Descrição de chapéu The New York Times

Morte de neta de Robert Kennedy é a décima tragédia a atingir a família

Assassinatos e acidentes mataram outros nove parentes, incluindo um ex-presidente dos EUA

Adeel Hassan
The New York Times

Uma neta de Robert F. Kennedy, Saoirse Kennedy Hill, 22, morreu na quinta-feira (1º) de uma aparente overdose no complexo da família Kennedy em Hyannis Port, Massachusetts.

“Nossos corações estão dilacerados com a perda de nossa amada Saoirse”, disse a família Kennedy em comunicado. “A vida dela foi repleta de esperança, potencial e amor.”

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John Kennedy, durante campanha à Presidência dos EUA em 1960, em Nova York - Meyer Liebowitz - 5.nov.1960/The New York Times)

A morte de Saoirse vem se somar a uma série de tragédias que acometeram os Kennedy, assumindo a aura sombria de uma maldição familiar. A seguir, uma retrospectiva das desgraças sofridas por uma das famílias mais destacadas e influentes dos Estados Unidos.

1944 - Joseph P. Kennedy Jr.

Filho mais velho de Joseph e Rose Kennedy, Joseph Jr. estava prestes a iniciar o seu último ano de estudos na Escola de Direito Harvard em 1943, mas, em vez disso, se voluntariou para ser piloto da Marinha americana na Segunda Guerra Mundial.

Ele foi enviado à Inglaterra e morreu em uma missão secreta, quando uma aeronave experimental carregada de explosivos explodiu sobre o Canal da Mancha.

A família estava reunida em Hyannis Port numa tarde de domingo em agosto quando dois padres chegaram para dar a notícia de sua morte, aos 29 anos.

Eurice Kennedy Shriver, irmã de Joseph Jr., contou mais tarde: “Meu pai levou os dois para cima. Ele desceu um pouco mais tarde e disse: ‘Perdemos Joe’. Depois voltou para cima, entrou em seu quarto e trancou a porta.”

Quando Joe Jr. nasceu, seu avô, o prefeito de Boston John F. Fitzgerald, anunciou à imprensa que o recém-nascido seria presidente um dia.

“Joe foi o astro de nossa família”, comentou John F. Kennedy anos mais tarde. “Ele fez tudo melhor do que o resto de nós fizemos.”

1948 - Kathleen Kennedy

Aos 18 anos, Kathleen, a filha segunda mais velha, foi viver com seu pai em Londres quando ele se tornou embaixador dos EUA no Reino Unido. Ela se apaixonou pela Europa e acabou se radicando ali.

Apelidada de Kick, Kathleen era colunista do jornal Times Herald em Washington quando também ela se voluntariou para servir na guerra, em 1943, e retornou a Londres.

Enquanto viveu na capital britânica, ela se casou com William Cavendish, marquês de Hartington e membro do Exército britânico. Um mês depois do casamento, Cavendish retornou a seu regimento na França, morrendo em combate três meses mais tarde e deixando Kathleen viúva aos 24 anos.

Ela planejava casar-se outra vez, mas morreu na queda de um avião pequeno em que ela e seu noivo viajavam de Paris à Riviera Francesa, onde passariam férias. Ela tinha 28 anos.

O epitáfio em seu túmulo diz: “Alegria ela deu, alegria ela encontrou.”

1963 - Patrick Bouvier Kennedy

Filho do presidente John F. Kennedy e de sua esposa Jacqueline, Patrick nasceu em 1963, prematuro de cinco semanas e meia, e morreu três meses antes do assassinato de seu pai. Ele tinha o que hoje é conhecido como síndrome do desconforto respiratório agudo e viveu menos de 40 horas.

“Ele lutou muito”, comentou o presidente. “Foi um bebê lindo.” Quando Patrick morreu, o presidente se fechou em seu quarto particular no hospital e chorou, segundo seus assessores mais próximos.

Jacqueline Kennedy passou mais uma semana hospitalizada depois de dar à luz. Sua primeira aparição pública mais longa nos Estados Unidos após a morte de Patrick ocorreu em novembro, na viagem dos Kennedy ao Texas.

1963 - John F. Kennedy

Como seu irmão mais velho, Kennedy entrou para a Marinha. Tenente, foi enviado ao Pacífico Sul como comandante de um torpedeiro de patrulha, o PT-109. Um ataque japonês afundou o navio e matou dois dos homens de Kennedy, mas ele conseguiu salvar o resto da tripulação e foi agraciado com a Medalha da Marinha e a do Coração Púrpura.

Kennedy escapou da morte nessa instância. Também chegou a receber a extrema unção quando adoeceu com escarlatina, na infância; quando foi hospitalizado em Londres com o diagnóstico da doença de Addison, já adulto; quando uma febre o levou a cair em coma, em Tóquio, e quando entrou em coma após passar por uma cirurgia nas costas, em 1954.

Voltando para Massachusetts após a guerra, ele conquistou uma vaga de deputado em 1946, e em 1952 foi eleito para o Senado.

Em julho de 1960 Kennedy foi escolhido candidato do Partido Democrata à Presidência, e em novembro desse ano derrotou o vice-presidente Richard Nixon pela menor margem do voto popular vista até então.

Seu assassinato em Dallas no dia 22 de novembro de 1963, aos 46 anos, foi um momento de choque e tristeza arrasadora para sua família e para a nação.

