Descrição de chapéu The Washington Post

Christchurch, citado em manifesto de atirador de El Paso, torna-se símbolo extremista

Documentos são postados em fóruns online para angariar simpatizantes e atingir inimigos

Rick Noack
Washington Post

Dias depois de um atirador matar 51 pessoas em março em duas mesquitas em Christchurch, Nova Zelândia, analistas avisaram que o ataque poderia funcionar como incentivo a extremistas.

Foi um ataque com alto número de vítimas, lançado com o intuito de que fosse emulado por outros, transmitido em redes sociais por streaming ao vivo e acompanhado pelo lançamento de um manifesto supremacista branco criticando a imigração e vilipendiando imigrantes.

Um manifesto semelhante apareceu online no sábado (3), contendo queixas similares. O autor iniciou seu texto manifestando apoio ao “atirador de Christchurch”. Minutos mais tarde um atirador abriu fogo em um shopping center em El Paso, Texas, matando 20 pessoas, sete das quais mexicanas. Duas outras pessoas não resistiram aos ferimentos e morreram na segunda-feira (5).

Investigadores acreditam que o manifesto lançado no sábado foi escrito pelo suspeito do ataque em El Paso, Patrick Crusius. O autor foi o mais recente em uma sucessão de extremistas que falam de Christchurch como um acontecimento que virou marco para mais manifestações de ódio.

“É exatamente por isso que as pessoas postam manifestos”, comentou Peter Neumann, diretor fundador do Centro Internacional para o Estudo da Radicalização, de Londres. “Querem criar a base de algo que inspire outras pessoas.” A mensagem que querem transmitir visa tanto seus simpatizantes quanto seus inimigos declarados.

Depois de um atirador ter matado uma mulher e ferido três outras em abril em uma sinagoga em Poway, Califórnia, investigadores encontraram uma justificativa online que teria sido publicada pelo atirador e que ecoava as palavras do atirador de Christchurch.

Christchurch foi uma das vertentes investigadas após o massacre da Páscoa no Sri Lanka.

Ruwan Wijewardene, ministro de Estado da Defesa do Sri Lanka, disse a jornalistas que os ataques a igrejas e pontos frequentados por turistas em grande número foram motivados pelo ataque na Nova Zelândia.

Nenhum vínculo dessa natureza foi comprovado, e analistas expressaram dúvidas a esse respeito, mas alertaram sobre a possibilidade de chacinas retaliatórias.

Enquanto isso, políticos vêm usando o caso de Christchurch para promover suas próprias agendas.

O presidente turco Recep Tayyip Erdogan recentemente exibiu imagens dos ataques em comícios de sua campanha.

“Esse não foi um ataque individual, foi organizado”, disse.

O governo neozelandês avisou que as declarações do presidente turco colocam seus cidadãos em risco. Analistas rejeitaram o modo como Erdogan retratou o massacre em Christchurch como parte de um ataque mais amplo e organizado contra muçulmanos.

O deputado conservador canadense Michael Cooper foi criticado nesta semana depois de ler trechos do manifesto de Christchurch a uma testemunha muçulmana numa audiência judicial.

Mais tarde, descreveu o que fez como “uma tentativa imprudente de demonstrar que atos desse tipo não têm ligação com o conservadorismo”. O líder conservador Andrew Scheer tirou Cooper do comitê e resolveu eliminar os trechos do registro parlamentar.

Depois do massacre em El Paso, o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, disse à televisão neozelandesa que ataques como esses “estão interligados, porque usam uns aos outros como inspiração e fazem referência uns aos outros nos diferentes manifestos”.

Para analistas, o fio unificador é a teoria conspiratória da Grande Substituição, segundo a qual as elites globais estão intencionalmente substituindo as maiorias brancas da Europa por imigrantes vindos da África subsaariana e do norte desse continente.

“A teoria da Grande Substituição virou a narrativa mestre de um número enorme de ataques da extrema direita”, disse Neumann, o pesquisador do terrorismo. “É a narrativa que interliga todos esses ataques.”

