Descrição de chapéu The New York Times

Israel faz três ataques em 18 horas e intensifica guerra por procuração com Irã

Ataques representam nova escalada na guerra deflagrada entre Irã e Israel

Jerusalém | The New York Times

Israel realizou uma série de ataques em todo o Oriente Médio nas últimas semanas para impedir que o Irã forneça a seus aliados árabes mísseis de precisão, drones e outras armas sofisticadas que possam desafiar as defesas de Israel.

Os ataques representam uma nova escalada na guerra por procuração deflagrada entre Irã e Israel e que ameaça desencadear um confronto mais amplo.

O primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu
O primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu - Ronen Zvulun - 25.nov.18/Reuters

Em um período de 18 horas no fim de semana, um ataque aéreo israelense matou na Síria dois militantes treinados iranianos, um drone detonou uma explosão perto de um escritório do Hizbullah nos subúrbios ao sul de Beirute e um ataque aéreo em al-Qaim, no Iraque, matou um comandante de uma milícia iraquiana apoiada pelo Irã.

Israel acusa o Irã de tentar estabelecer uma linha de fornecimento de armas para o Líbano por meio do Iraque e do norte da Síria.

Os ataques, confirmados publicamente apenas por Israel, visam deter o Irã e sinalizar para seus representantes (os “proxies”) que Israel não tolerará uma frota de mísseis inteligentes em suas fronteiras, segundo autoridades e analistas.

"O Irã está construindo algo aqui na região", disse Sima Shine, ex-chefe de pesquisa da inteligência israelense, agora acadêmico do Instituto de Estudos de Segurança Nacional, em Tel Aviv.

"O que mudou é que o processo chegou a um nível em que Israel tem que agir de forma diferente."

Autoridades iranianas disseram que os ataques israelenses não ficarão sem resposta. O major-general Qasem Soleimani, comandante da Força Quds do Irã, que supervisiona as operações militares secretas fora do Irã, disse no Twitter que "as ações são irracionais e serão as últimas".

Embora o Irã não tenha reconhecido publicamente a transferência de tecnologia de mísseis, um iraniano com conhecimento das ações regionais do Irã disse que no ano passado o país mudou seu foco de treinar suas tropas para a batalha na Síria e no Iraque e passou a equipá-las com alta tecnologia, armas e treinamento.

Essas explosões ressaltam como a expansão oportunista do Irã em grande parte do Oriente Médio está enfrentando uma forte resistência israelense.

"O palco militar foi ampliado por Israel em termos dos alvos de seus ataques", disse Randa Slim, analista do Instituto do Oriente Médio em Washington.

“Não se trata mais da presença iraniana na Síria. Trata-se da rede do Irã na região.”

Durante anos, à medida que a instabilidade e o conflito enfraqueceram os estados árabes, o Irã avançou, construindo laços fortes com as forças locais que se beneficiam de seu apoio, expandindo sua influência e amplificando a ameaça a Israel.

O Irã foi pioneiro nessa abordagem ao transformar o Hizbullah na força militar mais terrível do Líbano, com dezenas de milhares de combatentes treinados e um arsenal que se acredita conter mais de 100 mil foguetes e mísseis apontados para Israel.

Os esforços de Israel para impedir a expansão iraniana nos últimos anos têm se concentrado principalmente na Síria, onde Israel realizou mais de 200 ataques aéreos desde o início de 2017 a supostos comboios de armas, bases e outros locais associados à ação de guerra iraniana.

Israel evitou principalmente matar combatentes do Hizbullah na Síria e atacar dentro do Líbano, o que poderia ter provocado contra-ataques. Isso levou a uma compreensão tácita —muitas vezes chamada de regras do jogo— sobre onde e como o conflito iria e não iria acontecer.

Os ataques do último fim de semana supostamente violaram essas regras, matando dois combatentes do Hizbullah na Síria e atingindo o coração de um reduto da milícia libanesa em Beirute.

Declarações públicas impetuosas de ambos os lados, que parecem destinadas tanto para o público doméstico quanto para o outro lado, aumentaram ainda mais a tensão.

As forças armadas de Israel começaram a provocar seus adversários nas redes sociais: após o ataque aéreo na Síria, Soleimani foi ridicularizado.

Na terça-feira, elas lançaram uma conta no Twitter em persa para tentar enfraquecê-lo junto ao público iraniano.

Dirigindo-se a seus seguidores no fim de semana, Hassan Nasrallah, o líder do Hizbullah, prometeu retaliar, vociferando sua determinação em evitar que os ataques no Líbano se tornem frequentes.

"Nós, na resistência islâmica, não vamos permitir esse tipo de atitude, não importa a que custo!", disse ele. Ele não disse como ou quando suas forças responderiam.

"Eu sugiro que Nasrallah se acalme", disse o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, de Israel, na terça-feira. “Israel sabe como se defender e vingar-se de seus inimigos. Eu digo o mesmo para Qasem Soleimani: tenha cuidado com suas palavras e ainda mais cuidado com suas ações.”

Autoridades e analistas disseram que o recente aumento nos ataques, e sua disseminação para o Iraque e o Líbano, vieram em resposta a ajustes na estratégia do Irã.

Um deles envolveu as ações de Soleimani para manter as linhas de fornecimento para envio de armas e equipamentos do Irã.

Até cerca de um ano atrás, de acordo com um alto funcionário de inteligência do Oriente Médio, o Irã usava aviões comerciais iranianos ou sem identificação que voavam para o aeroporto de Damasco para chegar às unidades do Hizbullah ou da Força Quds na Síria.

Mas repetidos ataques aéreos israelenses levaram o Irã a redirecionar os fornecimentos para campos de pouso no norte da Síria.

Quando Israel atacou esses campos, Soleimani agiu para estabelecer uma rota terrestre. Essa rota vai do Irã até o Iraque, onde motoristas e veículos são frequentemente trocados para escapar da vigilância, antes de cruzar para o norte da Síria.

O ataque israelense em 19 de julho na base de Amerli, ao norte de Bagdá, atingiu um carregamento de mísseis guiados para a Síria.

Foi a primeira vez que Israel realizou um ataque aéreo no Iraque desde que destruiu um reator nuclear perto de Bagdá em 1981, quando Saddam Hussein estava no poder.

 
David M. Halbfinger, Ben Hubbard e Ronen Bergman

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