Aliados de Trump criaram rede para investigar jornalistas

Operação busca publicações antigas de funcionários de CNN, Washington Post e New York Times

Kenneth P. Vogel Jeremy W. Peters
Washington | The New York Times

Uma rede informal de agentes conservadores aliados à Casa Branca está iniciando o que, segundo eles dizem, será uma operação agressiva para desacreditar veículos de imprensa considerados hostis ao presidente Donald Trump, divulgando informações prejudiciais sobre jornalistas.

É o passo mais recente em um antigo esforço de Trump e seus aliados para minar a influência do jornalismo legítimo.

Quatro pessoas familiarizadas com a operação descreveram como ela funciona, afirmando que compilaram dossiês de mensagens em redes sociais e outras declarações públicas potencialmente embaraçosas de centenas de pessoas que trabalham em importantes organizações noticiosas do país.

O grupo já divulgou informações sobre jornalistas da CNN e dos jornais The Washington Post e The New York Times —veículos que investigaram Trump agressivamente— em reação a reportagens ou comentários que os aliados da Casa Branca consideram injustos com Trump e sua equipe ou prejudiciais a sua campanha de reeleição.

O presidente dos EUA, Donald Trump, durante a sessão oficial de fotos do G7 em Biarritz (França)
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante a sessão oficial de fotos do G7 em Biarritz (França) - Christian Hartmann - 25.ago.19/Reuters

Os agentes conservadores examinaram de perto mais de uma década de postagens públicas e declarações de jornalistas, segundo as pessoas inteiradas da operação.

Apenas uma fração do que a rede afirma ter descoberto foi divulgada, disseram essas pessoas, e mais será revelado quando a eleição de 2020 se aproximar.

Elas dizem ainda que a pesquisa se estende a parentes de jornalistas que são ativos politicamente, assim como ativistas liberais e outros adversários políticos do presidente.

Não é possível avaliar independentemente as afirmações sobre a quantidade ou a potencial importância do material que a rede pró-Trump reuniu.

Alguns envolvidos na operação têm histórias de bravatas e exagero. E aqueles dispostos a descrever suas técnicas e objetivos podem estar tentando intimidar jornalistas ou seus empregadores.

Mas o material divulgado até agora, embora em alguns casos desprovido de contexto ou apresentado de maneira enganosa, provou ser autêntico, e grande parte dele poderia prejudicar profissionalmente seus alvos.

Está claro nos casos já divulgados que entre os atores centrais da operação está Arthur Schwartz, um combativo consultor conservador de 47 anos que é amigo e conselheiro informal de Donald Trump Jr., filho mais velho do presidente.

Schwartz trabalhou com alguns dos agentes mais agressivos da direita, incluindo o ex-assessor de Trump Steve Bannon.

"Se o @nytimes acha que isso encerra o assunto, podemos expor mais alguns de seus fanáticos", tuitou Schwartz na quinta-feira (22) em resposta a um tuíte de desculpas de um jornalista do New York Times cujas postagens antissemitas nas redes sociais tinham acabado de ser reveladas pela operação.

"Há muito mais de onde isso veio."

As informações desenterradas pela operação foram comentadas e divulgadas por autoridades do governo Trump e pela campanha à reeleição, além de ativistas conservadores e agências de notícias de direita, como a Breitbart News.

No caso do editor do New York Times, a notícia foi publicada pela primeira vez pela Breitbart, amplificada imediatamente no Twitter por Donald Trump Jr. e, entre outros, Katrina Pierson, assessora sênior da campanha Trump.

Ela rapidamente se tornou motivo de uma entrevista da Breitbart com Stephanie Grisham, secretária de imprensa e diretora de comunicação da Casa Branca.

A assessoria de imprensa da Casa Branca disse que nem o presidente nem ninguém na Casa Branca estava envolvido ou ciente da operação, e que nem a Casa Branca nem o Comitê Nacional Republicano participaram de seu financiamento.

A campanha de Trump disse que não tem conhecimento nem está envolvida na iniciativa, mas sugeriu que ela serve a um propósito válido.

