Descrição de chapéu Venezuela

No Brasil para evento anti-Foro de SP, deputado critica negociação com Maduro

Fase do diálogo já passou, afirma Omar González Moreno, do partido Vente Venezuela

Sylvia Colombo
Buenos Aires

“Os diálogos que estão sendo mediados pela Noruega, em Barbados, assim como os que ocorreram antes, na República Dominicana, não vão levar a nada", diz, em entrevista à Folha, o deputado Omar González Moreno, do partido Vente Venezuela, sobre as tratativas entre a ditadura de Nicolás Maduro e a oposição. 

"Pior, criam expectativa nos venezuelanos de que dali sairá um acordo para uma eleição livre e justa. Não vai acontecer. Estão enganando os venezuelanos mais uma vez.”

Apesar de integrar a Assembleia Nacional, de maioria opositora, e de apoiar o bloco comandado por Juan Guaidó, o Vente Venezuela segue uma linha mais à direita. 

O líder opositor Juan Guaidó gesticula durante discurso na Assembleia Nacional na última terça (23)
O líder opositor Juan Guaidó gesticula durante discurso na Assembleia Nacional na última terça (23) - Manaure Quintero - 23.jul.19/Reuters

Liderado pela veterana María Corina Machado, a legenda aposta no que chamam de “luta da coragem”. Trata-se da ideia de que não se deve mais dialogar com Maduro e que ele só deixará o poder quando acabarem todas as opções, “quando estiver diante de uma ameaça real, ainda que seja pelo uso da força”. 

Para González Moreno, seguir dialogando é uma perda de tempo, e a comunidade internacional, contraditória, pois "chama Maduro de ditador, mas estimula a busca de um diálogo". "A fase do diálogo já passou.”

O venezuelano está em Brasília a convite da deputada Bia Kicis (PSL-DF) para o fórum Encontro da Liberdade, neste sábado (27), evento em contraposição ao Foro de São Paulo, que se reúne desde quinta-feira (25) em Caracas e que terminará, também no sábado, com uma marcha de apoio ao regime de Maduro.

Criado em 1990, o Foro de São Paulo, chamado por González Moreno de "Fórum da Morte", reúne 400 representantes de 120 organizações de esquerda da América Latina. 

As estrelas desta edição são os ex-guerrilheiros das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) Rodrigo Granda e Carlos Antonio Lozada, que receberam autorização da Justiça Especial para a Paz (JEP) colombiana para viajar ao evento.

“Na situação de crise humanitária em que vivemos, o regime de Maduro sediar um evento deste tamanho, pagando passagem e hospedagem para todos os convidados é um absurdo”, diz o deputado oposicionista. 

O parlamentar afirma que, além desses gastos, há o dinheiro investido em propaganda. “Enquanto a população não tem o que comer e não há remédios. É um absurdo que o regime banque um evento como esse depois de a ONU soltar um relatório sobre os graves abusos de direitos humanos que ocorrem na Venezuela.”

Para o deputado, o Foro de São Paulo é uma ameaça real, porque está atuando “para retomar o poder na Argentina, para conquistar o presidente mexicano [Andrés Manuel] López Obrador e para reforçar a esquerda no pleito colombiano em outubro”.

González Moreno já foi governador do Estado de Bolívar, na fronteira com o Brasil, onde está grande parte do chamado Arco Minero del Orinoco, região rica em ouro e sem a presença de autoridades ou qualquer tipo de regulamentação da exploração do minério.

Nos últimos anos, com a inflação e a escassez de recursos nas grandes cidades, muitas pessoas buscam o Arco Minero para conseguir ouro.

O problema é que, pela falta de orientação e de regras para a atividade, essa exploração é feita de maneira não apropriada e tem, segundo estimativas de ONGs de saúde do país, colaborado para a disseminação de doenças como a malária.

“Além desse problema gravíssimo de saúde, que a estrutura estatal não tem como atender porque está sucateada, nessa região estão acampados o ELN [guerrilha colombiana Exército de Libertação Nacional], os dissidentes das Farc, paramilitares e grupos criminosos que praticam estelionato contra a população e contra quem vai exercer essa atividade apenas para levar para casa algo de ouro que possa alimentar sua família", diz o parlamentar. "O regime de Maduro faz vista grossa para essa terra sem lei.”

O deputado ainda corroborou a declaração do Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, que, em visita a Buenos Aires, na semana passada, afirmou sem apresentar evidências que a milícia libanesa Hizbullah e outros grupos extremistas estariam atuando na região.

“Não tenho dúvidas de que, no caso da Venezuela, é no Estado Bolívar que eles estão em maior número. Temos evidências a partir do fato de terem sido localizados ali iranianos com vínculos com esses grupos usando passaportes venezuelanos”, diz.

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