Descrição de chapéu The Washington Post

Em massacres recentes, supremacistas brancos miraram temas ambientais

Conexão entre proteção da natureza e exclusão racial é criticada por acadêmicos

Joel Achenbach
Washington Post

Antes dos massacres que deixaram dezenas de mortos em Christchurch (Nova Zelândia) e em El Paso, no Texas (EUA), neste ano, os atiradores se esforçaram para explicar sua fúria, incluindo o ódio a imigrantes.

As declarações que aqueles homens publicaram na internet compartilham outra obsessão: superpopulação e degradação ambiental.

O suposto atirador de Christchurch, acusado de visar muçulmanos e matar 51 pessoas em março, declarou-se um "ecofascista" e criticou as taxas de natalidade dos imigrantes.

A declaração ligada ao atirador de El Paso, acusado de matar 22 pessoas em uma área comercial no início deste mês, lamenta a poluição da água, o lixo plástico e a cultura do consumo americana, que estaria "criando um fardo enorme para as futuras gerações".

Viúvo de vítima do massacre em El Paso no local do velório
Viúvo de vítima do massacre em El Paso no local do velório - Jose Luiz Gonzalez - 17.ago.19/Reuters

Os dois tiroteios em massa parecem ser exemplos extremos de ecofascismo —o que Betsy Hartmann, professora emérita no Hampshire College, chama de "ódio esverdeado".

Muitos supremacistas brancos se apegaram a temas ambientais, estabelecendo conexões entre a proteção da natureza e a exclusão racial.

Essas ideias se mostraram particularmente perigosas quando adotadas por indivíduos instáveis, propensos à violência e convencidos de que devem tomar medidas drásticas para evitar a catástrofe.

O alegado documento do atirador de El Paso é cheio de desespero existencial: "Toda a minha vida tenho me preparado para um futuro que atualmente não existe".

Nos últimos anos, o movimento ambientalista influenciou fortemente a justiça social —exatamente o oposto do que buscam os grupos de ódio.

Agora, os líderes dessas organizações temem que os nacionalistas brancos estejam usando mensagens verdes para atrair os jovens a adotar agendas racistas e nativistas.

"O ódio está sempre procurando uma oportunidade para agarrar alguma coisa", disse Mustafa Santiago Ali, vice-presidente da National Wildlife Federation e especialista em justiça ambiental.

"É por isso que eles usam essa linguagem ecológica que existe há algum tempo e tentam reformulá-la."

Para Michelle Chan, vice-presidente de programas da Friends of the Earth, "a chave para entender aqui é que o ecofascismo é mais uma expressão da supremacia branca do que do ambientalismo".

Tudo isso está acontecendo em uma era retórica e ideologicamente superaquecida, em que o discurso público se torna tóxico, não apenas nos recantos obscuros da internet, mas entre aqueles que ocupam altos cargos eletivos.

Os ativistas ambientais querem gerar um senso de urgência sobre a mudança climática, a perda de biodiversidade e outras agressões ao mundo natural, mas não querem que suas mensagens levem as pessoas a ideologias dementes.

Há um perigo de "apocaliptismo", disse Jon Christensen, professor-assistente adjunto da Universidade da Califórnia em Los Angeles, que escreveu extensamente sobre o uso indevido de cenários ambientais distópicos.

É importante, disse ele, fornecer às pessoas potenciais soluções e razões para ter esperanças: "Há definitivamente o perigo de as pessoas adotarem medidas terríveis quando sentem que não há saída".

Hartmann, que acompanha o ecofascismo há mais de duas décadas, reflete essa advertência, dizendo que os ambientalistas "precisam se afastar desse discurso apocalíptico, porque ele facilmente faz o jogo do nacionalismo branco apocalíptico".

Líderes de várias organizações ambientais importantes disseram nesta semana que a supremacia branca é a antítese de seu movimento.

"O que vimos no manifesto de El Paso é uma ideologia míope, odiosa e mortal, que não tem lugar no movimento ambientalista", disse Michael Brune, diretor-executivo do Sierra Club.

No mesmo tom, Andrew Rosenberg, diretor do Centro de Ciência e Democracia da Union of Concerned Scientists, disse: "Precisamos nos manifestar para que nossos membros saibam que sob nenhuma circunstância estamos comprando esse tipo de filosofia".

