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The Washington Post

Para a China, um dilema crescente: o que fazer com Hong Kong

Série de protestos no território contra projeto de lei de extradição desafia rígido controle de Pequim

Shibani Mahtani Anna Fifield
Washington Post

Em Hong Kong, território semiautônomo da China, manifestantes invadiram e ocuparam a sede do legislativo e depredaram seletivamente alguns símbolos da soberania de Pequim, depois de semanas de imensas manifestações.

Na China continental, enquanto isso, a dissidência vem sendo silenciada, as notícias são censuradas pesadamente e as críticas ao governo são punidas.

Essa diferença gritante representa um problema crescente para Pequim: por quanto tempo Hong Kong pode e deve ser autorizado a manter uma postura tão desafiadora antes que o território se torne ingovernável, sob os rigorosos padrões chineses?

O protesto da segunda-feira (1º), planejado para o aniversário da transferência da soberania sobre Hong Kong do Reino Unido à China, estava repleto de simbolismo.

Os manifestantes removeram a bandeira chinesa de um mastro e a substituíram por um pavilhão negro enfeitado por uma "bauhinia" (a flor do emblema de Hong Kong), com pétalas escuras e ressecadas.

Dentro da sede do legislativo, os manifestantes pichavam com tinta spray qualquer referência à "República Popular da China".

O gesto mais grave talvez tenha sido o uso da bandeira colonial britânica de Hong Kong para decorar a Câmara, 22 anos depois que ela foi baixada no local pela última vez.

"É um significado simbólico importante, sério, de que Pequim não gosta, e eles ficarão zangados por o governo de Hong Kong e a executiva-chefe Carrie Lam não terem controlado a situação", disse Ho-Fung Hung, especialista em economia política chinesa e em política de Hong Kong na Universidade Johns Hopkins.

Em uma entrevista antes da escalada dos protestos na segunda-feira, Ronny Tong, membro do gabinete de Hong Kong e assessor de Lam, fez uma advertência ainda mais séria.

"Quando há problemas em Hong Kong, quando as coisas se amargam e há violência nas ruas, nosso medo é que a polícia seja incapaz de controlar o que está acontecendo aqui; existe um risco, remoto, de que o exército chinês termine envolvido", disse Tong. "Isso seria o fim do regime de 'um país, dois sistemas'."

A mídia estatal e as autoridades da China adotaram uma linha dura contra os protestos, que se intensificaram e passaram a incluir apelos por mais autonomia e por garantias democráticas quanto a Hong Kong. O Global Times, um jornal do Partido Comunista chinês, disse que os manifestantes agiram "por arrogância e raiva cegas" e "demonstraram completa desconsideração para com a lei e ordem".

Em comunicado divulgado na terça-feira (2), o escritório de ligação da China em Hong Kong e Macau condenou a invasão da sede do legislativo como ação de "radicais extremistas" e expressou apoio a "sanções criminais contra os agressores violentos".

"É como se fosse uma instrução", disse Jean-Pierre Cabestan, professor da Universidade Batista de Hong Kong, sobre o comunicado. Lam, a executiva-chefe de Hong Kong, foi "instruída a ser severa".

Manifestante tenta cobrir o emblema de Hong Kong, dentro do Parlamento do território, com uma bandeira da era colonial britânica - Anthony Wallace/AFP

A intensidade sem precedentes dos protestos da segunda-feira deu a Pequim "um motivo para interferir de forma muito mais direta e muito mais repressiva" quando o assunto é Hong Kong, ele acrescentou.

Quando Hong Kong foi devolvido à China em 1997, foi-lhe prometido um grau elevado de autonomia, o que incluiria um sistema político, um legislativo e uma estrutura econômica próprios.

O território vem há anos servindo como exceção democrática na região, e as manifestações que acontecem por lá —especialmente na data da repressão aos manifestantes da praça Tiananmen— são um evento anual que costumava ser realizado em clima família.

Mas durante uma ocupação das ruas de Hong Kong que durou 79 dias em 2014 surgiu um primeiro desafio direto ao domínio de Pequim, como protesto mais veemente em relação ao avanço da influência política chinesa.

Depois da manifestação, as autoridades seguiram uma receita conhecida: os líderes dos protestos foram detidos e encarcerados, em processos prolongados. Os jovens ativistas que chegaram à fama durante os protestos, conhecido como Revolução dos Guarda-Chuvas, foram impedidos de disputar postos no legislativo.

A ideia, dizem analistas, era reprimir o ímpeto, domar a sociedade civil de Hong Kong e encorajar os manifestantes a não repetir os protestos —uma estratégia que em geral funcionou, por cinco anos— até as últimas semanas.

