Descrição de chapéu The Washington Post

Imprensa ganha nova chance de descrever descobertas de procurador especial nos EUA

Robert Mueller fez relatório sobre suposto apoio da Rússia à campanha de Donald Trump

Margaret Sullivan
São Paulo | Washington Post

Na mídia política, assim como no amor, não há muitas chances de se corrigir um erro grave.

Mas os veículos noticiosos terão exatamente isso nesta quarta-feira (24), quando Robert Mueller testemunhar perante o Congresso, meses depois de concluído seu muito aguardado relatório sobre Donald Trump e um possível conluio da Rússia para influir nas eleições de 2016.

O presidente dos EUA, Donald Trump, durante evento em Washington - Nicholas Kamm - 23.jul.2019/AFP

Lembre-se de quão ingênua —e, portanto, enganosa para o público— foi a mídia noticiosa em março, quando o secretário da Justiça, William Barr, caracterizou o relatório ainda não publicado em uma carta de quatro páginas.

A cobertura dessa carta estabeleceu uma narrativa imprecisa que tem sido quase impossível desbancar.

Muitas organizações noticiosas, incluindo algumas das mais proeminentes, tomaram o que Barr disse como fato ou descaracterizaram as conclusões do relatório.

Elas basicamente transmitiram ao público —especialmente em manchetes e boletins de notícias importantes— o que o presidente Donald Trump queria desesperadamente como resultado: nada de conluio, nada de obstrução.

Não apenas isso, grande parte do tratamento da mídia deixou de enfatizar suficientemente que aquela era a interpretação de Barr das conclusões de Mueller.

E muitas das primeiras manchetes e tuítes chegaram a afirmar que Mueller não encontrou evidências de conspiração, embora essa não seja a história toda.

Embora o relatório não tenha encontrado provas suficientes para apresentar acusações de conspiração criminosa entre a campanha de Trump e a Rússia, afirmou que Trump não poderia ser isentado de tentar obstruir a investigação propriamente dita.

E disse que as conclusões de Mueller foram informadas por seu raciocínio de que Trump não poderia ser indiciado, pelo menos em parte devido a um parecer do Departamento de Justiça contra o julgamento de um presidente em exercício.

No entanto, esta foi a grande e realçada manchete do Philadelphia Inquirer: "Nenhuma evidência de conspiração".

E este foi um tuíte da Bloomberg Markets em 25 de março: "Agora que o procurador especial Robert Mueller não encontrou evidências de que o presidente Trump tenha colaborado com a Rússia na campanha presidencial de 2016, a questão é quanto das notícias já está embutido nos mercados".

E o Wall Street Journal —como muitos outros— aparentemente não viu necessidade em sua manchete de atribuir a declaração a Barr. Apenas afirmou: "Mueller não encontra conluio". (Barr foi mencionado em um subtítulo muito menor.)

E a chamada muito assistida do programa "60 Minutes", da CBS, afirmou simplesmente que o relatório isentou Trump.

A mídia pró-Trump foi muito além, é claro. O New York Post, em enormes letras vermelhas, escreveu "sem conspiração, sem obstrução" —e (implicitamente) criticou a mídia: "Dois anos de histeria acabam com absolvição de Trump".

E o próprio Trump alardeou exatamente isso, e mais, de todos os telhados disponíveis.

Tudo isso colocou Barr, como escreveu James Poniewozik, no New York Times, na posição de "o editor que escreve a chamada de capa para todos os navegadores e que nunca realmente leu o documento".

Aqueles que lessem o relatório completo, ou a cobertura detalhada de suas conclusões, ou mesmo a cobertura da imprensa com mais nuances e menos apressada, teriam chegado a um ponto de vista muito diferente.

Como relatou o Washington Post no final de abril, o próprio Mueller ressaltou como a carta de Barr não conseguiu captar totalmente o "contexto, a natureza e a substância" de seu relatório.

Mas então já era tarde demais para mudar a narrativa reforçada, ou sugerir uma leitura mais acurada, embora muitos tenham tentado.

A candidata presidencial democrata Elizabeth Warren, em uma reunião pública da MSNBC, disse que tirou três conclusões depois de uma leitura intensiva, noite adentro, do relatório completo:

"Parte 1: um governo estrangeiro hostil atacou nossas eleições de 2016 com o objetivo de eleger Donald Trump. Parte 2: o então candidato Donald Trump recebeu bem essa ajuda. E parte 3: quando o governo federal tentou investigar as partes 1 e 2, Donald Trump, como presidente, atrasou, desviou, moveu, demitiu e fez tudo o que pôde para obstruir a Justiça".

É verdade, é claro, que a investigação de Mueller não produziu o que muitos inimigos políticos de Trump — e alguns comentaristas de mídia irresponsáveis— esperavam: acusações contra Trump ou seus associados mais próximos, possivelmente membros da família.

Também é verdade que algumas reportagens e comentários na mídia nos últimos dois anos foram exagerados: excessivamente especulativos sobre o que o relatório diria e concluiria.

Nesta quarta-feira, a mídia americana estará no modo "inundação" quando Mueller finalmente depuser.

Não só a audiência será transmitida ao vivo na TV a cabo, como as principais redes abertas deixarão de lado a programação regular para fazer o mesmo. E haverá muitas reportagens especiais, assim como grande quantidade de coberturas em jornais e outros textos.

Algum dano é irrecuperável. Muitos americanos já se decidiram sobre as conclusões de Mueller —e sobre o próprio Trump, não importa o que ele seja ou faça.

E a audiência, sem dúvida, será fortemente politizada por perguntas e pela empáfia concomitante dos que fazem as perguntas.

Mas ouvir diretamente Mueller é importante, mesmo que ele não faça nada além de reiterar o que está em seu relatório. E essa nova rodada de cobertura da mídia também é importante, mesmo porque poderá esclarecer e levar ao ponto exato o que Mueller disse originalmente.

Há aqui uma oportunidade de se remover uma falsa versão de quadrinhos da investigação de Mueller e substituí-la por um retrato honesto de um assunto que dificilmente poderia ser mais importante para o país.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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