Pré-distribuir habilidades é melhor jeito de reduzir desigualdade, diz Nobel de Economia

James Heckman afirma que só é possível haver livre competição com igualdade de oportunidades

Fernanda Mena
Chicago

Políticas para a primeira infância podem ser o antídoto contra a perpetuação de desigualdades de uma geração para outra. Isso porque a tendência é que famílias estruturadas invistam na educação dos filhos desde o berço, enquanto as mais vulneráveis não conseguiriam fazê-lo, consumidas pela batalha da sobrevivência diária.

O economista James Heckman, 75, já havia sido consagrado com um prêmio Nobel quando descobriu a relação entre a desigualdade e o estímulo a crianças de zero a cinco anos de idade.

james heckman
O professor James Heckman, da Universidade de Chicago, no Rio de Janeiro - Simone Marinho - 7.mai.12/Agência O Globo

Sua pesquisa acompanhou indivíduos expostos a estímulos no início da vida e descobriu que, no longo prazo, eles obtiveram melhor desempenho escolar, salários mais altos, melhor saúde e menor envolvimento com crimes. Tais benefícios, constatou, estenderam-se à geração seguinte.

“São as habilidades que farão com que alguém deixe de ser meramente uma criatura de seu berço desprivilegiado”, disse Heckman à Folha no Centro de Economia do Desenvolvimento Humano da Universidade de Chicago (EUA), que dirige. “Quanto mais as pessoas adquirirem competências, menor tende a ser a desigualdade.”

A partir da ideia de que é possível aprender habilidades que garantirão melhores escolhas, mais trabalho e mais renda, Heckman defende como melhor estratégia de redução da desigualdade a pré-distribuição de competências, no lugar da redistribuição de renda.

Com isso, ele refuta cânones do pensamento político ocidental à esquerda e à direita. Assim, de um lado, falar em classes sociais é “algo que pertence ao reino da eugenia”; de outro, a livre competição defendida pelos ultraliberais só é possível com igualdade de oportunidades, algo atingível apenas por meio de políticas públicas.

Heckman defende também que a pré-distribuição tenha como base as famílias, que passam por mudanças estruturais profundas nas sociedades contemporâneas e, por isso, precisam de apoio.

Para reduzir desigualdades, pré-distribuição é melhor que redistribuição? Antes de discutirmos a redistribuição de dinheiro de um adulto para outro, precisamos pensar em prover crianças com as habilidades básicas para o mercado de trabalho no futuro.

Nessa fase, do nascimento até os cinco anos, as crianças são muito maleáveis, aprendem com grande facilidade e podem desenvolver uma base sobre a qual aprenderão todas as proficiências que a vida vai lhes oferecer. E isso cria vantagens diante das oportunidades que a vida ou mesmo a escola proporcionam.

É preciso preparação para a vida escolar? Sim. Quando falamos em adquirir destrezas, não basta mandar as crianças para a escola. É preciso que estejam preparadas para receber o conhecimento, equipadas com habilidades cognitivas e socioemocionais com as quais possam enfrentar desafios e interagir.

Se uma criança recebe estímulos aos três anos, ela será mais concentrada nas aulas no ensino médio, portanto mais inclinada a se beneficiar das oportunidades que a vida vai lhe oferecer.

Mas o foco na primeiríssima infância não desencoraja os investimentos na educação básica? Os estímulos e o desenvolvimento de habilidades podem ser adaptados para crianças maiores, adolescentes ou mesmo adultos de 20 e poucos anos.

Sabemos, pela neurociência, que as competências relacionadas às tomadas de decisão, chamadas de funções executivas, influem em nossa personalidade e podem ser desenvolvidas bem mais tarde do que apenas aos 5 anos. 

Não existe a ideia de que, após certo período, tudo está perdido —essa ideia é errada. Uma criança que não teve acesso a estímulos na primeira infância ainda deve ser objeto de atenção para intervenções públicas na puberdade.
 
Qual a relação custo-benefício da pré-distribuição em relação à redistribuição? Do ponto de vista de um economista, se eu tirar R$ 1 de mim e der para você, isso é uma transferência de recursos. É algo que não vai aumentar a riqueza nacional, ainda que possa ser importante porque você precisa mais desse recurso do que eu.

Para além da questão ética —devo dar dinheiro para uma pessoa pobre?—, o que proponho é um investimento nos indivíduos de uma idade muito tenra, pois isso traz taxas muito altas de retorno econômico. 
 
Qual é essa taxa? Calculamos que o investimento nos primeiros anos de vida tem taxas de retorno tão altas quanto 10% ou até 14% por ano. Isso porque fornecer habilidades básicas a uma criança melhora, no longo prazo, a saúde do indivíduo, sua cognição e sua autorregulação, o que faz com que fique longe de problemas.

São consequências amplas, que impactam toda a sociedade. Diminui custos da saúde, reduz os crimes, melhora a educação, aumenta os rendimentos. Não estou dizendo que não devemos transferir recursos em caso de necessidade, mas, sim, que podemos evitar que pessoas permaneçam pobres oferecendo habilidades para que floresçam e, com elas, a economia.
 
Essas vantagens se transferem para as gerações seguintes? Sim. Observamos que os filhos dos que receberam esse tipo de intervenção na infância também foram beneficiados. Mais do que ganhar mais status social e econômico, essas pessoas se tornam capazes de ajudar seus filhos a se desenvolverem melhor.
 
