Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Indicação de familiares a embaixadas é prática comum em regimes autoritários

Presidente Bolsonaro sinalizou que indicará seu filho Eduardo a embaixador nos EUA

Diana Lott
São Paulo

Arábia Saudita, Coreia do Norte e Chade são alguns dos países que contam com parentes de seus mandatários à frente de embaixadas.

Em comum, os três têm regimes autoritários ancorados em líderes personalistas --e suas extensas famílias.

Em abril de 2017, o rei da Arábia Saudita, Salman bin Abdulaziz al-Saud, nomeou seu filho Khalid bin Salman à embaixada de Washington. O irmão do príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman (conhecido pelas iniciais MBS), tinha apenas 29 anos à época e nenhuma experiência diplomática.

A princesa saudita Reema bint Bandar al-Saud, hoje embaixadora nos EUA, durante evento em Riad
A princesa saudita Reema bint Bandar al-Saud, hoje embaixadora nos EUA, durante evento em Riad - Fayez Nureldine - 24.out.18/AFP

Menos de dois anos depois, ele deixou o cargo em meio à repercussão negativa do assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi. Foi substituído por outro parente do rei, a princesa Reema bint Bandar al-Saud.

No Chade, a nomeação de parentes para altos cargos do regime de Idriss Déby Itno é comum. Seus filhos e irmãos chefiam os principais ministérios, enquanto sua esposa, além de primeira-dama, é uma espécie de chefe de gabinete com amplos poderes para demitir outros membros da administração.

Em maio de 2018, seu filho Zakaria Idriss Deby Itno, então com 33 anos, foi nomeado chefe da embaixada nos Emirados Árabes Unidos, que também compreende a representação diplomática para Omã, Iraque e Bahrein —ele já ocupava cargos no regime desde os 25 anos de idade. 

Mahmoud Adam Bechir, genro do ditador, foi embaixador nos Estados Unidos entre 2004 e 2012. 
Irmão, sogro, sobrinho e genro já chefiaram as embaixadas chadianas na Líbia, Sudão, Arábia Saudita e África do Sul. 

Na Coreia do Norte, Kim Pyong-il, meio irmão de Kim Jong-il (pai do atual ditador, Kim Jong-un), já chefiou uma longa lista de embaixadas. Com formação diplomática, ele já foi embaixador em Hungria, Bulgária, Finlândia, Polônia e República Tcheca.

Analistas afirmam que Kim Jong-un o vê como uma ameaça em potencial, e por isso prefere manter o tio fora do país.

Armênia e Cazaquistão, ex-repúblicas soviéticas, também têm casos de parentes de governantes indicados a embaixadas.

Nursultan Nazarbayev, ditador do Cazaquistão (1990-2019), também nomeou um de seus genros, Rakhat Aliyev, para a representação diplomática na Áustria entre 2002 e 2007.

Venezuela

O regime chavista de Nicolás Maduro, frequentemente criticado pelo presidente Jair Bolsonaro e por seu filho Eduardo, também é marcado pela influência da família do líder Hugo Chávez

Embora não configure um caso de nepotismo, María Gabriela Chávez Colmenares, filha mais nova de Hugo Chávez, assumiu o cargo de vice-embaixadora da Venezuela na ONU em abril de 2014, menos de um ano após a morte de seu pai. 

Desde meados de abril, seu nome não aparece mais na lista oficial de representantes venezuelanos na ONU —não há informações sobre seu atual status na missão diplomática. 

Estados Unidos

Divergindo da grande parte das democracias ocidentais, os Estados Unidos têm histórico de embaixadores sem experiência diplomática nomeados por suas filiações políticas.

George W. Bush e Barack Obama indicaram grandes doadores a suas campanhas para embaixadas na Europa.

Houve apenas um presidente americano que nomeou um parente para uma embaixada: John Adams, o segundo presidente do país (1797-1801), nomeou seu filho John Quincy à representação na Prússia. 

Quincy, que tinha formação diplomática e já tinha chefiado embaixadas durante o governo do predecessor de seu pai, se tornaria o sexto presidente americano, governando entre 1825 e 1829. 

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