Reino Unido apreende petroleiro iraniano que estaria violando sanção da UE

Interceptação em Gibraltar foi pedido dos EUA; tensões entre Washington e Teerã são crescentes

Gibraltar (Reino Unido) | AFP e Reuters

​A Marinha britânica apreendeu nesta quinta (4) um petroleiro iraniano suspeito de transportar petróleo do país para a Síria. A embarcação foi interceptada na costa de Gibraltar, um enclave britânico na Espanha. O traslado do combustível viola sanções da União Europeia contra Damasco.

"Temos razões para acreditar que o 'Grace 1' transportava carga de petróleo cru à refinaria de Banias, na Síria, propriedade de uma entidade submetida às sanções da União Europeia contra a Síria", afirmou o chefe de governo de Gibraltar, Fabian Picardo, em um comunicado.

De acordo com o ministro espanhol das Relações Exteriores, Josep Borrell, a captura do navio foi feita devido a "um pedido dos Estados Unidos ao Reino Unido".

O petroleiro Grace 1, suspeito de carregar petróleo iraniano para a Síria, perto de Gibraltar - Stringer/Reuters

Reagindo à detenção do navio, o governo iraniano convocou o embaixador britânico em Teerã para denunciar "a intercepção ilegal de um petroleiro iraniano," segundo um porta-voz do ministério das Relações Exteriores do país.

As autoridades de Gibraltar não informaram a origem do petroleiro, mas o jornal especializado em transporte marítimo Lloyd's List afirmou que o navio foi carregado com o combustível no Irã em abril, no porto de Kharg. De acordo com o site Marine Traffic, o petroleiro navegou pelo continente africano e entrou no Mediterrâneo, onde foi interceptado.

Em novembro, o Tesouro americano ameaçou sancionar indivíduos ou empresas que entregassem produtos petrolíferos ao governo sírio. Pouco depois, o primeiro-ministro sírio, Emad Khamis, anunciou que os envios iranianos para o país haviam parado. 

Segundo Damasco, seu setor de hidrocarbonetos sofreu perdas estimadas em 74 bilhões de dólares desde 2011, ano em que as sanções começaram. Apesar disso, o Irã continuou fornecendo petróleo para a Síria.

Esta tarde, a tripulação do cargueiro, estacionado no leste de Gibraltar, foi interrogada pelas autoridades do território britânico.

O navio, de 330 metros de comprimento e bandeira panamenha, foi detido na madrugada de quinta-feira pela polícia e pelos agentes alfandegários de Gibraltar, auxiliados por um grupo de fuzileiros navais britânicos. 

Foi abordado quatro quilômetros ao sul do Rochedo de Gibraltar, em uma zona utilizada pelas embarcações para transportar suprimentos, principalmente alimentos, e que Gibraltar considera águas britânicas. Tal afirmação é questionada pela Espanha, que considera as águas como espanholas.

O Ministério de Relações Exteriores britânico elogiou, em uma declaração, "a ação firme das autoridades de Gibraltar que agiram para aplicar as sanções europeias contra a Síria".

Fabian Picardo afirmou que "escreveu aos presidentes da Comissão do Conselho Europeu para comunicar os detalhes das sanções que fizemos valer".

Um navio da Marinha britânica guarda o petroleiro Grace 1 - Jon Nazca/Reuters

O reconhecimento por parte do Irã de que era o dono do navio, e a probabilidade de que a carga também seja iraniana, estabelece uma ligação entre o incidente e as sanções dos EUA para deter todas as vendas globais de petróleo iraniano. 

As sanções foram impostas pelos EUA no ano passado, quando o presidente Donald Trump abandonou um acordo que garantia o acesso de Teerã ao comércio mundial em troca de restrições em seu programa nuclear.

As sanções dos EUA foram intensificadas a partir de maio, forçando o Irã a abandonar seus principais mercados de petróleo e buscar novos clientes. O Irã tornou-se mais dependente de sua própria frota de petroleiros para transportar qualquer óleo que possa vender. 

O Grace 1 também esteve envolvido no transporte de petróleo iraniano para Cingapura e China, violando as sanções impostas pelos EUA, conforme revelou a agência Reuters este ano.

A apreensão do petroleiro vem em um momento de crescentes tensões entre Teerã e Washington. No mês passado, os EUA cancelaram ataques aéreos contra o Irã poucos minutos antes da ofensiva; semanas mais tarde, Teerã ultrapassou o limite do estoque de urânio enriquecido estabelecido em um acordo nuclear de 2015, do qual os EUA se retiraram em 2018.

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