EUA tiram Turquia de programa do caça F-35 devido a compra russa

Ancara também não receberá os 30 aviões já em produção, e poderá haver sanções

Igor Gielow
São Paulo

Os Estados Unidos anunciaram a exclusão da Turquia do programa de construção do caça avançado F-35, e não vão mais entregar o avião para o aliado da Otan (aliança militar ocidental). É a primeira retaliação americana à compra, pelos turcos, do poderoso sistema de defesa antiaérea russo S-400.

Caça F-35 da Força Aérea dos EUA faz manobra durante evento em Miami, na Flórida
Caça F-35 da Força Aérea dos EUA faz manobra durante evento em Miami, na Flórida - Jensen Stidham - 4.jun.2010/Força Aérea dos EUA/Reuters

"Infelizmente, a decisão [da compra do S-400] da Turquia torna seu envolvimento com o F-35 impossível. O F-35 não pode coexistir com uma plataforma de coleta de inteligência russa que irá ser usada para aprender sobre suas avançadas capacidades", disse a secretária de imprensa da Casa Branca, Stephanie Grisham.

Logo depois, o Pentágono detalhou os próximos passos. "Os EUA e outros países parceiros estão alinhados na decisão de suspender a Turquia do programa e iniciar formalmente o processo de remoção formal do país", afirmou nesta quarta (17) a subsecretária de aquisições militares do Departamento de Defesa, Ellen Lord, segundo relatos de agências de notícias.

Como se vê, o tom é de deixar uma porta aberta para que a Turquia desista do negócio com Moscou, o que até aqui não parece muito viável: desde sexta (12) os russos vêm descarregando partes do S-400, que estarão totalmente operacionais em abril de 2020. Na terça (16), o presidente Donald Trump havia dito não considerar justo que a venda de bilhões de dólares em aviões para a Turquia fosse impedida pela compra, e que buscava uma saída.

O Ministério das Relações Exteriores turco divulgou nota pedindo a revisão da decisão, que considera "um erro que vai abrir feridas irreparáveis nas relações estratégicas" dos dois países.

A crise agora pode evoluir se Trump cumprir uma lei aprovada em 2017, que determina sanções econômicas a empresas e países que fazem negócios militares de vulto com Moscou. Isso elevaria a tensão política a um nível inédito nos anos recentes, e analistas veem risco de a Otan perder seu único membro no estratégico Oriente Médio.

Em relação ao F-35, ainda falta um cancelamento formal da compra pelos turcos, mas ele é inevitável exceto que o país desista dos S-400. Ancara desejava 116 aviões inicialmente, a US$ 11 bilhões (R$ 41 bilhões), para ir substituindo sua frota de 280 caças mais antigos (260 deles F-16).

Os quatro primeiros aviões já estão prontos e estavam sendo testados por pilotos turcos, mas no começo do ano o governo americano suspendeu todo o processo de entrega até uma definição sobre a compra do S-400. Outras 26 unidades, que seriam entregues até 2024, já estão em diversos estágios de produção.

Já houve disputas anteriores na Otan, mas nenhuma com tal implicação industrial. Em 2002, a Turquia uniu-se ao grupo de oito países que participariam do desenvolvimento do caça de quinta geração com os EUA.

Já gastou, segundo estimativa da imprensa turca, cerca de US$ 1 bilhão (R$ 3,75 bilhões) na capacitação de oito empresas locais para construir 937 partes do avião —7% dele, mas em estruturas vitais como a montagem da fuselagem. Uma fábrica para a manutenção de turbinas do caça está sendo montada no país, para atender ao mercado europeu do avião.

Lord afirmou que o custo para substituir o fornecimento de peças turcas ficará em torno de US$ 500 milhões (R$ 1,9 bilhão). A expectativa é de que até 75 dos 131 aviões a serem entregues neste ano possam ter atrasos em sua produção.

A alegação americana para a retaliação, que vinha sendo ameaçada desde que a Turquia começou a negociar com a Rússia em 2016, é de que o S-400 vai expor segredos do F-35.

De fato, se F-35 estiverem voando numa área controlada pelos radares do S-400, que têm alcance de até 600 km, há a possibilidade de descobrir a extensão de suas capacidade de operação furtiva.

Além disso, operadores do S-400 podem inserir as identificações digitais de F-35 turcos no sistema, o que garantiria um monitoramento ainda mais preciso. Como técnicos miliares russos deverão participar ativamente dos primeiros meses de uso do sistema, o temor ocidental é o de vazamento de informações sigilosas.

"Nós só estamos querendo proteger a segurança do programa do F-35 no longo prazo", afirmou Lord. Militares americanos também se queixam de que o S-400 não "conversará" com sistemas ocidentais, como preconiza a doutrina da Otan. Mas há adaptações possíveis: países ex-comunistas da aliança, como Polônia, Hungria e Bulgária, ainda operam diversos aviões soviéticos —inclusive dezenas de caças MiG-29.

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, diz que o temor americano é infundado. Seu governo já disse que poderá optar por modelos russos em troca do F-35, como o Sukhoi-57, que também se encaixa na fluida categoria de quinta geração. O mandatário anunciou que produzirá em conjunto com Moscou a próxima geração dos sistemas antiaéreos, o S-500, em teste na Rússia.

A crise é um desastre para os EUA e uma grande vitória política, claro, para a Rússia de Vladimir Putin. Como Ancara criou uma grande desconfiança dos americanos nos últimos anos, com a recusa de extradição do acusado de tramar um golpe contra Erdogan em 2016 e o apoio a guerrilheiros curdos adversários dos turcos no norte da Síria, o país recorreu a Moscou.

Primeiro veio uma tensa cooperação na guerra civil da Síria, que Moscou virou em favor da ditadura de Bashar al-Assad ao intervir em 2015, após um jato russo ser abatido ao entrar em espaço aéreo turco. Depois vieram contratos energéticos, agora a polêmica compra das baterias de mísseis, por US$ 2,5 bilhões (R$ 9,5 bilhões).

Com isso, Putin ao mesmo tempo reforça sua posição como potência influente no Oriente Médio e vê uma grave crise interna na Otan, que é considerada pela doutrina militar e geopolítica russa como a adversária maior do Kremlin. Moedas de troca podem ser criadas, em especial com a expectativa da retomada de discussões sobre a guerra entre separatistas pró-Moscou e o governo central na Ucrânia.

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