Colômbia ordena prisão de deputado ex-líder das Farc e aciona Interpol

Jesús Santrich é investigado por suposto envio de dez toneladas de cocaína aos EUA

Buenos Aires

A Suprema Corte da Colômbia ordenou nesta terça-feira (9) a captura do deputado Jesús Santrich, 52, por narcotráfico.

Ex-combatente das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), ele não compareceu a uma audiência para responder a acusações de que teria enviado drogas para os Estados Unidos. 

A Justiça pediu também à polícia internacional (Interpol) que encontre e prenda o ex-guerrilheiro. 
Santrich foi visto pela última vez em 30 de junho no departamento de Cesar, perto da fronteira com a Venezuela.

 
O ex-guerrilheiro Jesús Santrich em sessão no Congresso colombiano
O ex-guerrilheiro Jesús Santrich em sessão no Congresso colombiano - Andres Torres Galeano - 12.jun.19/Reuters

Investigado por um suposto envio de dez toneladas de cocaína aos EUA, que pedem a extradição do ex-guerrilheiro, ele pode ter se juntado ao grupo de dissidentes das Farc que hoje ocupa acampamentos na Venezuela, com a proteção de Nicolás Maduro.

Os juízes afirmaram que inicialmente privilegiaram o “direito fundamental à liberdade” do congressista, mas diante de sua “ausência injustificada”, ele agora deverá ser capturado para que se defenda das acusações. 

A atitude de Santrich, um dos líderes da negociação de paz com o Estado, e que por isso ganhou um posto de deputado no Congresso colombiano, revoltou os defensores do acordo. 

Gustavo Petro, ex-prefeito de Bogotá e ex-candidato à Presidência, disse que seus atos “abalam a credibilidade da paz estabelecida com a guerrilha”.

A chefia da Farc (Força Alternativa Revolucionária do Comum), hoje um partido político, também condenou seu comportamento.

 “A Farc não está de acordo com isso, qualquer um que abale nossa disposição de paz já não pode nem usar o nome do grupo”, disse o hoje senador e ex-líder guerrilheiro Carlos Antonio Lozada.

Santrich tem afirmado que é inocente e que as acusações são parte de um complô dos EUA e da Colômbia para prejudicar o acordo. Na hora da audiência, seus advogados afirmaram que desconhecem os motivos da ausência e não podem dizer onde o cliente está, por questões de segurança.

Os defensores alegam que a proteção prometida pelo pacto de paz a ex-guerrilheiros não está valendo para Santrich porque o presidente da Colômbia, Iván Duque, teria “colocado sua cabeça a prêmio” ao criticá-lo publicamente.
 

Duque alertou que Santrich não poderia mais receber o tratamento combinado com ex-guerrilheiros pois, segundo ele, o agora deputado havia cometido o delito de narcotráfico depois de o acordo de paz ser aprovado, o que o levaria a ser julgado pela Justiça comum.

Santrich estava preso desde abril de 2018, mas foi solto em maio deste ano —o tribunal especial para a paz (JEP) concluiu não ter evidências suficientes de que o envio do carregamento tenha ocorrido antes ou depois de dezembro de 2016, data de assinatura do pacto. 

Se tiver ocorrido antes, ele poderia ser anistiado pelo tribunal. 

Duque e seu partido, o Centro Democrático, querem reformar o estatuto da JEP para que narcotráfico saia da lista dos delitos anistiáveis. 

Essa posição já foi derrotada uma vez no Congresso. A atitude de Santrich, porém, dá força aos críticos do acordo.

Caso Santrich tenha de fato decidido deixar o acordo de paz, ele não será o primeiro entre ex-lideranças das Farc. 

Há alguns meses, Iván Márquez, que também tinha participado das negociações pelo pacto, em Cuba, desapareceu. 

O líder máximo da Farc, o partido político, Rodrigo "Timotchenko" Londoño, diz que a sigla está comprometida com o acordo e que as atitudes de Márquez e de Santrich não "diminuem nossa vontade de ter paz".

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