Descrição de chapéu

Pedido de impeachment é mais um capítulo da crise política do Paraguai

País vive instabilidade desde processo contra Fernando Lugo, em 2012, que durou apenas 36 horas

Sylvia Colombo
Buenos Aires

​A efervescência que se vê nas ruas do Paraguai nos últimos dias já vinha sendo anunciada havia alguns meses.

Quando Mario Abdo Benítez, 47, tomou posse da Presidência do Paraguai, em agosto do ano passado, já encontrou um país dividido. Querido pela velha guarda do Partido Colorado, Marito (como é conhecido pelos apoiadores) foi celebrado como um renovador do conservadorismo paraguaio.

Mario Abdo Benítez, presidente do Paraguai, se encontra em Brasília com o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, em março
Mario Abdo Benítez, presidente do Paraguai, se encontra em Brasília com o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, em março - Sergio Lima - 12.mar.2019/AFP

Essa ala da legenda nunca tinha engolido de fato seu antecessor, o "outsider" Horacio Cartes (2013-2018), e celebrou a volta de um sobrenome conhecido na agrupação —o pai de Abdo Benítez havia sido secretário particular do ditador Alfredo Stroessner.

Nas ruas de Assunção naquele dia, porém, enquanto recebia a faixa de presidente, a polarização do país já era sentida. À época, a Folha conversou com algumas das pessoas que carregavam fotos de desaparecidos ao longo de toda a avenida pela qual a caravana presidencial passaria.

"A ideia é que ele e seus convidados vejam que não nos esquecemos de nossos parentes", dizia uma senhora.

Abdo Benítez havia vencido seu rival, Efraín Alegre, por uma margem justa (46,4% contra 43,2%), tanto que este alegou fraude, pediu recontagem dos votos e levou sua militância às ruas. 

O ano anterior à eleição também foi marcado pela incerteza e por manifestações de rua. Isso porque tanto o então presidente Cartes como seu arqui-inimigo, o ex-mandatário Fernando Lugo (que foi afastado do poder em 2012 por um impeachment que durou apenas 36 horas), estavam unidos numa causa: alterar a Constituição paraguaia, que não permite a reeleição, para que ambos pudessem disputar a Presidência.

Os apoiadores de Cartes no Senado chegaram a aprovar a emenda constitucional necessária para mudar a Carta numa sessão paralela, à revelia do presidente da Casa, que era de oposição, na madrugada de 1º de abril de 2017. 

O que ocorreu na sequência foi que um grupo de manifestantes cercou o Congresso para protestar —houve confusão, com a polícia soltando bombas de gás lacrimogêneo e atuando de forma violenta. Os manifestantes, então, colocaram fogo numa das guaritas dos policiais e logo começou um incêndio no próprio prédio do Congresso.

Quando isso ocorreu, começou a correria e os distúrbios no centro de Assunção, que terminou com dezenas de feridos e de detidos.

Cartes teve de se conformar com a impossibilidade de disputar a reeleição. Sendo assim, porém, em meados de 2018 decidiu que não terminaria o mandato, para poder exercer um cargo de senador, e não ganhar um título de senador honorário, ou seja, que não teria poderes.

Houve novos protestos enquanto seu pedido era avaliado pelo Congresso, até que Cartes, mesmo já tendo mudado de residência, teve de permanecer no cargo até o final.

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