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Médica síria cria site para financiar trabalho comunitário em zonas de guerra

Rola Hallam construiu o 1º hospital via 'crowdfunding' do mundo e defende doação para ONGs locais

Flávia Mantovani
São Paulo

Na Síria, organizações locais realizam 75% do trabalho humanitário, mas recebem menos de 1% do financiamento e das doações disponíveis. 

A estimativa, de pesquisadores da iniciativa Local to Global Protection, é sempre citada pela anestesiologista síria-britânica Rola Hallam, 40, porque explica a motivação de seu trabalho: ela criou a CanDo, uma plataforma de financiamento coletivo para ajudar entidades locais em áreas de conflito.

Rola Hallam durante uma conferência no Canadá
Rola Hallam durante uma conferência no Canadá - Ryan Lash-10.abr.18/TED

“Vi essa realidade de perto. Fui treinada para tratar pessoas toda a minha vida, mas crianças morriam na minha frente não por falta de conhecimento, mas porque eu não tinha os recursos necessários para salvá-las”, diz. 

Hallam liderou a construção do primeiro hospital do mundo financiado pelo sistema de “crowdfunding”. Situado em Aleppo, foi batizado de Hope (esperança) e já tratou mais de 52 mil crianças em dois anos. Ela também ajudou a fundar outros seis hospitais em seu país de origem.

Nascida na Síria e vivendo no Reino Unido desde criança, ela diz que sempre quis ser médica, mas não imaginava que seu país seria “destroçado em milhares de pedaços” e que usaria suas habilidades para o trabalho humanitário. “Minha família foi morta e nossas casas foram destruídas. Eu fiz a única coisa que eu sabia e me juntei a outros sírios para ajudar.”

A médica esteve lá pela última vez em abril. “Foi de cortar o coração ver meu país como está. Ao mesmo tempo, foi inspirador ver que há seres humanos maravilhosos que não desistiram de salvar vidas.”

De acordo com a organização Physicians for Human Rights, 890 profissionais de saúde foram mortos em 573 ataques contra 350 centros médicos na Síria entre 2011 e junho de 2019, a maioria por aviões do regime ou da Rússia, que é aliada do ditador sírio Bashar al-Assad. A entidade afirma que não se trata de erro de cálculo, mas de uma "estratégia com o objetivo de alcançar ganhos militares por meio da punição coletiva contra civis, apesar da perda de vidas". 

Hallam acrescenta que muitos dos ataques recentes à região de Idlib, por exemplo —último bastião da oposição síria— foram a hospitais cujas coordenadas haviam sido compartilhadas com os governos dos países envolvidos por meio da ONU, teoricamente para evitar que eles sejam alvo. "É uma indicação clara da natureza deliberada desses ataques", afirma. "É parte de destruir a infraestrutura de saúde e matar médicos como uma arma de guerra e consiste em crime contra a humanidade."

Hallam afirma que tem um processo rigoroso para escolher apenas entidades que realmente geram impacto e que conduz um programa para ajudá-las a desenvolver suas capacidades organizacionais e de comunicação. 

Segundo ela, organizações internacionais gigantescas e as agências da ONU, apesar de fazerem um bom trabalho, são muito caras de manter e ficam com 20% a 30% de cada dólar doado, em média. Além disso, diz, uma parte é perdida no caminho durante terceirizações de organizações maiores para menores.

“As pessoas em situação de crise só sobrevivem por causa do trabalho extraordinário de pessoas que também estão em situação de crise. São pessoas que fazem parte do coração da comunidade afetada, conhecem melhor suas necessidades e corajosamente arriscam suas vidas para ajudar. Elas são um farol de luz na escuridão da guerra ” 

Como ajudar

https://www.candoaction.org/

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