Descrição de chapéu The New York Times

Novo prefeito de Istambul surge como grande rival de Erdogan

Ekrem Imamoglu venceu após seu partido adotar mensagens direcionadas aos trabalhadores

Carlotta Gall
The New York Times

Mesmo antes de começar seu primeiro dia de trabalho como novo prefeito de Istambul, Ekrem Imamoglu já vinha sendo comentado como um homem que poderia se tornar capaz de desafiar o presidente Recep Tayyip Erdogan pela liderança da Turquia, dentro de quatro anos.

Por enquanto ele prefere evitar a questão e insiste em que pelos próximos cinco anos se concentrará em servir Istambul, uma vasta metrópole de 15 milhões de habitantes, um quarto dos quais vive abaixo da linha da pobreza.

Ekrem Imamoglu, novo prefeito de Istambul, antes de fazer o discurso da vitória
Ekrem Imamoglu, novo prefeito de Istambul, antes de fazer o discurso da vitória - Bulent Kilic - 23.jun.19/AFP

"No momento sou uma pessoa completamente concentrada em governar", disse em uma conversa com jornalistas estrangeiros durante seu primeiro dia de mandato, na sexta-feira passada. "Mas se existem aqueles que veem nossa estrela assim tão alta no firmamento, nós agradecemos."

 
Não existe dúvida de que ele constitui uma grande ameaça ao presidente. Imamoglu disse que pretendia aproveitar plenamente o vasto apoio popular que resultou em sua eleição por vasta vantagem na repetição da eleição para a prefeitura, em 23 de junho, como mandato para combater o autoritarismo de Erdogan e levar a democracia e a equanimidade a todos os turcos.

"A eleição provou ser uma luta pela nação", disse o novo prefeito sobre o pleito, discurso repetido depois que o partido de Erdogan invocou irregularidades e contestou sua derrota na primeira votação, em março. "Foi uma eleição sobre Istambul, mas ao mesmo tempo uma luta pela democracia".

Por trás dele está o Partido Republicano Popular, ou CHP, na sigla em turco, o partido mais antigo da Turquia, fundado pelo primeiro presidente do país, Mustafa Kemal Ataturk, e o principal desafiante ao domínio de Erdogan sobre o cenário político.

Desde que Erdogan chegou ao poder com seu Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, na sigla em turco), em 2002, a oposição vem fracassando em seus esforços para desalojá-lo ou impedi-lo de expandir seu controle sobre as instituições da Turquia, muitas das quais orgulhosamente criadas por Ataturk e parte de seu legado.

Na verdade, o partido oposicionista foi derrotado em tantas eleições que parecia condenado a representar uma proporção cada vez menor da sociedade, a elite laica que cada vez mais vem optando por se radicar no exterior.

O CHP vinha enfrentando dificuldades para combater a crescente percepção de que Erdogan era invencível, disse Kemal Kilicdaroglu, presidente do partido desde 2010. Sua proporção dos votos totais estava estagnada em torno dos 25%, enquanto o AKP vinha registrando apoio de 40% a 50% nas pesquisas.

Kilicdaroglu, 70, um burocrata aposentado, vem trabalhando silenciosamente para reverter essa situação.

Nove anos na oposição o ensinaram que o CHP precisava não só se reinventar como se abrir para o mundo intelectual e acadêmico e para as pessoas comuns.

Em lugar de criticar Erdogan, precisava oferecer soluções para os problemas do povo, ele disse em uma entrevista na sede de seu partido na capital da Turquia, Ancara.

Ele se esforçou por conquistar os seguidores de Erdogan —a maioria dos quais da classe trabalhadora e das camadas pobres da população urbana— , direcionando mensagens a setores específicos como os trabalhadores autônomos de construção, e conversando com as pessoas em seus bairros.

"Havia diferenças grandes entre nossa linguagem e a do AKP", ele disse. "Desenvolvemos uma linguagem que os partidários deles ouvem, e encontramos oportunidades de falar, nesse espaço".

O partido encontrou um sentimento generalizado de injustiça, na sociedade, e não só por conta das prisões e expurgos ordenados por Erdogan depois de um golpe de Estado fracassado em 2016; havia insatisfação da parte de um eleitorado muito mais amplo no país, que "acreditava que a justiça não teria como vencer".