"Eles julgaram que seria impossível governar Hong Kong depois da Revolução dos Guarda-Chuvas", disse Hung. "Mas decidiram promover detenções em massa, colocar os líderes atrás das grades. Imaginavam que a sociedade civil de Hong Kong se paralisaria." "Foi uma surpresa muito grande", acrescentou.

Milhões de pessoas saíram às ruas de Hong Kong nas últimas semanas, motivadas por uma lei que autorizaria extradições de cidadãos locais ao território chinês propriamente dito.

A lei terminou por ser retirada, para todos os fins práticos, mas o movimento de protesto se expandiu para expressar queixas acumuladas —mais fundamentalmente, a de que o governo de Hong Kong não é eleito diretamente e tampouco pode ser considerado como genuinamente representativo.

Alguns dos manifestantes que batalharam por horas para invadir a sede do legislativo de Hong Kong na segunda-feira disseram não temer coisa alguma, nem mesmo a prisão ou a morte. Especialistas e observadores dizem que os manifestantes mais radicais vêm de famílias de classe baixa, e refletem o forte senso de desesperança existente em uma das cidades mais desiguais do planeta.

Cabestan argumentou que Pequim vai querer que o governo de Hong Kong comece a tratar dessas questões a fim de atenuar a motivação social da inquietação: uma mistura de "estímulos e ameaças".

"Pequim por um lado tentará convencer as autoridades de Hong Kong a conferir mais benefícios aos despossuídos", disse. "Por outro lado, Pequim colocará Hong Kong na rédea curta."

Mas o governo de Hong Kong continua enrascado, no entanto. O mercado de moradia do território tem os preços mais altos do planeta, e qualquer solução não seria imediata.

Enquanto isso, as detenções em massa que Pequim deseja quando ocorrem manifestações como a da segunda-feira acarretam o risco de despertar de novo a ira na China continental.

No mês passado, cerca de dois milhões de pessoas participaram de uma manifestação, movidas pelo choque causado pela violenta repressão policial aos jovens manifestantes que haviam cercado a sede do legislativo alguns dias antes.

E há também a questão fundamental da legitimidade do governo de Hong Kong e da demanda pelo sufrágio universal —concessão que Pequim vê como virtualmente impensável.

"Sinto que, em longo prazo, qualquer forma de inquietação social não poderá ser resolvida sem considerar alguma modalidade de reforma na estrutura política, especialmente para os jovens", disse Michael Tien, um legislador pró-Pequim, em entrevista.

Há uma "frustração fundamental" ele acrescentou, pelo fato de o legislativo de Hong Kong "não estar salvaguardando os interesses dos cidadãos".


Histórico de protestos em Hong Kong

20.dez.1984 Margaret Thatcher e Zhao Ziyang assinam acordo para devolução do território de Hong Kong à China

1º.jul.1997 Hong Kong retorna ao domínio chinês, depois de mais de um século como colônia inglesa

1º.jul.2003 Tentativa de introduzir legislação que proibia subversão contra o governo chinês leva 500 mil opositores às ruas 

2007 Dirigente chinês Hu Jintao promete que em 2017 o legislador de Hong Kong será escolhido por voto direto

29.jul.2012 Estudantes, pais e professores protestam contra tentativa de autoridades de incluir no currículo das escolas de Hong Kong tópicos sobre história e identidade nacional chinesa

14.mar.2013 Xi Jinping toma o poder na China e aumenta o cerco contra as liberdades de Hong Kong

set. a dez.2014 Governo chinês apoia eleições diretas em Hong Kong, mas estabelece que os candidatos precisam antes ser aprovados pelo Partido Comunista. Tal atitude gera o Movimento dos Guarda-Chuvas, protesto pró-democracia

5.ago.2016 Primeiro protesto pela independência do território reúne milhares em frente à sede do governo

set.2016 Geração de ativistas pró-independência ganha assentos no Parlamento

mar.2017 Promessa de voto direto não se concretiza, e Carrie Lam é eleita chefe executiva de Hong Kong entre candidatos apontados por Pequim 

jun.2017 Dirigente chinês Xi Jinping dá posse a Lam e alerta contra aventuras independentistas

set.2018 Partido Nacional Hong Kong, pró-independência, é banido

abr.2019 Governo Lam propõe projeto de lei que facilita extradição de réus para a China continental

abr.2019 Corte de Hong Kong condena nove líderes dos protestos pró-democracia de 2014 

6.jun.2019 Protestos contra projeto de lei de extradição têm início

12.jun.2019 Votação de projeto é adiado após protestos que reúnem milhares

18.jun.2019 Carrie Lam pede desculpas e adia por tempo indefinido projeto de lei de extradição, mas não o cancela por completo

1º.jul.2019 Manifestantes invadem Parlamento​

Tradução de Paulo Migliacci

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