Descrição de chapéu The Washington Post

Não denunciar racismo de Trump é trair a verdade jornalística

Presidente americano insultou congressistas democratas no domingo (14)

Margaret Sullivan
The Washington Post

Muito antes de Donald Trump concorrer à Presidência, uma batalha interna fervilhava no jornalismo sobre as ideias de objetividade e equilíbrio.

Era assim: os repórteres e editores devem lutar por uma espécie de imparcialidade neutra, há muito tempo considerada a marca registrada do jornalismo responsável? 

Ou devem declarar seus preconceitos e permitir que os consumidores de notícias saibam de onde eles vêm, abordagem vista por alguns como mais útil e honesta?

Com Trump dominando a política e a mídia, surge uma terceira questão, mais importante.

Os jornalistas vão abraçar ou abandonar seu trabalho principal, que é dizer a verdade? Se eles vão fazer esse trabalho, devem adotar uma linguagem direta e um enquadramento claro de questões importantes.

No início da Presidência de Trump, surgiu a questão de se usar ou não a palavra "mentira".

A maioria das organizações noticiosas tradicionais estava preocupada com isso. Cerca de 10.000 declarações presidenciais falsas ou enganosas depois, hoje muitos a usam quando apropriado —isto é, quando há uma clara intenção de enganar. O que é bastante frequente.

Agora a questão é a palavra racista.

Os tuítes de Trump que retrataram as legisladoras democratas "de cor" como estrangeiros tiveram meramente um "tom racial"? Eles foram apenas salpicados de brincadeira em tom racial?

E as descrições do que Trump defende devem ser colocadas apenas na boca de seus críticos —um passo distante dos próprios jornalistas? Ou deve-se usar linguagem mais forte, um foco mais preciso?

Isso depende apenas de uma coisa: se os jornalistas querem ser claros sobre o que está bem ali na frente dos olhos e ouvidos de todos.

Nem tudo isso se resume a uma única palavra. Considere, por exemplo, a reportagem analítica de Peter Baker que foi publicada no domingo (14).

Não polemista, o principal correspondente do New York Times na Casa Branca foi de todo modo notavelmente direto.

No início de seu artigo, ele escreveu: "Quando se trata de raça, Trump brinca com fogo como nenhum outro presidente em um século". Nenhum outro presidente moderno, escreveu ele, "abanou as chamas tão abertamente, implacavelmente e até ansiosamente quanto Trump".

Foi difícil não entender.

Foi ainda mais difícil ignorar o ponto em um editorial do Los Angeles Times (representando os pontos de vista do conselho editorial do jornal), cuja manchete era "Trump é realmente o preconceituoso-chefe dos EUA" e que usou palavras como "repugnante" e "nojento" para descrever as declarações do presidente.

Ou no uso pela CNN de "discurso racista" em suas manchetes e letreiros na tela.

Outros não chegaram lá.

Em geral, os noticiários das redes, em seu esforço para atrair a todos, independentemente de filiação política, gostam de tomar um cuidado especial para não ofender.

Então eles usaram o que Brian Stelter, da CNN, chamou com precisão, em seu boletim sobre a mídia, de muleta —por exemplo, a versão do âncora da ABC Tom Llamas: "Os democratas estão chamando os comentários de racistas".

Em uma reportagem do New York Times (não uma análise como a de Baker), os repórteres usaram luvas de pelica para descrever Trump mandando os legisladores voltarem para seus países de origem:

"Envolvida nesse insulto, que foi amplamente definido como um slogan racista, havia uma afirmação factualmente imprecisa: apenas um dos legisladores nasceu fora do país." Antes, uma linguagem ainda menos direta dizia que "os democratas criticaram" as palavras de Trump como um slogan racista; a edição mudou isso para melhor.

O Washington Post usou uma linguagem semelhante à segunda versão (aprimorada) em parte de seu noticiário.

Um artigo na segunda-feira (15) sobre o silêncio republicano quanto aos ataques de Trump usou esta descrição: "Insinuando que as pessoas de cor são estrangeiras, o presidente usou um termo geralmente considerado racista".

Faz sentido que as organizações de mídia sejam cuidadosas e não inflamatórias em sua cobertura de notícias. Esse tipo de cautela continua sendo uma virtude.

Mas uma parte crucial de ser cuidadoso é ser preciso, claro e direto. Quando confrontados com racismo e mentira, não podemos correr e nos esconder em nome da neutralidade e imparcialidade. Fazer isso é um abandono do dever.

O ex-repórter e colunista do New York Times Clyde Haberman, em um tuíte no domingo (14), disse de maneira simples e correta, descrevendo sua própria transição:

"Apesar de décadas de evidências de que Trump é racista, eu resisti a chamá-lo assim porque é uma linguagem polarizadora, que raramente é útil. Mas sua declaração de 'volte para o lugar de onde você veio' me decidiu. Ele é um preconceituoso, e se os republicanos não o denunciam são cúmplices."

Isso também vale para a mídia noticiosa.

Os jornalistas não precisam se considerar ativistas políticos quando dizem coisas óbvias em termos simples. E fazê-lo não os torna agentes democratas, como seus críticos pró-Trump certamente os acusarão.

Significa apenas que eles estão fazendo o trabalho mais fundamental que têm: dizer a verdade da maneira mais clara e direta possível.

Margaret Sullivan é colunista de mídia do Washington Post e foi ombudsman do New York Times entre 2012 e 2015

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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