cabeça, sem ensaio, sem treinamento para lidar com a imprensa”, elogia o militante, referindo-se ao favorito. “Não concordo com tudo o que ele diz, mas sei que é sempre genuíno, vem do coração.”

A jornalista Drusilla Summers, 35, também saúda a suposta autenticidade de Johnson, além de destacar seu otimismo. Para ela, as críticas ao desinteresse dele por minúcias de políticas públicas não param em pé.

“[O ex-premiê] Gordon Brown e Theresa May eram detalhistas, mas não grandes líderes. Ele só precisa ter clareza do que deseja e se cercar de fortes. Nenhum governante é uma ilha.”

As gafes que tanto fazem falar de Johnson e turbinam certo ceticismo em relação a sua adequação ao posto de primeiro-ministro são, segundo a gerente de RH Tracy (que não quis dizer o sobrenome), uma “distração deliberada”.

“Ele é muito astucioso, sabe que isso o torna mais abordável, aproxima-o das pessoas. Fica parecendo alguém que você poderia parar para cumprimentar no meio da rua.”        

Ela reproduz a impressão de muitos outros: a do deputado como uma figura assertiva, um fazedor. “Boris vai trazer um estilo diferente às negociações e vai entregar o brexit para podermos passar a outras prioridades, à criminalidade e à crise da habitação.”

Resta a saber se, em Bruxelas, sede do governo da União Europeia, Johnson também conseguirá chegar a lugares inauditos.


Isto é Boris Johnson

Formação
Estudou no internato Eton, por onde passaram 19 adolescentes que viriam a se tornar primeiro-ministros do Reino Unido, além de centenas de membros de famílias reais, de escritores como Aldous Huxley e George Orwell, entre outros

Depois de um ano sabático na Austrália, ingressou na também elitista Universidade de Oxford, da qual sairia no fim dos anos 1980 diplomado em literatura e filosofia


Jornalismo
Demitido de seu primeiro emprego, no Times, por inventar uma declaração de um historiador, ainda passaria pelo Daily Telegraph e pela semanal Spectator, sempre exibindo um pendor sensacionalista

Em reportagens e colunas, fustigou a Comissão Europeia, Barack Obama e Hillary Clinton, além de equiparar africanos a guerreiros tribais 


Prefeitura de Londres
Em 2008, sete anos depois de se eleger deputado pela primeira vez, tornou-se prefeito da capital inglesa, feudo do Partido Trabalhista (hoje oposição) desde o fim dos anos 1990 

O começo de sua gestão foi caótico: adjuntos caíam como moscas, ora por causa de denúncias de improbidade, ora por desavenças com o chefe

A proliferação de arranha-céus, um teleférico pouco utilizado e uma torre de 6 milhões de libras para embelezar o parque construído para a Olimpíada de 2012 integram seu legado

Durante os Jogos, protagonizou cena antológica ao ficar preso a 5 m de altura em uma tirolesa, com uma bandeira do Reino Unido em cada mão, quando celebrava a primeira medalha de ouro do país na competição


Relações Exteriores
Depois de liderar a campanha pelo "leave" (sair) no plebiscito sobre o brexit, surpreendeu ao se retirar da disputa para suceder David Cameron, o premiê que pedira as contas após a consulta não produzir o resultado esperado (vitória do "remain", permanecer)

Acabou assumindo a chancelaria no governo Theresa May, mas deixou o posto dois anos depois, em julho de 2018, por discordar da forma como ela conduzia as negociações com a Europa para o brexit 


Candidato a premiê
Assumindo um discurso cada vez mais hostil à União Europeia, Johnson caiu nas graças dos deputados e da militância do Partido Conservador

Nas cinco rodadas da primeira fase do processo de escolha do novo líder, quando votaram só os parlamentares, sua liderança nunca esteve ameaçada --oito concorrentes ficaram pelo caminho

Na etapa decisiva, quando a decisão cabe aos filiados (de perfil mais refratário à Europa do que o conjunto dos deputados), ele deve ter entre 60% e 70% dos votos, muito à frente de Jeremy Hunt

 
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