"Não sabemos nada sobre isso, mas está claro que a mídia tem muito trabalho a fazer para limpar a própria casa", disse Tim Murtaugh, diretor de comunicações da campanha.

A campanha é consistente com o longo esforço de Trump para deslegitimar as reportagens críticas e rotular a mídia como um "inimigo do povo".

O presidente tem procurado implacavelmente diminuir a credibilidade das organizações de notícias e defini-las como opositores politicamente motivados.

O jornalismo, disse ele em um tuíte na semana passada, é "nada mais que uma má máquina de propaganda do Partido Democrata".

A operação compilou posts no Twitter, no Facebook e no Instagram, e armazenou imagens das postagens que podem ser divulgadas mesmo que o usuário as exclua, disseram as pessoas familiarizadas com o esforço.

Uma delas alegou que a operação havia desenterrado informações potencialmente "capazes de causar demissão" de "várias centenas" de pessoas.

"Tenho certeza de que haverá mais cabeças", disse Sam Nunberg, ex-assessor de Trump e amigo de Schwartz.

Nunberg e outros que estão familiarizados com a campanha descreveram a intenção de expor o que eles consideram hipocrisia dos principais meios de comunicação que relataram a linguagem inflamatória do presidente em relação a raça.

"Dois podem jogar neste jogo", disse ele. "A mídia há muito tempo visa os republicanos com mergulhos profundos em suas redes sociais, buscando caricaturar todos os conservadores e eleitores de Trump como racistas."

Mas usar técnicas jornalísticas para atacar jornalistas e organizações jornalísticas em retribuição à cobertura crítica do presidente —ou como um aviso para não prosseguirem— é fundamentalmente diferente do papel bem estabelecido da imprensa de investigar pessoas em cargos de poder.

"Se é claramente uma retaliação, é claramente um ataque, claramente não é jornalismo", disse Leonard Downie Jr., ex-editor-executivo do Washington Post de 1991 a 2008.

A tensão entre um presidente e a mídia que o cobre não é novidade, acrescentou Downie. Mas um esforço político organizado e em grande escala para intencionalmente humilhar jornalistas e outros que trabalham para os meios de comunicação é.

"Uma coisa é Spiro Agnew chamar todo mundo na imprensa de 'nababos tagarelas do negativismo'", disse ele, referindo-se à famosa crítica do ex-vice-presidente sobre como os jornalistas cobriram o presidente Richard Nixon. "E outra coisa é investigar indivíduos a fim de constrangê-los publicamente e comprometer seu emprego."

A. G. Sulzberger, publisher do New York Times, disse em um comunicado que tais táticas estão levando a um novo nível a campanha do presidente contra a imprensa livre.

"Eles estão procurando assediar e constranger qualquer pessoa afiliada às principais organizações de notícias, que fazem perguntas difíceis e trazem à luz verdades incômodas", disse Sulzberger.

"O objetivo desta campanha é claramente intimidar os jornalistas em seu trabalho, que inclui servir como um controle para o poder e expor erros quando ocorrem. O 'Times' não será intimidado ou silenciado."

O publisher também publicou uma carta aberta aos funcionários do jornal sobre o tema.

No texto, ele critica a operação feita pelos aliados do presidente e agradece aos jornalistas por seus esforços, mas afirma que ninguém está acima do escrutínio público, nem mesmo o New York Times. 

"Nossa resposta é a mesma de sempre. Nós vamos continuar cobrindo essa administração como todas as outras: de maneira justa, agressiva e destemida, seguido apenas os fatos", escreve ao final da carta.

Fachada da sede do jornal The New York Times, um dos veículos que teve jornalistas atacados pela rede de aliados do presidente
Fachada da sede do jornal The New York Times, um dos veículos que teve jornalistas atacados pela rede de aliados do presidente - Ramin Talaie - 21.abr.11/Getty Images/AFP

Em um comunicado, um porta-voz da CNN disse que quando funcionários do governo "e aqueles que trabalham em seu nome ameaçam e retaliam os repórteres como um meio de supressão, é um claro abandono da democracia por algo muito perigoso".

