Famosas abusadas têm o benefício da dúvida, as imigrantes, não, diz finalista do Pulitzer

Bernice Yeung concorreu com o livro sobre violência sexual contra trabalhadoras vulneráveis

Marina Dias
Washington

Denunciar casos de assédio é sempre difícil, mas mulheres imigrantes que trabalham nos Estados Unidos precisam enfrentar outras barreiras se quiserem falar sobre os abusos que sofreram de seus supervisores.

O medo da deportação, a dificuldade com o idioma e as condições de pobreza estão entre as principais razões do silêncio, explica Bernice Yeung. A jornalista americana foi finalista do Pulitzer deste ano com o livro sobre a violência sexual contra trabalhadoras vulneráveis como um fenômeno estrutural nos EUA.

A jornalista Bernice Yeung
A jornalista Bernice Yeung - University de Michigan/Reprodução

Segundo ela, os setores da economia informal ou que exigem menos qualificação dos empregados são o centro de uma dinâmica de poder que oprime as imigrantes.

 

Em entrevista à Folha, Yeung afirma que movimentos como o #MeToo —de atrizes e diretoras em Hollywood contra o assédio— ajudam a encorajar mulheres a falarem sobre o tema, mas há uma diferença fundamental entre as famosas e as vulneráveis: as primeiras têm o benefício da dúvida. As outras não.

O projeto que deu origem ao seu livro começou em 2012, quando tratar de violência sexual era um tabu maior do que é hoje. Como seu interesse pelo tema começou? 

Me envolvi com o projeto “Rape in the fields” (estupro no campo, em tradução livre), que investigou a agressão sexual a trabalhadoras rurais imigrantes. 

Venho de família de imigrantes, meus pais são de Hong Kong, e sempre me interessei pelas experiências dessas pessoas nos EUA e por questões de violência contra a mulher. 

É interessante olhar para trabalhadoras porque, especialmente quando pensamos nos EUA, as imigrantes vêm ao país para melhorar suas vidas. Estava interessada no cenário em que há mulheres imigrantes que só querem fazer seu trabalho sendo abusadas. 

Houve um caso impactante que chamou a atenção para o projeto? 

Havia uma estudante de jornalismo da Universidade da Califórnia, em Berkeley, que conheceu uma trabalhadora rural que tinha que fazer sexo com seu supervisor toda temporada para manter o emprego. 

Ela ficou grávida e teve filhos devido a esses estupros. Foi um cenário chocante, e achamos que tinha algo para continuar apurando. A estudante viu que não eram casos isolados, mas uma história muito desafiadora para se concluir em um tempo curto, porque existem muitos tabus em torno desses tópicos.

Em 2012 ainda não havia movimentos como #MeToo e #NiUnaaMenos. 

É sempre difícil [falar sobre isso]. Mas, sim, não havia o benefício desses tipos de movimentos nos quais as pessoas sentem que têm um pouco mais de suporte para falar sobre o assunto. 

Entre apuração e produção , a sra. levou mais de dois anos. Como escolheu as histórias que iriam para o projeto final? 

Logo no começo da apuração, ouvimos que esse era um problema em outros setores trabalhistas também. Depois que terminamos a parte sobre as trabalhadoras rurais, mudamos nossa atenção para o mercado de zeladoraria/faxina.

Escolhi as histórias de forma a refletir a demografia das trabalhadoras nas áreas que dessem uma visão geral dessa dinâmica. Estávamos interessados no fenômeno da violência sexual entre trabalhadoras nos EUA e, mesmo que isso seja uma preocupação para trabalhadoras rurais, faxineiras e zeladoras, também é para as trabalhadoras domésticas de hotéis, restaurantes. 

O que une essas indústrias é que elas não pagam bem e, assim, muitas imigrantes são empregadas nesses trabalhos. Cria-se uma certa dinâmica de poder, na qual o supervisor é abusivo e pode ser muito difícil enfrentar isso. 

Já é difícil o suficiente para mulheres famosas enfrentarem a situação, imagine para trabalhadoras pobres, que têm a barreira do idioma, não estão familiarizadas com as leis trabalhistas americanas e o próprio status de imigrante. 

Nem todas as trabalhadoras com quem falamos são imigrantes sem documentos. Mas, mesmo as que tinham permissão de ficar nos Estados Unidos, também se preocupam com deportação.

​​A sra. define abusos e agressões sexuais como um fenômeno histórico e não como casos isolados. O que quer dizer com isso? 

