Descrição de chapéu The New York Times

Ao procurar segredos do futebol, hacker encontrou os da mulher mais rica da África

Filha do ex-presidente de Angola acumulou fortuna de US$ 2 bilhões

Tariq Panja
The New York Times

Cinco anos atrás, um torcedor português estava procurando segredos do mundo do futebol quando começou a invadir as redes legais e financeiras que apoiam a indústria multibilionária desse esporte.

Durante anos ele roubou documentos internos e acordos secretos, desmascarou práticas duvidosas —e até criminais—  de advogados, jogadores e times e postou as informações anonimamente numa plataforma que batizou de Football Leaks

Times furiosos o xingaram. Agentes ameaçaram processá-lo. Investigadores humilhados juraram prendê-lo.

O que ninguém sabia era que o enorme manancial de dados obtidos pelo hacker, um torcedor fanático de 31 anos chamado Rui Pinto, também ocultava um segredo muito maior.

Durante um jantar numa noite no final de 2018 em Budapeste, na Hungria, onde estava escondido até ser detido e extraditado para Portugal, Pinto contou a seu advogado francês, William Bourdon, que acreditava ter obtido informações que revelavam como Isabel dos Santos, a mulher mais rica da África e filha do ex-presidente de Angola José Eduardo dos Santos, acumulou sua fortuna de US$ 2 bilhões.

O delator Rui Pinto (ao centro) é acompanhado por oficiais judiciais ao chegar em corte judicial de Budapeste para seu julgamento - Ferenc Isza 5.mar.19/AFP

Revelados neste mês em relatos da imprensa internacional, esses segredos levaram à abertura de uma investigação sobre Isabel dos Santos, que é acusada de ter desviado dinheiro da estatal petrolífera angolana e outras instituições para financiar um grande império de negócios que inclui participações nas exportações de diamantes de Angola, na maior empresa de telefonia celular do país, dois de seus bancos e sua maior empresa de cimento.

Autoridades angolanas disseram na semana passada que Isabel dos Santos pode ser acusada no país de apropriação indevida de recursos públicos. 

Alguns de seus ativos foram congelados, e seu banco informou que está investigando transferências de dezenas de milhões de dólares.

Entre 2015 e março do ano passado, quando foi preso e extraditado para Portugal, Rui Pinto semeou pânico principalmente nos corredores do poder do esporte mais popular do mundo. 

Como hacker ele atacou não apenas alguns dos maiores times e instituições do futebol, mas também firmas de advocacia e profissionais que prestam serviços às suas atividades.

Uma ligação entre os vazamentos de informações sobre futebol e Isabel dos Santos é que em cada caso foram vazados documentos confidenciais da poderosa firma de advocacia PLMJ, sediada em Lisboa. 

Várias das acusações feitas a Pinto em Portugal estão ligadas diretamente ao fato de ele ter acessado ilegalmente o servidor dos computadores da PLMJ.

Foram advogados da PLMJ que em 2015 redigiram um memorando de 16 páginas para Isabel dos Santos destacando as vantagens fiscais de sediar empresas em Malta. 

Subsequentemente Santos usou empresas sediadas em Malta para algumas de suas maiores transações. Uma de suas companhias maltesas foi utilizada como intermediária para contratar consultores de firmas como Boston Consulting Group, McKinsey & Co. e PwC (PricewaterhouseCoopers) para prestar assessoria numa reforma da estatal petrolífera angolana, que Santos presidiu em 2016 e 2017, depois de ser nomeada para o cargo por seu pai.

“Evidentemente desconhecemos a fonte da documentação sobre a qual se baseiam os relatos recentes na imprensa”, disse Luís Pais Antunes, sócio gerente da PLMJ. 

De qualquer maneira, acrescenta ele, “é impossível que a documentação que está sendo usada para a maior parte dessas reportagens tenha qualquer relação com a PLMJ ou já tenha estado à nossa disposição”.

