Navios do Irã estão parados no Brasil devido a sanções americanas

Presidente Bolsonaro diz que empresas haviam sido alertadas

São Paulo , Rio de Janeiro e Brasília | Reuters

Dois navios de bandeira iraniana que trouxeram ureia ao Brasil e pretendiam retornar ao Irã carregando milho brasileiro estão parados ao largo do porto de Paranaguá (PR) desde o início de junho, com dificuldades de obter combustível para a viagem ao país asiático devido às sanções americanas à república islâmica.

Os EUA ampliaram suas sanções contra o Irã neste ano, visando atingir o setor petrolífero do país. Isso atrapalhou o reabastecimento dos navios, com a estatal Petrobras recusando-se a vender combustível por temer represálias ao violar as regras americanas.

O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta sexta (19) que o governo federal alertou as empresas brasileiras sobre embargos dos EUA impostos contra o Irã.

O navio iraniano Bavand próximo ao porto de Paranaguá, no Paraná - Joao Andrade/Reuters

“Existe esse problema, os EUA de forma unilateral, pelo que me consta, têm embargos levantados contra o Irã, as empresas brasileiras foram avisadas por nós desse problema e estão correndo o risco nesse sentido”, disse Bolsonaro, em entrevista a jornalistas após participar de solenidade do Dia Nacional do Futebol, em Brasília.

“Eu particularmente estou me aproximando cada vez mais do [presidente dos EUA Donald] Trump, fui recebido duas vezes por ele. Ele é a primeira economia do mundo, segundo mercado econômico, e hoje abri que o Brasil está de braços abertos para fazer acordos, parcerias, para o bem dos nossos povos.”

Em nota nesta sexta, a Petrobras reiterou “que não forneceu combustível à empresa exportadora, pois os navios iranianos por ela contratados e a empresa iraniana proprietária dessas embarcações encontram-se sancionados pelos EUA”.

“Caso a Petrobras venha a abastecer esses navios, ficará sujeita ao risco de ser incluída na mesma lista, o que poderia ocasionar graves prejuízos à companhia.”

Os iranianos são os maiores importadores de milho do Brasil e também estão entre os principais compradores de soja e carne bovina. Embora alimentos não sejam o foco das sanções dos EUA, o caso levanta alguma preocupação sobre as exportações do agronegócio ao país islâmico.

O navio Bavand já carregou cerca de 50 mil toneladas de milho, em maio, no porto catarinense de Imbituba, enquanto o Termeh deveria chegar em meados de julho ao local para carregar 66 mil toneladas do cereal, segundo informações de agentes do setor portuário.

Ao menos um outro navio iraniano, o Daryabar, que está na mesma lista de sanções, carregou milho em Imbituba em junho e partiu, segundo documento de agência marítima, que aponta também que outra embarcação do Irã sancionada, a Ganj, deve carregar o produto em agosto.

Outras embarcações com milho brasileiro vendido ao Irã, transportado em navios fretados por outras companhias multinacionais de outras nações, deixaram o país sem problemas recentemente, segundo os dados marítimos.

A notícia sobre o problema relacionado ao combustível surpreendeu a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec).

Funcionários do navio Bavand, que está parado no porto de Paranaguá, no Paraná - João Andrade/Reuters

“Completa surpresa, os navios das nossas exportadoras continuam exportando normalmente, qualquer sanção em comida está fora. Diria que não espero impacto [na exportação de milho e soja do Brasil], comida está fora dessa história, alimento está fora de qualquer processo de sanção”, afirmou o diretor-geral da Anec, Sérgio Mendes.

Ele disse acreditar que o problema de combustível com os dois navios seja um caso isolado. “Tanto que os navios dos nossos associados estão carregando normalmente.”

Não ficou totalmente claro por que os navios ainda não partiram de volta e se outras companhias não querem fornecer o combustível também por temerem sanções dos EUA.

A Sapid, dona dos navios, não respondeu a pedidos de comentários.

O caso, com um navio de um país sancionado tentando comprar combustível da Petrobras durante sua rota de passagem pelo Brasil, é algo inédito, de acordo com uma fonte na estatal.

Uma fonte, que falou sob condição de anonimato, disse que, como a Petrobras tem ações na Bolsa de Nova York, fica impedida de negociar com empresas/países sancionados. 

De acordo com outra fonte da Petrobras, a empresa teve de recorrer de decisão judicial no Brasil para manter sua posição de não fornecer o combustível aos navios iranianos.

No primeiro semestre de 2019, o Irã importou cerca de 2,5 milhões de toneladas de milho do Brasil, praticamente o mesmo volume importado no mesmo período do ano passado, segundo dados do governo brasileiro.

O país asiático é também um dos principais clientes da indústria de soja, tendo importado no mesmo período 1,25 milhão de toneladas, ante aproximadamente 1 milhão no mesmo período do ano passado.

 
 
Marta Nogueira, Rodrigo Viga Gaier , Roberto Samora , Marcelo Teixeira e Lisandra Paraguassu
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