E como os pais podem promover esse estímulo? O ambiente doméstico tem papel fundamental no desenvolvimento do indivíduo, pois o bebê é influenciado pela família, especialmente nos primeiros meses de vida. Ter um ambiente saudável é crucial para desenvolver habilidades. Ler para as crianças, envolvê-las em atividades da casa, brincar com elas, desenhar com elas. A interação com os pais é muito importante. 

Como a mulher, historicamente responsável por cuidar dos filhos, mas que agora ocupa posições no mundo político e corporativo, pode lidar com esse dilema? Estudos americanos mostram que mulheres com mais anos de educação tendem a trabalhar mais, ao mesmo tempo em que querem passar o máximo de tempo possível estimulando e educando os filhos. 

O que se descobriu é que é relativamente pequena a diferença de tempo dedicado aos filhos entre uma mãe que trabalha fora e uma que fica em casa. A mãe que trabalha retira esse tempo dos seus momentos de lazer. Mas, se ela encontra uma boa creche ou escola de educação infantil que possa ser sua parceira, é possível substituir parte das horas diárias do estímulo materno.
 
Essa nova perspectiva fez da desigualdade algo menos problemático? Você pode abordar a desigualdade como uma questão moral. Mas, em vez de falar do capitalista rico espremendo o pobre trabalhador, estou falando do pobre trabalhador aprimorando suas condições para se integrar ao restante da população. 

Nesse sentido, a ideia de classe é algo que pertence ao reino da eugenia. Duzentos anos atrás, um menino nascido em uma família de mineiros seria um mineiro. Hoje sabemos que isso só acontece se forem restritas suas oportunidades em termos de educação e acesso à sociedade.
 
Ainda assim, é fato que a desigualdade está aumentando em muitos países. A pobreza é que é um problema. Mas claro que, se as pessoas estão passando fome ou não satisfazem suas necessidades básicas, isso é coisa séria. 

Algo interessante no Brasil é que estudos feitos nos anos 1960 mostraram que a desigualdade havia aumentado, o que motivou grande preocupação. Mas um jovem que foi meu aluno aqui na Universidade de Chicago, Ricardo Paes de Barros, mostrou que toda a distribuição de renda havia mudado, e que os brasileiros pobres estavam bem mais ricos do que 15 ou 20 anos antes.

​E isso hoje é verdade na China e em muitos outros países do mundo. Nesses casos, a desigualdade de fato aumentou, mas também aumentou o bem-estar da população.
 
Não existe problema em uns ganharem muito e outros, muito pouco? Por que deveria ser uma preocupação para mim se outra pessoa ganha muito mais do que eu? Falando tecnicamente, se tenho recursos, uma vida digna, o que isso importa? A questão se torna de inveja, que não é bom motivo para nada.
 
A renda da classe média está encolhendo em várias partes do mundo. Quais os perigos disso? As evidências são menos claras do que parecem. Existe, sem dúvida, uma transformação da força de trabalho, e ela envolve um agrupamento de habilidades que coloca muita gente em desvantagem, especialmente os mais velhos.

É um problema grave, mas eu diria que é um problema de transição. Porque outras carreiras estão surgindo, beneficiando outros grupos de pessoas, especialmente as mulheres, que são mais educadas do que os homens, na média.

Um dos maiores desafios desse processo, sobre o qual as pessoas não gostam muito de falar, é o da família.
 
Como assim? A estrutura da família tradicional tem se transformado tremendamente. Se a mulher é o arrimo de uma casa, algo cada vez mais frequente, ela em geral combina dois desafios muito difíceis: formação ruim e dificuldade extrema em criar os filhos, o que contribui para a pobreza. 

Essa questão é tão sensível nos Estados Unidos que nem sequer é debatida. Os governos resistem a prover educação pré-escolar porque presumem que as crianças estão em famílias saudáveis, com dois adultos relativamente educados cuidando delas. A realidade, porém, é que a família mudou e precisa de apoio.
 
Por que alguns países atingem alto grau de desenvolvimento enquanto outros não? Acho que isso tem a ver com a política. O populismo, em qualquer lugar, tem sido uma maldição para o crescimento. Corrupção, falta de vontade política e políticas ineficientes frequentemente impediram que nações se desenvolvessem.
 
Isso é verdade para o Brasil também? O Brasil, sem dúvida, apresenta muita desigualdade, social e racial. Embora a educação esteja certamente se expandindo, ainda há muito a ser feito. 

É um país engraçado aos olhos de um americano porque, mesmo que haja casamentos interraciais, o grupo cultural dominante é extremamente distinto do resto da sociedade. Está na cara das pessoas. E as forças da sociedade têm ainda que encorajar uma maior integração racial.

James Heckman
Desde que foi laureado com o Nobel de Economia em 2000, o economista James Heckman, 75, tem se dedicado a pesquisar tanto as origens de grandes problemas sociais e econômicos, como a desigualdade, quanto as estratégias para remediá-los.

Ele desenvolveu modelos teóricos sobre escolhas parentais, bem como modelos intergeracionais de influência familiar, para determinar as origens das diferenças entre as pessoas e quais intervenções são efetivas para remediar desvantagens.

Nascido em Chicago (EUA), formou-se em matemática e fez mestrado e doutorado em economia na Universidade Princeton. É professor do Departamento de Economia da Universidade de Chicago desde 1973, onde dirige o Centro de Economia do Desenvolvimento Humano.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.