Kilicdaroglu comandou uma marcha pela justiça de 400 quilômetros de extensão, entre Ancara e Istambul, na metade de 2017, atraindo centenas de milhares de participantes em um esforço multipartidário para estimular a participação da sociedade.

O partido também teve de passar a limpo seu passado nada democrático. Nas décadas iniciais da república, o CHP era o único partido, e portava a bagagem política de ser considerado como praticamente coincidente com o Estado. A agremiação continua a ser criticada por seu elitismo e pela discriminação de minorias étnicas e dos militantes islâmicos, no passado.

Kilicdaroglu é membro da minoria religiosa alevi, e disse ter encorajado os representantes do partido a promover a autocrítica, especialmente ao dialogar com partidários do AKP, e a que buscassem relacionamentos mais estreitos com partidos democráticos menores.

O mais recente desdobramento dessas mudanças foi o sucesso do partido em eleger prefeitos em seis das cidades mais importantes da Turquia, graças a uma seleção cuidadosa de candidatos e, em parte, a uma aliança com outros partidos oposicionistas.

Imamoglu é um dos seis prefeitos que o partido vê como uma nova geração de políticos capazes de ir além da base tradicional do CHP. A maioria deles não vem das fileiras existentes de legisladores do partido.

"Uma de nossas tarefas é conseguir que essa situação se torne sustentável", disse Kilicdaroglu. "Nosso trabalho começa agora. Temos de fazer dele um sucesso, e manter nosso relacionamento com os demais partidos que se alinham com a democracia".

Um dia depois de sua posse, Imamoglu conversou com jornalistas de todo o mundo a fim de anunciar uma estratégia de abertura e transparência que, ele espera, virá a atrair milhões de novos turistas e investimentos a Istambul.

Ele disse que buscaria colaborar com Erdogan e apontou que o presidente lhe havia desejado sucesso em um discurso à sua base legislativa, dois dias depois da eleição.

"Nossa reconciliação pode fazer com que nosso país e nossa cidade ganhem muito", disse o prefeito sobre seu relacionamento com Erdogan. "É nisso que estou pensando. É algo que exigirei insistentemente, e veremos juntos como reage o presidente".

Mas ele também sinalizou que confrontaria Erdogan se o presidente tentasse atrapalhar seu governo da cidade.

Imediatamente antes da eleição, o governo de Erdogan circulou um documento que limitaria o poder dos prefeitos para indicar administradores para empresas que atendem os municípios, disse Imamoglu.

A circular transferiu poder da prefeitura para o legislativo municipal, e o partido de Erdogan detém maioria em muitos legislativos municipais. A prefeitura de Ancara já apresentou uma queixa contra a circular, que foi anulada, disse Imamoglu.

Essa foi provavelmente apenas uma das primeiras tentativas nesse sentido, ele disse, acrescentando que "pode ser que haja litígios mais adiante".

Imamoglu disse que planeja usar a transparência e o poder da opinião pública para desbloquear a resistência dos burocratas e superar os obstáculos políticos criados por Erdogan. Nos seus 17 dias iniciais de governo antes que a primeira eleição fosse anulada, ele transmitiu sessões do legislativo municipal na internet para manter o público informado.

"É como se eles não tivessem aprendido a lição do 23 de junho", disse Imamoglu sobre a circular do governo nacional. "Mas já vimos que quando manobras políticas causam impasses em vez de uma solução, a vontade do povo, a vontade dos cidadãos, se sobrepõe a tudo".

Ele disse que a mídia noticiosa situacionista também descobriria que será necessário moderar sua cobertura, depois do resultado da eleição. "Creio que a eleição lhes ensinou uma lição", ele disse.

"Aprenderam que a difamação e as notícias enganosas não os levarão a lugar algum".

O resultado da eleição mostrou que o povo turco não aceita que vontades lhes sejam impostas, ele disse.

"Provamos que os políticos ou partidos políticos que adotam a abordagem do 'sempre estou certo' jamais poderão governar este país", ele disse, em uma crítica ao governo cada vez mais autoritário de Erdogan.

"Se continuarem se comportando assim, chegará o dia em que o país lhes ensinará uma lição nas urnas".

Tradução de Paulo Migliacci

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