Descrição de chapéu The New York Times

Autor de retrato clássico de Mao Tse-tung exposto na praça da Paz Celestial morre aos 88

Wang Guodong fez pinturas do líder ano após ano e sofreu ataques dos Guardas Vermelhos

Amy Qin
Pequim | The New York Times

Wang Guodong, que no auge do culto a Mao Tse-tung foi responsável por pintar o grande retrato do dirigente exposto na praça da Paz Celestial, morreu na sexta-feira (23) num hospital de Pequim. Tinha 88 anos.

A mídia estatal chinesa informou sua morte, mas não especificou a causa.

Em 1964, quando tinha pouco mais de 30 anos, Wang foi escolhido para pintar o retrato oficial de Mao (a óleo, com cinco por seis metros) fixado a passos de distância da sede central do Partido Comunista, o Portão da Paz Celestial.

Retrato de Mao Tsé-tung na praça da Paz Celestial, em Pequim
Retrato de Mao Tsé-tung na praça da Paz Celestial, em Pequim - Petar Kujundzic - 10.mar.11/Reuters

Retratos de Mao são instalados no local desde 1949, quando os comunistas tomaram o poder na China; por ficarem expostas às intempéries do tempo, as telas são substituídas com frequência.

Antes de 1949, o local ostentava um retrato de Chiang Kai-shek, o líder nacionalista chinês que perdeu a guerra civil para os comunistas de Mao.

O trabalho era uma das maiores honras às quais um pintor podia aspirar na China –e uma tarefa intimidante.

Num sinal da estatura de Wang nos círculos do Partido Comunista, seu funeral foi realizado no domingo no cemitério de Babaoshan, em Pequim, reservado para a elite do Partido, segundo divulgou o Diário da Juventude, de Pequim.

Mao Xinyu, neto de Mao Tse-tung, teria enviado uma coroa de flores.

A aparência de Mao foi evoluindo ao longo dos anos, à medida que os retratos se sucediam.

Em um momento ele foi retratado usando boina octagonal e uma jaqueta simples de lã. Mas mesmo depois de Wang deixar de ser o pintor oficial dos retratos, em 1976, seus sucessores continuaram a se basear em sua pintura original, mostrando Mao de faces róseas, expressão séria e uma pinta característica no queixo.

Hoje, o retrato, que é substituído anualmente, é uma das pinturas mais reconhecíveis do mundo. Mas poucas pessoas haviam ouvido falar do artista.

“Ninguém é autorizado a colocar seu nome sobre esse retrato”, explicou Wang em 2006, entrevistado pelo Los Angeles Times. “Era assim antes e ainda é assim hoje.”

Wang pareceu não se importar com isso. Para ele, o anonimato fazia parte da tarefa de criar aquela que um historiador da arte descreveu como “a pintura mais importante da China”.

Mas, como muitos que viveram nos tempos turbulentos do regime totalitário de Mao, Wang nem sempre teve relações tão boas com o partido.

Durante a Revolução Cultural, o período de tumulto político que convulsionou a China de 1966 a 1976, a imagem de Mao ficava exposta com destaque em milhões de casas, escolas, fábricas e repartições públicas em todo o país.

À medida que crescia o culto ao líder, Wang passou a ser atacado pelos militantes estudantis conhecidos como Guardas Vermelhos, que perseguiam quem considerassem ser ideologicamente impuro ou insuficientemente dedicado a Mao.

Os Guardas Vermelhos tacharam Wang de capitalista devido à sua origem familiar e o criticaram por pintar Mao de um ângulo que mostrava apenas uma das orelhas do líder. Diziam que isso deixava entender que Mao estaria ouvindo apenas a alguns poucos seletos, não às massas.

“Não era eu quem decidia quantas orelhas pintar”, Wang explicaria mais tarde. “Isso foi decidido pelo governo central.”

Ele disse que todos os artistas que pintaram Mao o fizeram a partir de uma foto divulgada pelo governo e foram instruídos a não se afastarem da imagem original.

Turistas fazem fila para tirar fotos com o retrato de Mao na praça da Paz Celestial - Thomas Peter - 9.set.2016/Reuters

Mesmo assim, Wang foi sujeito a uma chamada “sessão de luta”, na qual foi colocado sobre um palco e humilhado publicamente.

Mosquitos voavam à sua volta, ele recordou em uma entrevista que deu a uma revista chinesa em 2004, “mas nem tive coragem de afastá-los”.

Como castigo, as autoridades enviaram Wang para trabalhar como marceneiro durante dois anos numa fábrica de molduras. Mas ele pôde conservar seu título e continuou a pintar o retrato oficial, dessa vez com duas orelhas.

Na década de 1970, Wang selecionou dez estudantes de arte de Pequim para serem seus aprendizes.

Eles foram sabatinados primeiramente para averiguar sua lealdade política e em segundo lugar suas habilidades artísticas.

Aprenderam os fundamentos da pintura de retratos e aprenderam a conservar-se dentro dos limites do que era politicamente aceitável.

Wang Guodong nasceu em 25 de junho de 1931 em Pequim. Pouco pôde ser descoberto sobre sua juventude ou sua vida familiar. Ele deixa dois filhos.

Os retratos de Mao, ainda baseados na primeira versão traçada por Wang, apresentaram poucas variações nas últimas décadas.

A cada ano, cada retrato é visto por milhões de turistas que visitam a praça da Paz Celestial e o Museu do Palácio.

Os retratos já foram depredados por vândalos em diversas ocasiões, incluindo em 1989, durante os protestos pró-democracia na praça da Paz Celestial, quando três jovens manifestantes jogaram ovos cheios de tinta na tela.

Horas mais tarde o retrato desfigurado foi tirado do local e substituído por outro. Os manifestantes cumpriram longas penas de prisão.

“É uma imagem muito complexa”, disse o historiador da arte Wu Hung, da Universidade de Chicago, em um artigo publicado no New York Times em 2006.

“O retrato encerra significados diferentes para diferentes pessoas. Para o partido, ele simboliza o partido e a fundação da nação. Mas para muitas pessoas ele simboliza a própria China e encerra memórias muito pessoais.”

Desde a morte de Mao e as subsequentes reformas econômicas chinesas, a demanda por retratos de Mao na China vem caindo.

Mas, ao longo dos anos, artistas vêm fazendo experimentos com a imagem antes sagrada.

No final dos anos 1980, num reconhecimento sutil da artificialidade do retrato, o artista chinês Wang Guangyi o pintou sobreposto por uma estrutura quadriculada, técnica usada por Wang Guodong e seus sucessores para pintar o retrato em escala muito maior.

A imagem de Mao também serviu de inspiração a Andy Warhol, cujas imagens em silk-screen converteram o líder implacável em uma espécie de ícone pop internacional.

Em 2017, uma pintura de Mao feita por Warhol foi vendida a um comprador asiático não identificado numa leilão da Sotheby’s em Londres por US$ 12,6 milhões.

Na pintura de Andy Warhol, Mao é mostrado com uma orelha apenas.

Tradução de Clara Allain

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