Quando comecei a trabalhar nisso, ouvia de empresas, empregadores e pessoas na comunidade que o assédio acontece porque alguém é uma “maçã podre”. Como você resolve um problema quando não pode controlar o comportamento de todos? 

Decidi continuar apurando, procurando outros casos e em outras indústrias. Identifiquei razões estruturais para esses tipos de abusos acontecerem. Não são acidentes, não são um problema de uma maçã podre. É um cenário maior da estrutura do nosso sistema, que permite isso acontecer ou, no mínimo, não proíbe.

Quão mais difícil é para uma imigrante enfrentar e falar sobre abusos? 

A pobreza, o medo da deportação e a barreira do idioma criam várias camadas desafiadoras para enfrentar isso. Acho que é sempre difícil o suficiente. Ponto. 

E, se você adiciona outros desafios, pode ver por que várias pessoas escolhem outras maneiras de lidar com o problema: aguentam o quanto podem, se demitem e acham outro emprego ou mudam a maneira de fazer seus trabalhos. 

As trabalhadoras usam todas essas estratégias porque é difícil enfrentar e denunciar o assédio. Tento mostrar que, mesmo quando as pessoas enfrentam, não significa que o problema acabou ou que a situação necessariamente melhorou.

As imigrantes encontram também problemas nos órgãos oficiais? 

Os oficiais dão prioridade para esses assuntos, estão preocupados com a discriminação no local de trabalho entre imigrantes. 

Mas acho que dão alguns passos para trás no esforço para aplicar as leis. Não é todo mundo que vai à polícia. E, quem o faz, enfrenta problema de idioma, de ser ou não considerado confiável, crível em suas alegações. As pessoas não se sentem ouvidas.

A legislação dos EUA para crimes sexuais é a mesma para cidadãos americanos e não americanos? 

Sim, elas são igualmente aplicáveis. Apesar disso, não são igualmente conhecidas. Do lado criminal, não importa se você é americana ou imigrante, você tem proteção da lei. Mas, no lado civil, as pessoas não têm as mesmas oportunidades.

O assédio é ilegal, mas quando acontece com mulheres pobres e imigrantes, elas acham que vão ser perseguidas. Essas leis são reativas, querem dar compensação financeira, processar o abusador, mas aí a pessoa já foi machucada. É preciso investir na prevenção.

Você diz que há diferenças na exploração de mulheres famosas e em cargos executivos e as pobres e imigrantes da classe trabalhadora. Que diferença é essa? 

São similares em vários níveis. Em termos de exploração de poder, de como isso frustra, machuca, impacta os sentimentos e desperta sensação de perseguição. 

Mas, para as imigrantes, é difícil enfrentar e falar sobre isso. A principal diferença é sobre quais são as opções. A maioria tinha que continuar trabalhando e lidando com os seus assediadores porque suas oportunidades em termos de trabalho são limitadas. 

Elas estão ainda preocupadas com suas documentações, se vão conseguir outro emprego, como seus filhos e famílias vão sobreviver, então não podem apenas pedir demissão. 

A outra diferença é sobre quem é confiável, quem pode ter credibilidade. Imigrantes não falam inglês perfeito, têm que provar sua credibilidade. Enquanto mulheres brancas ou atrizes de Hollywood têm o benefício da dúvida.

Há mais medo das mulheres imigrantes durante o governo Trump, que tem uma retórica anti-imigração? 

Existe muito medo e ansiedade por causa da política de imigração, que mudou com o governo Trump. Acho que as comunidades imigrantes, no geral, estão com medo. 

Não tenho seguido esses casos desde o ano passado, mas as mulheres estão preocupadas. Por outro lado, historicamente, independentemente do governo Trump, pessoas vítimas de tráfico humano ou de algum crime podem pedir um visto específico nos EUA e aí têm proteção contra a deportação. Algumas das trabalhadoras com quem conversei aplicaram para esse visto.

A sra. acha que os movimentos feministas vão levar a uma mudança cultural e à redução dos casos de assédio? 

O problema é enorme, mas temos que pensar em pequenas batalhas. Cada uma dessas indústrias por muitos anos têm agido contra assédios. Estão treinando pessoas, deixando claro para as vítimas que podem falar, com novos sistemas de denúncia.

No começo, quem falava eram as famosas, movimentos como o #MeToo eram focado nesse grupo. Com o passar do tempo, a consciência está crescendo entre as trabalhadoras, inclusive as vulneráveis e as imigrantes, as que atuam na economia informal. 

Muitas organizações junto a trabalhadoras imigrantes estão usando esse momento para pedir a aplicação das leis. 

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