Descrição de chapéu The New York Times

Cartas mostram como Osama bin Laden preparou o filho para a Al Qaeda

EUA creem que Hamza bin Laden tenha sido morto nos 2 primeiros anos do governo Trump

Rukmini Callimachi
The New York Times

No ano anterior à sua morte, Osama bin Laden passou os dias atrás dos muros de seu complexo residencial no Paquistão, preocupado com o filho que morava a milhares de quilômetros de distância.

Escreveu inúmeras cartas, descrevendo o currículo que o filho Hamza bin Laden, então com 23 anos, deveria estudar, as qualidades que ele deveria cultivar e as medidas de segurança que deveria seguir. Em uma delas, aconselhou o filho, que tinha apenas 13 anos quando viu seu pai pela última vez, a não sair de casa.

Imagem retirada de vídeo de casamento do filho do ex-líder da Al-Qaeda Osama bin Laden, Hamza bin Laden, em 2017 - Federation for Defense of Democracies

Em outra, sugeriu que o jovem poderia se juntar a ele no Paquistão, aconselhando-o a viajar em um dia nublado, quando seria mais difícil para um drone rastreá-lo. Bin Laden elaborou um protocolo de segurança complicado, pedindo que o filho trocasse de carro dentro de um túnel para enganar a vigilância aérea.

O cuidado que ele demonstrou não foi apenas o de um pai para um filho. Parece ter sido também uma tentativa do terrorista mais caçado do mundo de garantir seu legado.

Analistas acreditam que, pelo menos desde 2010, a Al Qaeda estava secretamente preparando Hamza bin Laden para assumir a organização, medida que parece ter sido frustrada. De acordo com três autoridades dos Estados Unidos, o jovem Bin Laden foi morto durante os dois primeiros anos do governo Trump, embora muitas perguntas permaneçam, inclusive quando, como, onde ele foi morto e por quem.

Se confirmada, sua morte representa mais um golpe para a Al Qaeda, cujas fileiras foram esvaziadas por ataques americanos implacáveis e pela ascensão do grupo terrorista Estado Islâmico (EI). A Al Qaeda tem se esforçado para recrutar uma geração mais jovem, que foi atraída para o EI por vídeos bem filmados com drones e câmeras GoPro, enquanto a rede mais antiga ainda dava palestras de uma hora, por líderes envelhecidos diante de filmadoras de baixa resolução.

O jovem Bin Laden deveria resolver vários dos problemas de gestão mais urgentes da Al Qaeda: com não mais de 30 anos, ele era quase quatro décadas mais jovem que Ayman al-Zawahri, o atual líder do grupo, que foi criticado pelo EI como um gestor antiquado e distante.

Como possui o sobrenome mais famoso do terrorismo, o jovem Bin Laden é capaz de aproveitar a devoção que jihadistas do mundo todo sentem por seu pai. Por essas razões, a Al Qaeda esperava que Hamza pudesse atuar como um unificador, apelando não apenas à base do grupo, mas também aos recrutas que perdeu para o EI, muitos dos quais estão em uma encruzilhada após a perda do território do EI no Iraque e na Síria.

"Se é verdade que ele está morto, a Al Qaeda perdeu seu futuro, porque Hamza bin Laden era o futuro da Al Qaeda", disse Ali Soufan, ex-agente do FBI e especialista em contraterrorismo, que chamou atenção por ser incomum a Al Qaeda não anunciar tal morte.

"Ele estava sendo preparado para liderar a organização, e fica óbvio em suas declarações que seu foco era trazer de volta a mensagem de seu pai", disse Soufan, autor de um perfil de Hamza bin Laden que o chama de "líder herdeiro da Al Qaeda".

O governo dos Estados Unidos teve um papel na operação que o matou, disseram autoridades americanas, mas se recusaram a dar mais informações. Questionado sobre a operação na quarta-feira (31), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não fez comentários.

Quanto ao paradeiro de Hamza bin Laden, havia apenas relatos vagos sobre possíveis avistamentos.
"Nossos relatórios de inteligência mostraram que havia um Hamza aqui, mas não sabíamos ao certo", disse Mohammad Ismail, governador de Want Waigal, um distrito montanhoso no leste do Afeganistão, perto da fronteira com o Paquistão. "Alguns diziam que ele era paquistanês e outros diziam que era árabe."

