Guerrilhas colombianas aliciam menores na fronteira com a Venezuela, diz ONG

Três grupos armados tiram vantagem de migrantes venezuelanos e disputam território com atividades de narcotráfico e prostituição

Rafael Balago
São Paulo

Entre Venezuela e Colômbia, há sete passagens oficiais de fronteira. E ao menos 300 irregulares. Muitas delas são controladas por policiais venezuelanos, que liberam a passagem mediante propina, e guerrilheiros colombianos, que em alguns pontos só permitem o acesso ao seu território se o imigrante chegou ali com uma indicação pessoal.

Essas informações fazem parte de um relatório publicado nesta quinta (8) pela Human Rights Watch, organização que visitou a região de Catatumbo, na Colômbia, em abril. Ali, três grupos de guerrilheiros disputam um território onde há plantações de coca, intimidam moradores e tiram vantagem 
de refugiados venezuelanos.

Venezuelano trabalha em plantação de coca na região de Catatumbo, na Colômbia - Luis Robayo - 8.fev.19/AFP

Há cerca de 25 mil venezuelanos na região, segundo estimativas da ONU. Catatumbo fica nos arredores de Cúcuta, cidade fronteiriça por onde o líder opositor Juan Guaidó tentou, sem sucesso, forçar a entrada de alimentos e remédios na Venezuela em fevereiro.

O trabalho nas plantações de coca atrai venezuelanos, mas eles só são aceitos como empregados se tiverem a indicação de alguém do local. E, caso o estrangeiro cometa algum delito, a punição será dada a quem o indicou.

Venezuelanas, sem opção de trabalho, acabam indo para a prostituição, que muitas vezes ocorre sob supervisão dos guerrilheiros. O HRW viu bordéis com as iniciais de um grupo pintada na porta. 

Como muitos dos venezuelanos não possuem permissão de trabalho na Colômbia, eles temem denunciar abusos e serem deportados.

“Com o acordo de paz de 2016 e a desmobilização das Farc, houve um vácuo de poder que não foi ocupado pelo governo”, diz Patrícia (nome fictício), uma das autoras do relatório que pediu anonimato pois voltará à região em breve para novas ações. 

Graffiti on the wall of a brothel in Convención in the Catatumbo region, where most women working were Venezuelan exiles. The EPL (Popular Liberation Army) is one of the armed groups operating in the area. © 2019 Human Rights Watch
Bordei em Convenção, na região de Catatumbo, onde a maioria das mulheres trabalharam eram venezuelanas - Human Rights Watch

“Então, o ELN (Exército de Libertação Nacional) e o EPL (Exército Popular de Libertação) dominaram a área.” O terceiro grupo é formado por remanescentes das Farc.

O conflito entre guerrilheiros e Exército da Colômbia se acentuou desde o início de 2018. O relatório aponta que, antes do fim oficial das Farc, os três grupos dividiam suas atividades na região de modo mais ou menos pacífico, mas, com o vácuo de poder, as milícias deram início a uma batalha para decidir quem assumiria o controle. 

Estima-se que o ELN tenha cerca de 400 guerrilheiros na região, e o ELP, 200. Há também cerca de 70 ex-membros das Farc que não desistiram da luta armada. 

O HRW conversou com cerca de 80 pessoas e analisou mais de 500 registros oficiais de abusos e crimes. Segundo a entidade, o clima de violência afeta duramente a rotina dos moradores. Por medo ou ameaças, mais de 40 mil deixaram a região desde 2017, segundo dados do governo.

Em 2018, ao menos 231 pessoas foram assassinadas. É comum que um grupo mate alguém por suspeitar de colaboração com uma milícia rival ou com o governo.

Um dos pontos mais sensíveis é a tentativa de aliciar crianças e jovens para a guerrilha, seja na luta armada ou no trabalho nas plantações. 

Em março, por exemplo, membros do ELN foram a uma escola na zona rural de Catatumbo para recrutar alunos com mais de 12 anos.

 

Pais que tentaram evitar que seus filhos se tornassem guerrilheiros acabaram expulsos de suas terras.

Há ainda relatos de ao menos 37 crimes sexuais. Em um dos casos, de 2017, uma jovem foi chamada para uma reunião com membros do EPL, pois um parente estaria em perigo. Chegando lá, foi espancada e estuprada por quatro homens. Dias depois, os agressores foram até sua casa e exigiram que ela não denunciasse o ataque.

O cenário de violência inclui também a instalação de minas terrestres. Em fevereiro, durante um jogo de futebol, um professor foi buscar a bola em um terreno próximo e acabou pisando em uma mina. A explosão fez com que ele perdesse um pé. 

Nas pequenas cidades, guerrilheiros costumam distribuir panfletos com ordens e convocam reuniões com os moradores para impor suas regras, como não aderir a programas que estimulam a troca do cultivo de coca pelo de alimentos. Quem desobedece pode ser expulso, sequestrado ou ter plantações e propriedades incendiadas. 

O HRW acusa o governo colombiano de se omitir. “Mesmo se um cadáver aparece na rua, as autoridades não fazem nada. A sensação é que ali é uma terra de ninguém”, afirma Patrícia.

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