Isabel Dos Santos, filha do ex-presidente de Angola José Eduardo dos Santos, durante entrevista em Londres
Isabel Dos Santos, filha do ex-presidente de Angola José Eduardo dos Santos, durante entrevista em Londres - Toby Melville - 9.jan.20/Reuters

Sem saber ao certo o que tinha em mãos quando sua procura sobre futebol trouxe à tona centenas de milhares de páginas ligadas a empresas controladas por Isabel dos Santos e seu marido, Rui Pinto pediu a Bourdon, segundo o advogado francês, para levar um disco rígido contendo os dados a uma plataforma de delações montada por Bourdon na África.

A revelação de que Pinto, cidadão português sem vínculos conhecidos com Angola, estava por trás do vazamento de informações sobre Santos enfraqueceu fortemente as alegações dela de que as revelações constituíram “um ataque político muito concentrado, orquestrado e bem coordenado antes das eleições do próximo ano em Angola”.

“Trata-se de uma tentativa de me neutralizar e desacreditar o legado do presidente Santos e sua família”, disse Isabel em declaração dada após a publicação dos artigos com informações prejudiciais a seu respeito. 

Seu pai, José Eduardo dos Santos, foi presidente de Angola por 38 anos até renunciar, em 2017.

O cerne da investigação angolana envolve o período em que Isabel dos Santos presidiu a estatal petrolífera angolana Sonangol, especialmente em novembro de 2017, o mês quando ela foi demitida da direção da companhia. 

Mais de US$ 57 milhões foram sacados na época da conta da Sonangol no banco português EuroBic, do qual Santos é a maior acionista, para pagar uma série de faturas de uma empresa de Dubai pertencente a um amigo dela.

Na quinta-feira (23) a agência de notícias portuguesa Lusa informou que um funcionário do EuroBic que administrava a conta da Sonangol, Nuno Ribeiro da Cunha, foi encontrado morto em sua casa em Lisboa na noite de quarta. 

Segundo uma fonte policial citada pela agência, a morte parecia ter sido por suicídio. A EuroBic anunciara em 20 de janeiro estar encerrando sua relação com Isabel dos Santos.

Os documentos recém-vazados oferecem um relato detalhado de como Santos explorou os recursos de seu país, adquirindo participações em indústrias angolanas vitais como telecomunicações, diamantes e construção, em muitos casos graças a ordens firmadas por seu pai. Ela nega ter cometido qualquer irregularidade e afirma há muito tempo que acumulou seu patrimônio com seu próprio trabalho.

Enquanto Pinto foi saudado como herói, em certa medida, por setores que pedem mais transparência no futebol, sua conduta levou ao questionamento de suas motivações. 

Em 2014, por exemplo, ele fechou um acordo extrajudicial com o Caledonian Bank depois de ser acusado de invadir os sistemas da instituição e transferir milhares de dólares das contas de um de seus clientes.

Pinto negou ter roubado o dinheiro, mas, citando um acordo que o proíbe de divulgar informações, negou-se a dar detalhes adicionais sobre o incidente.

Bourdon disse que espera que a divulgação do papel exercido por Pinto no caso de Isabel dos Santos possa melhorar as perspectivas de seu cliente em Portugal, onde Pinto irá a julgamento neste ano por 93 acusações ligadas a seus esforços para expor o funcionamento interno do mundo do futebol. Se for condenado por todas as acusações, ele pode enfrentar até 30 anos de prisão.

Pinto permanece detido desde que retornou a Portugal, onde as autoridades o acusam de ter ganho acesso ilegal a dados confidenciais e, o que é mais significativo, de tentativa de extorquir uma poderosa agência esportiva. 

Os promotores portugueses disseram que nesse incidente o hacker pediu até 1 milhão de euros (R$ 4,6 milhões) para deletar informações pertencentes à agência, Doyen Sports.

Tradução de Clara Allain

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