Os supostos pistoleiros em El Paso e Christchurch não surgiram do movimento verde. Os documentos atribuídos a eles tratam principalmente de raça, identidade cultural, imigração e o medo de uma "grande substituição" dos brancos por pessoas de outras raças.

A parte "eco" da equação é sem dúvida um acréscimo.

Mas esses supostos assassinos não criaram suas ideologias odiosas no vácuo. Eles exploraram ideias sobre a natureza que estão em ampla circulação entre os nacionalistas brancos.

Antes do comício "Unir a direita" em Charlottesville em 2017, por exemplo, o líder nacionalista branco Richard Spencer publicou um manifesto que tinha como objetivo proteger a natureza.

O ecofascismo tem raízes profundas. Há um elemento forte dele na ênfase nazista em "sangue e solo" e pátria, e a necessidade de um espaço vital purificado de elementos estranhos e indesejáveis.

Enquanto isso, os líderes dos principais grupos ambientalistas são rápidos em reconhecer que seu movimento tem uma história imperfeita no que se refere a raça, imigração e inclusão.

Alguns conservacionistas pioneiros abraçaram o movimento eugênico, que via o "darwinismo social" como uma forma de melhorar a raça humana, limitando as taxas de natalidade de pessoas consideradas inferiores.

"Há uma ideia que vem do movimento eugênico de que a natureza, a pureza e a conservação estariam ligadas à pureza da raça", disse Hartmann, autor de "The America Syndrome: Apocalypse, War and our Call to Greatness" [a síndrome da América: apocalipse, guerra e nosso chamado à grandeza].

Os conservacionistas têm uma longa história de luta com questões sobre imigração e crescimento populacional.

Alguns dos que estão na esquerda ambiental viram a explosão da população humana —que está se aproximando de 8 bilhões e mais do que dobrou no último meio século— como um fator primordial da crise ambiental. Esse argumento foi depois adotado por racistas.

O suposto atirador de Christchurch começou seu discurso on-line escrevendo: "É a taxa de natalidade. É a taxa de natalidade. É a taxa de natalidade" e depois avisou sobre a "invasão" de imigrantes que "substituirão os brancos que não conseguiram se reproduzir".

O documento que teria sido publicado pelo suposto atirador de El Paso cita as taxas de natalidade dos "invasores" que tentam entrar nos EUA, e afirma: "Se conseguirmos nos livrar de um número de pessoas suficiente, nosso modo de vida poderá se tornar mais sustentável".

Essa linha de pensamento é desanimadora para Paul Ehrlich, 87, professor emérito da Universidade Stanford, cujo best-seller "A Bomba Populacional", de 1968, provou ser extremamente influente.

"Eles costumam me citar, apesar de eu ter passado a vida tentando lutar contra o racismo", disse Ehrlich.

John Holdren, professor de Harvard, coautor de artigos com Ehrlich e que depois serviu oito anos como conselheiro científico do presidente Barack Obama, disse que o movimento ambientalista lutou décadas atrás com a percepção racista da ênfase no crescimento populacional.

"Muitas pessoas sentiram que estavam se queimando ao falar sobre o crescimento populacional e seu impacto negativo", disse Holdren.

Como resultado, disse, os líderes do movimento começaram a se concentrar na educação e empoderamento das mulheres, o que levou à queda das taxas de natalidade em todo o mundo, à medida que as mulheres assumem o controle de suas vidas reprodutivas.

Um refrão entre os ambientalistas é que, se os grupos anti-imigrantes estão genuinamente preocupados com a degradação do mundo natural, eles estão atacando as pessoas erradas.

A mudança climática não é impulsionada por pessoas pobres que lutam para sobreviver. As atividades dos países ricos têm sido a principal fonte histórica de emissões de gases de efeito estufa, do esgotamento de recursos naturais e da destruição de habitats.

Ali, o especialista em justiça ambiental, disse que muitas vezes ouve as pessoas dizerem que o crescimento populacional é o grande problema atual, e ele rejeita isso.

"Minha resposta para eles é: 'Quem são as pessoas que precisamos limitar? Quem são as pessoas que tomam decisões sobre isso?' (...) Até que tenhamos verdadeira equidade e igualdade e um equilíbrio de poder, sabemos que as comunidades vulneráveis vão acabar no lado negativo da contabilidade, sejam quais forem as opções difíceis”, disse Ali.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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