Cartas de e para seu pai --encontradas pela equipe Seal da Marinha americana que matou Bin Laden pai e depois divulgou o fato-- indicam que ele estava vivendo no Irã em 2009 e 2010. Uma autoridade iraniana disse na quarta-feira acreditar que Hamza bin Laden vivia em uma casa de luxo em Teerã com duas mulheres e uma irmã. Outra autoridade disse que ele ia e vinha, mas nunca morou no Irã.

Hamza bin Laden tinha apenas 13 anos quando seu pai o levou com seus irmãos até a base de uma montanha no Afeganistão e se despediu pela última vez. Era 2001, e aviões pilotados por terroristas haviam acabado de atacar o World Trade Center e o Pentágono, enquanto outro avião sequestrado fora derrubado a caminho de Washington.

O líder terrorista sabia que a retaliação não iria demorar e fez arranjos para mandar seus filhos embora. Ele entregou a cada um deles uma enfiada de contas para orações muçulmanas, lembrando-lhes de buscar força em sua religião.

"Você se despediu e fomos embora, e foi como se tivéssemos arrancado nossos fígados e os deixado lá", escreveu Hamza bin Laden em uma carta dirigida a "meu amado pai" anos depois.

Os presentes idênticos a seus filhos sugerem que Bin Laden pai pretendia ser igualitário em sua afeição. Mas os cronistas da família dizem que não demorou muito para que ficasse claro que ele tinha uma relação especial com Hamza, o único filho de Khairia Sabar, uma saudita altamente instruída que se tornou a mulher favorita de Osama.

Quando Hamza tinha 2 anos, seu pai mudou-se do Afeganistão para o Sudão. Ele ficou lá até os 7 anos, quando o governo sudanês cedeu à pressão internacional e expulsou a família. Osama bin Laden e seus seguidores retornaram ao Afeganistão, onde buscaram refúgio junto ao Taleban e viviam em um complexo de abrigos de concreto, sem encanamento, eletricidade e até mesmo portas.

Depois dos atentados nos EUA em 2001, Hamza foi levado sobre as montanhas para o Paquistão, antes de buscar refúgio no Irã, onde ele inicialmente morou em um esconderijo, segundo Soufan. Ele e sua mãe acabaram sendo presos pelas autoridades iranianas e encarcerados em um campo militar.

Enquanto Hamza crescia, não procurou ter tratamento especial dentro do grupo como o filho de Osama bin Laden.

"Ele não quer ser tratado com favoritismo porque é filho de 'alguém'", segundo uma carta de 2010 de um assessor de Bin Laden. "Eu prometi planejar um treinamento seguro para ele, como disparar com diferentes armas."

Hamza bin Laden se casou com a filha de um líder da Al Qaeda, Abdullah Ahmed Abdullah, um casamento gravado em vídeo encontrado no complexo de Osama em Abbottabad, no Paquistão. 

Thomas Joscelyn, membro sênior da Fundação para Defesa das Democracias, que estuda a Al Qaeda há anos, disse que o papel de Bin Laden filho na organização era opaco.

"Na verdade, não sabemos qual era seu verdadeiro papel na Al Qaeda", disse ele. "Sabemos que a Al Qaeda o estava apresentando como uma voz para uma geração mais jovem. Isso ficava visível quando eles colocavam mensagens de áudio dele."

Joscelyn citou evidências nos arquivos pessoais mais antigos de Bin Laden de que Hamza havia recebido treinamento de elite, mas que Osama preferiu que seu filho não assumisse um papel militar.

As ambições do jovem Bin Laden, baseadas em suas gravações em áudio e cartas ao pai, indicavam o desejo de ter um papel ativo na Al Qaeda.

"Meu amado pai, eu fui separado de você quando era criança, ainda não tinha 13 anos, mas agora estou mais velho e já atingi a maioridade", escreveu em uma carta de 2009.

"Mas o que realmente me entristece", acrescentou ele, "é que as legiões de mujahidin marcharam e eu não me juntei a elas."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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