A operação tem como alvo os meios de comunicação, usando uma das armas mais eficazes do combate político —pesquisa profunda e trabalhosa nos registros públicos dos adversários para encontrar contradições, opiniões polêmicas ou afiliações tóxicas.

O grupo liberal Media Matters for America ajudou a investigar minuciosamente as declarações públicas de personalidades conservadoras da mídia.

O ativista conservador James O'Keefe distorceu esse conceito de maneiras inconsistentes com a ética jornalística tradicional, usando identidades falsas, reportagens de capa elaboradas e vídeos secretos para envolver jornalistas e divulgar declarações embaraçosas, muitas vezes de forma enganosa, para minar a credibilidade do que ele considera uma mídia tendenciosa a favor dos liberais.

No caso da rede pró-Trump, a investigação de jornalistas está sendo usada para benefício político da Casa Branca.

Ela tem como alvo não apenas jornalistas famosos que contestam o governo, mas também qualquer pessoa que trabalhe para uma organização de notícias que os membros da rede considerem hostil a Trump, não importa quão tangencial esse trabalho possa ser para a cobertura de sua Presidência.

E está sendo usado explicitamente como retribuição pela cobertura.

Alguns repórteres foram avisados de que eles ou suas organizações de notícias poderiam ser alvos, criando a impressão de que a campanha pretendia, em parte, dissuadi-los de uma cobertura agressiva, bem como infligir punição depois da publicação de um artigo.

As táticas da operação foram exibidas na semana passada, aparentemente em resposta a dois artigos do New York Times que enfureceram os aliados de Trump.

O conselho editorial do jornal publicou um editorial na quarta-feira (21) acusando Trump de fomentar o antissemitismo, e a Redação publicou na manhã de quinta-feira um perfil de Grisham, a nova secretária de imprensa da Casa Branca, que incluía detalhes nada lisonjeiros sobre seu histórico profissional.

Uma pessoa envolvida no esforço disse que as forças pró-Trump, que sabiam antecipadamente da cobertura sobre Grisham, estavam preparadas para responder.

Na madrugada de quinta-feira, logo depois que o perfil apareceu online, a Breitbart News publicou um artigo que documentou tuítes antissemitas e racistas escritos há uma década por Tom Wright-Piersanti, que estava na faculdade na época e depois se tornou um editor de política do New York Times.

O jornal disse que está revendo o assunto e considerou os posts "uma clara violação de nossos padrões".

Schwartz tuitou um link para o artigo de Breitbart antes das 7h, que Donald Trump Jr. retuitou para seus 3,8 milhões de seguidores —a primeira de cerca de duas dúzias de vezes que o filho do presidente compartilhou o artigo ou seu conteúdo.

Outros proeminentes republicanos, incluindo o senador Ted Cruz, do Texas, contribuíram para dar destaque à reportagem.

Wright-Piersanti pediu desculpas no Twitter na manhã de quinta-feira e apagou os tuítes ofensivos.

Schwartz, em seguida, emitiu seu aviso de que tinha mais informações prejudiciais sobre funcionários do  New York Times.

Wright-Piersanti, 32, disse que os tuítes, postados quando ele era estudante universitário e tinha basicamente conhecidos pessoas como seguidores, foram "minhas frágeis tentativas, de humor duvidoso, de provocar uma reação de meus amigos".

Mas, disse ele, "elas não são engraçadas, são claramente ofensivas", e acrescentou: "Sinto muita vergonha delas, sinceramente sinto muito por as ter escrito".

Ele disse que havia esquecido os tuítes quando começou a trabalhar no jornalismo.

"Para a minha geração, a geração que atingiu a maioridade na internet, todos os erros juvenis que você cometeu são preservados em âmbar digital, e não importa o quanto você mude, amadureça e cresça, estarão sempre lá, esperando para serem descobertos", disse Wright-Piersanti.

Assim como ele, outros alvos da rede pró-Trump foram jovens que cresceram com as redes sociais e escreveram os posts em questão quando estavam na adolescência ou no início dos 20 anos, na maioria dos casos antes de se tornarem jornalistas profissionais.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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