“A bala do atirador deixou uma ferida que não se fechou, uma ferida em nossa consciência de nós mesmos como americanos”, escreveu em dezembro desse ano o crítico cultural Dwight MacDonald.

Os americanos passaram quase quatro dias diante de seus televisores, desde o assassinato, numa tarde de sexta-feira, até o funeral de Estado de Kennedy, na tarde da segunda-feira, que foi acompanhado por 93% das famílias com aparelhos de televisão –uma plateia doméstica sem precedentes.

1968 - Robert F. Kennedy

Robert, irmão do presidente e seu secretário da Justiça, renunciou a esse cargo quase dez meses após o assassinato de John. Ele conquistou uma vaga no Senado por Nova York, e, em meio à turbulência crescente da década de 1960, muitos americanos enxergavam nele uma figura que poderia sanar as divisões de um país dilacerado pela Guerra do Vietnã e por divisões raciais e de classe.

Robert lançou sua própria candidatura à Presidência e ganhou a primária da Califórnia, mas no dia 5 de junho de 1968 foi atingido por um atirador no Hotel Ambassador, em Los Angeles, e morreu no dia seguinte. Tinha 42 anos.

“Meu irmão não precisa ser idealizado ou enaltecido na morte além do que foi na vida”, disse em seu discurso fúnebre o senador Edward M. Kennedy, o único irmão remanescente. “Deve ser recordado apenas como um homem bom e decente, um homem que enxergou o mal e tentou corrigi-lo, que enxergou o sofrimento e tentou curá-lo, que enxergou a guerra e procurou fazê-la parar.”

Quando o caixão de Robert Kennedy foi levado ao cemitério nacional de Arlington, 1 milhão de pessoas se postaram ao lado de trechos da ferrovia de Nova York e Washington, numa imensa corrente de luto.

“Você sente de maneira pessoal uma perda imensa e infinita”, comentou um dos assessores de Kennedy que estava no trem, observando as multidões. Para muitos americanos, a esperança que sentiram no início da década de 1960 com a chegada de John F. Kennedy ao poder foi extinta com a morte de seu irmão.

Robert, que atuava como pai substituto do filho e da filha de John F. Kennedy, deixou dez filhos seus, com um 11º a caminho.

1984 - David Kennedy

David tinha 13 anos e estava assistindo à televisão sozinho em um quarto de hotel em Los Angeles quando seu pai, Robert, foi baleado fatalmente.

David, que tinha um histórico de alcoolismo e dependência de heroína, morreu de overdose de drogas aos 28 anos de idade em um hotel perto de uma casa de férias da família em Palm Beach, Flórida.

“Este é um momento muito difícil para todos os membros de nossa família, incluindo a mãe de David, Ethel, e seus irmãos e irmãs que tanto tentaram ajudá-lo nos últimos anos”, comentou na época o tio de David, Edward Kennedy. “Nós todos o amávamos muito. Com confiança em Deus, rezamos para que David tenha finalmente encontrado a paz que não encontrou em vida.”

1997 - Michael Kennedy

Na véspera de Ano Novo de 1997, Michael, irmão de David, estava em Aspen, Colorado, jogando uma partida de futebol de esqui, esporte que a família praticava havia anos. Michael, 39, estava jogando com vários parentes com uma bola de futebol de borracha. Ele perdeu o controle de um de seus esquis e se chocou com uma árvore, morrendo dos ferimentos sofridos.

Michael dirigia uma organização sem fins lucrativos que distribuía combustível de aquecimento para pessoas pobres. Ele havia trabalhado em campanhas políticas de seus familiares.

1999 - John F. Kennedy Jr.

A visão de John Jr, de calças curtas e paletó azul, fazendo uma saudação militar no funeral de seu pai, ficou gravada nos corações e mentes de muitos americanos. O dia do enterro de seu pai foi também seu aniversário de 3 anos.

John Jr. estudou na universidade Brown e cursou a Escola de Direito da Universidade de Nova York. Foi promotor público em Manhattan e editor da revista política George, que fundou em 1995.

Para Laurence Leamer, autor de vários livros sobre os Kennedy, é quase certo que John Jr. teria entrado para a política. “E teria feito sucesso.”

Mas em 1999, aos 38 anos, John Jr. morreu quando o avião em que viajava caiu no oceano Atlântico perto de Martha’s Vineyard, no Massachusetts; sua esposa e cunhada estavam a bordo e também morreram. Eles estavam indo ao casamento de Rory, a filha mais jovem de Robert.

Em vez de festejar o casamento, os familiares se reuniram no complexo Kennedy para fazer uma vigília por seus entes queridos, aguardando notícias deles.

2011 - Kara Kennedy

Kara, filha de Edward Kennedy, morreu de ataque cardíaco depois de uma sessão de malhação numa academia de ginástica de Washington. Tinha 51 anos.

Cineasta, ela era a mais velha dos três filhos de Edward Kennedy e Joan Bennett Kennedy. Era mãe de dois adolescentes.

“Diferentemente de meu pai, eu me sentia mais à vontade atrás da câmera que diante dela”, Kara escreveu na revista The Boston Globe Magazine alguns meses antes de sua morte. “Mas, como ele, encontrei minha maior realização quando pude destacar as necessidades e conquistas de outros.”

Tradução de Clara Allain 

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