Descrição de chapéu The Washington Post Governo Trump

Lembre-se de onde veio, diz cidade natal de avô de Trump ao líder americano

Friedrich Trump deixou Kallstadt, na Alemanha, e emigrou para os EUA em 1885 em busca de melhores condições de vida

Rick Noack
Berlim | The Washington Post

Quando ficou claro que Donald Trump seria o candidato republicano à Presidência em 2016, a pequena cidade alemã de Kallstadt se tornou repentinamente um lugar procurado por jornalistas e turistas curiosos sobre as origens do candidato improvável.

O avô de Trump nasceu lá e migrou para os EUA em busca de oportunidades. Muitos dos 1.200 moradores da cidade, incomodados pela atenção gerada e pela retórica populista adotada por Trump, desejavam que o eventual presidente americano esquecesse esse recanto tranquilo no sudoeste da Alemanha.

O povoado de Kallstadt, na Alemanha
O povoado de Kallstadt, na Alemanha, tinha menos de mil habitantes quando o avô de Trump o deixou - Getty Images/BBC

Agora, depois que Trump pediu a quatro congressistas democratas que "voltem" aos "lugares infestados por crimes de onde vieram", alguns nesta cidade, que já esteve em depressão econômica, estão pedindo ao presidente americano que se lembre de onde veio sua própria família.

"Ver as casas não muito imponentes de seus ancestrais poderia trazê-lo de volta à Terra", disse Thomas Jaworek, o prefeito conservador de Kallstadt, onde nasceu o avô de Trump, Friedrich Trump, que foi embora ainda adolescente.

Jaworek disse que muitos de seus eleitores estão alinhados com o restante da opinião pública da Alemanha sobre Trump, que vê o presidente como uma ameaça.

Embora o prefeito tenha pouco interesse em receber o presidente americano —citando o frenesi de segurança e mídia que causaria—, ele disse que se Trump visitar Kallstadt ele espera que pelo menos ao partir tenha uma opinião diferente sobre migração, cidadania e pertencimento.

Afinal, Jaworek e outros na cidade disseram que Friedrich Trump também foi um migrante.

"Todo mundo tem suas raízes em algum lugar —e exigir que os outros simplesmente deixem o país é paradoxal nele", disse Beatrix Riede, 61, que dirige uma associação de mulheres na cidade.

"Só posso desejar aos americanos que eles elejam alguém que pense antes de dizer alguma coisa", acrescentou Riede.

Friedrich Trump fotografado em Nova York em 1887
Friedrich Trump fotografado em Nova York em 1887 - Getty Images/BBC

Nascido em 1869 em uma família modesta que tinha um pequeno vinhedo, Friedrich Trump inicialmente trabalhou em uma barbearia numa cidade vizinha.

Mas abrir sua própria barbearia em Kallstadt seria difícil, pois já havia um barbeiro na cidade. Friedrich Trump também deveria, pela lei alemã, servir às Forças Armadas durante algum tempo.

"A falta de oportunidades na aldeia parecia sufocá-lo. Sem qualquer chance aparente de uma vida melhor, ele viu que o futuro seria sombrio, difícil e pobre", escreveu Gwenda Blair em seu livro de 2001, "The Trumps: Three Generations That Built an Empire" (Os Trump: três gerações que construíram um império). "Ele parecia não ter escolha a não ser partir."

O jovem de 16 anos encontrou a solução migrando para os Estados Unidos, aonde chegou em 1885.
Mais tarde, voltou e se casou com uma moradora de Kallstadt, Elizabeth Christ, mas acabou retornando para os EUA. As autoridades locais o consideraram um fugitivo do recrutamento.

Mais de um século depois, um de seus netos está seguindo uma política de imigração linha-dura que, se tivesse vigorado na década de 1880, provavelmente teria impedido que Friedrich ficasse nos EUA.
A ironia não escapou aos moradores de Kallstadt.

Cornelia Seidl, 67, que representou o Partido Social-Democrata da Alemanha no conselho local de Kallstadt durante décadas e hoje lidera uma associação de mulheres, disse que os imigrantes são o motor dos EUA.

"É a mesma coisa na Alemanha: precisamos de trabalhadores estrangeiros", disse ela.

Seidl notou que Trump tentou anteriormente esconder sua herança familiar alemã. Mais recentemente, ele afirmou falsamente que seu pai era "da Alemanha", embora fosse seu avô.

Além de sua ligação com Trump, Kallstadt hoje é conhecida por suas vinícolas que atraem turistas e deram à cidade e seus moradores uma certa prosperidade. Mas nem sempre foi assim.

Muitos deixaram a região ao redor de Kallstadt no final do século 19, disse Seidl, porque "as coisas não iam muito bem economicamente na época".

No final do ano passado, os moradores entraram em frenesi depois que a embaixada dos EUA indicou que Trump talvez estivesse interessado em visitar a cidade. Embora os moradores sejam geralmente contrários à posição dura de Trump sobre migração, muitos o teriam recebido bem.

Agora, depois de seus tuítes racistas dirigidos a quatro deputadas democratas de minorias, alguns moradores disseram que ele não é bem-vindo, e que até sua relação distante com a cidade é uma fonte de constrangimento.

A dona de uma pousada local, que quis permanecer anônima por temer um impacto negativo em suas reservas, disse que não esperava que Trump fosse um dia a Kallstadt.

"É triste que este homem tenha origens aqui", disse ela. "Isso quase me deixa pessoalmente envergonhada."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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