Em meio a guerra diplomática, Japão libera exportação de material para smartphone a Coreia do Sul

Coreanos pedem indenização por trabalhos forçados durante ocupação japonesa do país na 2ª Guerra

Seul | Reuters

Pela primeira vez desde as restrições impostas em julho, o Japão aprovou na quarta (7) a exportação de um material empregado em telas e chips de smartphones para a Coreia do Sul. O produto aprovado é um químico chamado fotorresistor EUV. 

Os vizinhos asiáticos enfrentam uma crise diplomática causada, entre outros fatores, por uma questão que, segundo a Coreia do Sul, está mal resolvida. Trata-se da indenização a sul-coreanos vítimas de trabalhos forçados durante a ocupação japonesa da Coreia na Segunda Guerra Mundial. 

Em outubro de 2018, a Suprema Corte sul-coreana condenou a empresa japonesa Nippon Steel a pagar indenizações a quatro ex-funcionários sul-coreanos que foram vítimas de trabalhos forçados. A sentença ordena o pagamento de 100 milhões de wons (cerca de R$ 330 mil) a cada um deles.

Manifestante segura bandeira de protesto contra o Japão, depois da decisão de Tóquio de remover a Coreia do Sul da lista de parceiros preferenciais para comércio - Jung Yeon-je / AFP

A decisão gerou irritação em Tóquio, que apontou para uma erosão da confiança na Coreia do Sul. Para o governo japonês, todas as indenizações relacionadas à Segunda Guerra foram resolvidas em um acordo de 1965, e reabrir o caso é uma violação da lei internacional.

A contenda se desdobrou em retaliações econômicas quando, em julho deste ano, o Japão restringiu o envio de materiais tecnológicos à Coreia do Sul. Os exportadores japoneses passaram a necessitar de uma autorização para cada lote que desejassem enviar aos seus vizinhos.

O tempo para obtenção dos documentos pode demorar até 90 dias, o que dificulta um processo que antes era expresso, já que a Coreia do Sul estava em uma "lista branca" de países preferenciais para comércio com o Japão.

Três produtos constavam da lista de restrições: fluoreto de hidrogênio, poliimida fluorada e fotorresistores. 

"Normalmente, nós não anunciamos cada vez que damos permissão de exportação. No entanto, o governo sul-coreano se referiu a nossas medidas como um embargo às exportações, o que é uma crítica injusta", disse o ministro da Indústria do Japão, Hiroshige Seko.

Segundo nota enviada à Folha pelo Consulado do Japão em São Paulo, os produtos restritos também podem ser usados para fins militares. Esta seria a razão pela qual os "exportadores passaram a ser obrigados a solicitar permissão do governo japonês" para enviarem tais materiais à Coreia do Sul. 

O Consulado diz ainda que decidiu divulgar a primeira liberação de exportação na quarta por estar sendo "criticado indevidamente" por Seul, que acusa Tóquio de restringir o comércio entre os dois países.

"O governo japonês reitera que este procedimento é uma medida de segurança nacional e não se trata de restrição comercial. Estima-se que a medida não afetará gravemente o comércio entre o Japão e a República da Coreia", completa a nota.

O ministro da Indústria do Japão disse também que, caso haja mau uso dos materiais —se forem empregados na produção de armas—, o país ampliará a lista de produtos restritos.

O presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, disse nesta quinta (8) que restrições mais severas minariam a credibilidade internacional do Japão e acusou Tóquio de usar sua vantagem industrial como arma.

"Mesmo se houver algum ganho, será de curta duração. No final, é um jogo sem vencedores, onde todos, incluindo o próprio Japão, se tornam vítimas", afirmou Moon.

"Eles aprovaram [para exportação] apenas um dentre vários itens", apontou um representante sul-coreano do Ministério do Comércio. "Isso não significa que as incertezas tenham sido completamente removidas para os outros itens", completou uma autoridade presidencial. 

A Samsung, gigante sul-coreana de smartphones, não quis comentar. 

A Coreia do Sul disse que planeja reforçar as regulamentações sobre cinzas de carvão importadas, principalmente do Japão, usadas para produzir cimento, e propôs benefícios fiscais para as empresas locais caso precisem comprar químicos de fabricantes estrangeiros, enquanto Seul tenta cortar a dependência do Japão.

Simultaneamente, membros do Conselho Nacional de Segurança da Coreia do Sul disseram nesta quinta que continuam tentando resolver o impasse com o vizinho via diálogo. 

As restrições às exportações mostram como o Japão controla um elo vital na cadeia global de suprimentos de componentes de smartphone.

Em um evento em Nova York para um novo lançamento, o chefe da divisão de telefonia móvel da Samsung disse a repórteres que não poderia descartar um impacto na cadeia de suprimentos para a produção de smartphones se as restrições se arrastarem por mais de quatro meses. 

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