Versões da teoria da Grande Substituição existem há décadas, mas ela foi popularizada mais recentemente pelo escritor francês Renaud Camus, que em 2012 lançou “Le Grand Remplacement”. Camus nega qualquer responsabilidade pelo ataque em El Paso, mas continua a afirmar que a imigração é o grande perigo global.

Neumann comparou a teoria da Grande Substituição à ideia de que o Ocidente estaria em guerra contra o islã, algo frequentemente citado por militantes islâmicos para justificar ataques —mas que também virou um argumento que mobiliza retaliação por figuras da extrema direita.

O Estado Islâmico, em sua propaganda, já expressou a esperança de que seus ataques desencadeassem respostas da extrema direita como o massacre de Christchurch, que, para ele, ajudarão a levar muçulmanos a se posicionarem contra não muçulmanos.

O ataque do sábado pode assinalar uma escalada da violência. Enquanto o número de mortos continuava a subir, comentaristas no mural de mensagens anônimas 8chan —no qual o suspeito e outros atiradores parecem ter sido ativos— discutiam o ataque de maneira que aparentemente o comparava a massacres anteriores, segundo capturas de tela registradas pelo site de investigações online Bellingcat.

Para Neumann, esses comentários sugerem que uma competição teria começado, tendo como objetivo tentar “matar mais pessoas que as abatidas pelo atirador de Christchurch”.

Pesquisadores alertam que comunidades online como o 8chan radicalizam indivíduos por lhes oferecer uma rede de apoio que os aplaude e incentiva.

O Instituto para o Diálogo Estratégico, de Londres, divulgou no mês passado que mais de metade dos 240 mil tuítes saídos de um local identificável e que usaram a palavra “remigração” –uma marca distintiva da teoria da Grande Substituição— vieram da França, onde políticos de extrema direita estiveram entre os primeiros na Europa a subscrever essa conspiração.

Em 2018, a líder de extrema direita Marine Le Pen encorajou seus partidários a lerem o romance de 1973 “Le Camp des Saints”, de Jean Raspail, que descreve a França sendo destruída por uma invasão de migrantes e mergulhada numa guerra racial.

Após o massacre de Christchurch, os partidos de direita europeus, em sua maioria, reagiram com silêncio. E fizeram o mesmo após o de El Passo.

Mas não se veem sinais de que estejam se afastando da teoria da Grande Substituição. Semanas apenas após o massacre de Christchurch, o então vice-chanceler austríaco Heinz-Christian Strache disse em entrevista que combater a “substituição populacional” –a ideia de que muçulmanos tomem o lugar da suposta identidade judaico-cristã da Europa— continuaria a ser uma meta de seu partido.

Suas declarações não passaram despercebidas.

Em entrevista ao Washington Post, o Movimento Identitário –sob investigação porque o atirador de Christchurch fez doações a ele— aplaudiu as declarações.

Seu líder, Martin Sellner, disse que o uso do termo por Strache era uma vitória política para ele e seu grupo e um “sinal do partido para a base” de que a mensagem do vice-chanceler não iria mudar.

(A coalizão governista se desfez semanas mais tarde, depois que vieram à tona vídeos de Strache prometendo contratos governamentais em troca de investimentos ou doações politicamente motivadas.)

Seus críticos argumentam que esse tipo de mensagem legitima os extremistas até certo ponto, apesar de autoridades da extrema direita não terem defendido explicitamente o uso de violência e, em muitos casos, o terem condenado publicamente.

O impacto pode ser duradouro, como parece indicar a permanência de Christchurch como ponto de convergência de extremistas.

“Ninguém que eu conheço na Nova Zelândia gostaria que o ato terrorista que ocorreu aqui inspirasse qualquer coisa senão um sentimento de união contra atos de ódio, violência e terrorismo”, disse no fim de semana a primeira-ministra neozelandesa, Jacinda Ardern.

Tradução de Clara Allain

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