Pequenas doações de numerosos doadores viram tática de candidatos nos EUA

Democratas buscam se desvincular de grandes empresas para atrair eleitorado progressista

Marina Dias
Washington

​Em um país onde o voto não é obrigatório, convencer mais de 400 mil pessoas a doarem dinheiro para sua campanha um ano e meio antes da eleição parece tarefa árdua.

Ainda mais se outros 23 competidores congestionam a arena da mesma disputa: tornar-se o candidato do Partido Democrata à Presidência dos Estados Unidos em 2020.

Mas o prefeito de uma pequena cidade de Indiana cumpriu a missão. Em quinto lugar nas pesquisas, Pete Buttigieg (pronuncia-se bãrêditchi) arrecadou US$ 24,8 milhões no segundo trimestre e bateu o favorito entre os democratas, o ex-vice-presidente americano Joe Biden.

O pré-candidato democrata à Presidência Pete Buttigieg durante evento em Chicago
O pré-candidato democrata à Presidência Pete Buttigieg durante evento em Chicago - Scott Olson - 2.jul.19/Getty Images/AFP

Após a divulgação dos números da campanha do prefeito à Casa Branca, Biden anunciou na quarta (3) que havia conseguido arrematar US$ 21,5 mi (R$ 82,1 milhões) entre abril e junho deste ano.

A estratégia para impulsionar as cifras e mostrar mais engajamento do eleitorado é apostar em pequenos doadores —pessoas que contribuem com menos de US$ 200 (cerca de R$ 800) a campanhas políticas.

No caso de Buttigieg, o valor médio das doações foi de US$ 47, enquanto os que investiram em Biden o fizeram, no geral, com cerca de US$ 49.

A equipe do ex-vice de Barack Obama disse que 97% do total arrecadado vieram de contribuições pequenas, e que Biden só ficou atrás de Buttigieg porque entrou na corrida apenas no fim de abril.

Desde 2016, o estímulo a pequenos doadores vem ganhando força nas eleições americanas e ecoa no discurso de candidatos mais à esquerda.

Eles afirmam que não quererem se vincular ou dever favores a ricos, lobistas ou grandes empresas do país e investem na ampliação do universo dos que contribuem com menos.

Ao contrário do Brasil, a doação empresarial a campanhas eleitorais não é proibida nos EUA, mas sua prática é vista como um problema por parte dos eleitores jovens e progressistas, um dos principais nichos dos democratas.

Apesar de comemorarem as doações pequenas em seus montantes milionários, Buttigieg e Biden não deixam de receber contribuições tradicionais, de grandes executivos.

Primeiro candidato abertamente gay a concorrer à Casa Branca, Buttigieg expandiu o foco LGBTQ nos últimos três meses com atividades de campanha bastante variadas. Participou de 20 eventos de arrecadação de fundos populares, com entradas a partir de US$ 15. 

Mas também foi a pelo menos 50 outros para os quais o ingresso custava cerca de US$ 2,8 mil —doação individual máxima permitida pela lei durante as eleições primárias. 

Já os senadores Bernie Sanders e Elizabeth Warren, também pré-candidatos democratas, fecharam totalmente as portas para grandes doadores.

Em segundo lugar nas pesquisas, Sanders era o campeão de arrecadações no primeiro trimestre de 2019, com US$ 18 milhões, sendo US$ 15 milhões deles acumulados com cotas abaixo de US$ 200.

Na última semana, o senador por Vermont reforçou sua retórica inaugurada há três anos, quando perdeu a nomeação para Hillary Clinton. 

Ele voltou a dizer que não aceita doações milionárias e que rejeitou dinheiro de executivos de Wall Street —o centro financeiro de Nova York— e da indústria do petróleo.

De acordo com dados da comissão eleitoral americana, mais da metade do dinheiro conseguido pelos democratas no primeiro trimestre foi formada a partir de contribuições de pequenos doadores.

Sanders e Warren —ela está em terceiro nas pesquisas— ainda não divulgaram os valores arrecadados por suas campanhas no segundo trimestre e têm até o próximo dia 15 de julho para fazê-lo.

 

Donald Trump também joga o xadrez dos pequenos doadores. Com alto engajamento  de seus apoiadores nas redes sociais, o presidente americano anunciou no início do mês que sua campanha à reeleição conseguiu US$ 54 milhões no segundo trimestre.

O valor médio médio das doações foi de US$ 48 —participação de pequenos doadores sem precedentes na história do Partido Republicano.

Se de seu lado Trump joga praticamente sozinho na corrida para seguir presidente dos EUA —o ex-governador de Massachusetts William Weld tenta obter a nomeação republicana—, 24 candidatos se enfrentam do lado democrata.

E o tamanho da arrecadação é fundamental para participar dos debates e continuar na disputa interna do partido. 

No mês passado, somente os que tinham 1% nas pesquisas e receberam doações de pelo menos 65 mil pessoas puderam participar dos debates —três nomes ficaram de fora.

Para a segunda rodada, marcada para o fim deste mês, no estado de Michigan, a régua deve aumentar.

Em uma disputa tão pulverizada, a mobilização e o engajamento dos eleitores vai ser determinante para quem for escolhido para enfrentar Trump em uma eleição por ora imprevisível.

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