Descrição de chapéu Brexit

Theresa May deixa poder com legado de fracasso do brexit

Novo premiê receberá partido e país fraturados e saída da União Europeia ainda por resolver

Lucas Neves
Londres

A agonia da primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, está perto do fim.

A partir desta quarta (24), o “Canto de Ossanha” do brexit —aquele do verso “vai, vai, vai, vai, não vou”, que bem poderia embalar o interminável adeus britânico à União Europeia —  terá outro intérprete. Será Boris Johnson, ex-ministro das Relações Exteriores e ex-prefeito de Londres.

Ele foi eleito nesta terça-feira (23) como novo líder do Partido Conservador. Como a legenda tem hoje a maior bancada no Parlamento, seu chefe vira também o premiê do país. Mas que legado receberá das mãos da correligionária?

A primeira-ministra Theresa May durante encontro do G20 em Osaka (Japão) - Jorge Silva - 27.jun.19/Reuters

Um partido fraturado, um país, idem, e um brexit ainda por resolver, mais de três anos depois do plebiscito vencido pelo “leave” (sair da UE). Analistas ouvidos pela reportagem dizem que o governo May ficará marcado por este estigma: não entregou sua principal promessa, o divórcio do bloco ao qual Londres aderiu em 1973.  

Após assumir a chefia de governo, três semanas depois da consulta popular que abateu David Cameron, May endureceu seu discurso em relação aos termos da separação britânica do consórcio, abrindo a trilha a uma ruptura litigiosa (“não haver acordo é melhor do que não haver brexit”).

Partidária do “remain” (permanecer na UE) durante a campanha para o plebiscito, ela agora queria se exibir como convertida convicta. Seu histórico de trombadas com europeus em discussões ligadas a imigração enquanto era ministra do Interior (2010-16) ajudava a construir a imagem de uma líder de pulso firme, que não se dobraria ao bloco de 27 países na hora de negociar.

“O partido talvez a tenha escolhido por causa das boas lembranças da ‘dama de ferro’ Margaret Thatcher [que governou de 1979 a 90]. A teimosia de May se parecia com a da antecessora”, diz Ros Taylor, pesquisadora na LSE (London School of Economics and Political Science).

Havia uma diferença-chave entre as duas, porém, aponta ela. O perfil cordato e apagado da nova primeira-ministra nada tinha a ver com o de Thatcher — e ela a todo momento cedia à ala radical de seu partido, que buscava um rompimento sem delongas com a UE.

“Eles perceberam essa fraqueza e, a cada vez que ela baixava a guarda, vinham pedir mais coisas, exercendo uma pressão à qual ela não tinha nem carisma, nem senso de liderança para resistir”, afirma Taylor, para quem May errou no diagnóstico das razões por trás do voto pelo “leave”.

“Ela o interpretou como protesto contra a imigração dentro da União Europeia. Em parte, foi mesmo isso, mas os seis anos de austeridade e um sentimento difuso de ser ignorado pelo governo tiveram pelo menos o mesmo peso”, avalia.

“Suspender a livre circulação de pessoas significava sair do mercado comum [a primeira é condição para a entrada no segundo, pelas regras europeias]. O ‘brexit duro’ se tornou assim inevitável.”

A postura da líder melindrou os setores do partido que preferiam uma saída negociada, suave, ou a permanência no grupo dos 28. A natureza do descolamento britânico da UE também não tinha lastro popular; não se havia perguntado no plebiscito sobre modalidades de brexit.

Deu no que deu: em um erro de cálculo antológico, May antecipou as eleições gerais, buscando sustentação para a abordagem quase truculenta. Sua maioria de 15 cadeiras no Parlamento, já temerária, esvaiu-se por completo, e ela precisou compor com um pequeno partido da Irlanda do Norte pouco dado a concessões.

Dali em diante, o “canto de Ossanha” do brexit se revelou cada vez mais traidor, como na música de Vinicius de Moraes e Baden Powell. A primeira-ministra até avançou nas conversas com Bruxelas (sede do governo europeu), mas não manteve suas tropas a par das condições negociadas.

Quando finalmente as inteirou, houve um motim de ministros, adjuntos e altos servidores: sete pediram demissão em menos de cinco meses, incluindo Boris Johnson e dois titulares da pasta responsável por conduzir o brexit.

Os termos eram considerados pouco vantajosos para Londres  — o provável substituto de May chegou a dizer que o acordo faria do Reino Unido um Estado vassalo.

Quando o acordo foi fechado e apresentado ao Parlamento, o “backstop” (hipotética união aduaneira entre UE e Reino Unido para evitar a volta dos controles aduaneiros na fronteira entre as Irlandas) virou o bode expiatório preferencial.

Em seis meses, May enfrentou dois votos de desconfiança (de seu próprio partido e do plenário como um todo) e amargou três “nãos” sonoros ao pacto firmado com a UE, um deles na maior derrota sofrida por um governo britânico na era moderna —diferença de 230 votos.

Chegou a oferecer seu cargo em troca da aprovação do texto, mas nem isso bastou. Em maio, de mãos atadas, jogou a toalha, e cumpre papel decorativo desde então.

Em outras frentes, a herança de May tampouco chama a atenção positivamente. Em 2017, foi tachada de insensível por não se encontrar com os sobreviventes do incêndio que matou 72 pessoas em uma torre residencial de uma área pobre de Londres.

A imagem se cristalizou no ano seguinte, quando se soube que cidadãos britânicos nascidos além-mar (em antigas colônias) e radicados no Reino Unido havia décadas tinham sido deportados ou sofrido ameaça de expulsão por causa da linha-dura implantada pela antiga ministra do Interior. 

No apagar das luzes de sua gestão, May tentou se deslocar do fiasco do brexit, criando uma autarquia de monitoramento de injustiças sociais e incrementando a proteção à saúde mental e física de agentes de forças de segurança.

O aumento dos crimes a faca no país nos últimos anos é atribuído parcialmente aos cortes que ela fez no borderô das polícias ainda como ministra.

Apesar disso, May ainda tem alguns simpatizantes — ou, talvez mais precisamente, críticos compadecidos.

“Ainda gosto dela. Fez o melhor que pôde em circunstâncias muito difíceis”, defende Tracy, gerente de recursos humanos, em um encontro dos dois finalistas para suceder a líder conservadora com membros do partido. Ela não quis dizer o sobrenome.

“Se não fosse pelo brexit, se May tivesse podido se dedicar mais a questões internas, teria brilhado.”

O jornalista Andrew Sparrow, que edita o blog de política do jornal The Guardian, não vai tão longe no elogio, mas prenuncia: “É muito possível que, após algumas semanas de Boris Johnson no poder, ela surja como baliza de honestidade e probidade”.

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