Em derrota de Salvini, Itália evita novas eleições com acordo entre partidos antagônicos

Conte será reconduzido ao cargo de premiê, do qual havia renunciado no dia 20

Lucas Ferraz
Roma

Habemus governum, podem dizer os italianos após mais de 20 dias de incerteza

Foi o que anunciaram nesta quarta-feira (28) os sócios do novo governo em formação, um acordo político, conforme apresentado, entre dois velhos adversários: o Movimento 5 Estrelas (antissistema, que se apresenta como pós ideológico) e o Partido Democrático (de centro-esquerda).

Matteo Salvini, líder da Liga, fala com jornalistas em Roma - Filippo Monteforte/AFP

O novo Executivo será formalizado na manhã desta quinta-feira (29) pelo presidente da República, Sérgio Mattarella, que passará a tarefa de formar o governo ao primeiro-ministro Giuseppe Conte, que permanecerá no cargo que ocupou nos últimos 14 meses –o que já vem sendo chamado de “Conte Bis”.

Além de evitar, ao menos por ora, a realização de novas eleições, a aliança joga para a oposição o responsável pela atual crise, Matteo Salvini, líder da extrema-direita que derrubou o antigo governo, no último dia 8, numa tentativa de antecipar o voto para ele, o político mais popular do país, assumir o poder.

Na ocasião, ele pediu aos italianos para dá-lo “plenos poderes”.

Com o apoio explícito do presidente americano Donald Trump, de líderes da União Europeia e até do Vaticano, Conte foi o grande vencedor da crise.

Advogado e professor que não tem filiação partidária, ele foi escolhido primeiro-ministro pelos antigos sócios (Liga e 5 Estrelas) para atuar como um moderador entre as duas forças.

Comparado à época pela imprensa e outros atores políticos a um fantoche, Conte agora passará a ter um poder de fato.

Responsável por um duro discurso contra Salvini no último dia 20, acusando-o de agir por interesses pessoais ao provocar a queda do governo, sua popularidade cresceu desde então, mostraram pesquisas de opinião –a última, divulgada na terça-feira, registrou queda na confiança dos italianos em Salvini. 

Após discussões internas nos últimos dias sobre nomes e programas que quase inviabilizaram o novo governo, a aliança ainda pode falir se os inscritos do Movimento 5 Estrelas não aprovarem o casamento com o Partido Democrático numa votação online que ainda está para ser realizada.

Criado há uma década pelo comediante Beppe Grillo, o 5 Estrelas tem no seu DNA a democracia direta, o que implica uma consulta a todos seus integrantes (estimados em 100 mil) sempre que uma decisão como a desta semana é anunciada. 

O grande problema do governo que nasce –o 66º desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-45)– é a fragilidade, um problema agudo da república italiana nos últimos 70 anos.

Com a ameaça de recessão na União Europeia e com a necessidade de aprovar até setembro um orçamento para 2020, o país também lida com uma economia desaquecida. 

“É impossível formar um governo estável na Itália, isso porque todos os partidos têm sérias divisões internas que comprometem a governabilidade”, afirma o cientista político Oreste Massari, da Universidade Sapienza, de Roma.

O novo governo (sai um partido da direita nacionalista, entre um de centro-esquerda) deverá ter mudanças profundas em relação ao anterior.

Além de mais próximo das instituições europeias, ele deve cancelar algumas das medidas colocadas em prática por Salvini nos últimos meses.

Como ministro do Interior ele adotou uma agressiva política anti-imigração, fechando os portos italianos para embarcações que resgatam imigrantes no Mediterrâneo e criminalizando as ONGs.

Acabar com essas práticas foi uma das reivindicações do Partido Democrático para se juntar ao antigo aliado da Liga. 

“Os partidos que agora se juntam têm diferenças mas também muitos pontos em comum, sobretudo na questão social e em relação ao meio ambiente. O 5 Estrelas, apesar de ser populista, tem programas próximos da esquerda tradicional”, ressalta Massari, para quem as diferenças eram maiores na aliança entre a Liga e o Movimento 5 Estrelas. 

Na democracia parlamentar italiana, para se formar um governo é necessário contar com pelo menos 40% dos votos do Parlamento.

Um partido não precisa ser o mais votado para governar, como aconteceu à Liga, que obteve 17% dos votos na eleição nacional de março de 2018 e se aliou ao Movimento 5 Estrelas, o mais votado naquele pleito com 32% dos votos –na ocasião, o Partido Democrático ficou com 18%. 

Nos 14 meses de existência do último governo, Salvini tornou-se o principal protagonista do Executivo, impondo sua agenda extremista, citada agora como argumento para uma concertação que o tirasse do poder.

Nesse período, a correlação de forças mudou, conforme o cenário visto na votação das Eleições Europeias realizadas em maio deste ano: a Liga foi o partido mais votado (34%), enquanto o Movimento 5 Estrelas caiu para a terceira posição (17%), atrás do Partido Democrático (19%). 

Apesar das diferenças programáticas, a aliança entre o Movimento 5 Estrelas e Partido Democrático se mostra conveniente para as duas siglas.

Se o caminho fosse o voto, não haveria outro nome no cenário capaz de vencer Salvini, um dos líderes da direita populista europeia, admirador de políticos como o russo Vladimir Putin, o húngaro Viktor Orban e o brasileiro Jair Bolsonaro. 

Trump, outro de seus referentes, o ignorou na atual crise –o americano disse esperar que Giuseppe Conte continuasse no cargo– e não o recebeu numa viagem recente de Salvini aos Estados Unidos. 

Nos últimos dias, o líder da Liga tentou reverter os efeitos de sua decisão de derrubar o governo com o Movimento 5 Estrelas.

Uma de suas propostas era refazer a aliança, lançando o líder do movimento populista, Luigi Di Maio, para o cargo de primeiro-ministro. Não teve sucesso. 

O político considerou a aliança anunciada nesta quarta um “indecoroso espetáculo teatral, feito da poltrona e contra o desejo dos italianos”. Segundo ele, o novo governo nasce a partir do ódio contra a Liga e atende aos interesses de “Paris, Berlim e Bruxelas”.

Ele disse que o único caminho do país era o voto, mesma opinião expressada por Silvio Berlusconi, líder da Força Itália, partido de centro-direita, e um provável aliado de Salvini se houvesse novas eleições.


A CRISE NA ITÁLIA

mar.2018 Os partidos A Liga (extrema-direita) e Movimento 5 Estrelas (anti-sistema) conquistam votação expressiva nas eleições e debatem formar uma coalizão

jun.2018 Os líderes dos dois partidos, Matteo Salvii (Liga) e Luigi di Maio (5 Estrelas) chegam a um acordo para formar o governo e Giuseppe Conte, um independente, toma posse como premiê

mai.2019 A Liga é o partido mais votado (34%) nas eleições para o Parlamento Europeu. O 5 Estrelas (17%) fica em terceiro lugar, num sinal de perda de força

jul.2019 A Liga é alvo de processo pela acusação de receber doações de campanha da Rússia de modo ilegal

7.ago.2019 Senado aprova nova linha de trem para a França. A Liga defende o projeto, mas o 5 Estrelas tenta barrá-lo, por envolver questões ambientais

8.ago.2019 A Liga convoca uma moção de desconfiança contra o governo e Salvini pede novas eleições

20.ago.2019 Conte renuncia ao cargo

28.ago.2019 5 Estrelas e PD chegam a acordo para formar governo, com Conte no cargo de premiê

 
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