Peru consegue blindar Pan da turbulência política

Arenas esportivas não mostram sinais de que país vive conflito entre presidente e Congresso

Daniel E. de Castro
Lima

Os capítulos da turbulência política do Peru, após o presidente Martín Vizcarra propor a redução do seu próprio mandato e dos parlamentares, são manchetes dos jornais e acompanhados com expectativa pela população. Só não entram nas arenas dos Jogos Pan-Americanos de Lima.

Um turista ou atleta desavisado sobre o que acontece no país que realiza o maior evento esportivo de sua história pode nem sequer perceber o caos administrativo que ronda o Executivo e o Legislativo.

O presidente do Peru, Martín Vizcarra, entrega medalha de ouro a Benoit Clemente, em Punta Rocas, Lima - Ernesto Benavides - 4.ago.19/AFP

Assim como o Brasil organizou a Copa do Mundo de 2014 sob protestos da população e a Olimpíada de 2016, em meio ao processo de impeachment de Dilma Rousseff, o Peru consegue blindar o Pan da agitação política.

“Sinto que os peruanos aprenderam a lidar com o impasse que está aí. Não influencia nos Jogos. Nós temos o espírito de celebrar as coisas boas. A parte política influencia nossa vida, mas temos de saber esperar”, disse Maria Mejía, 40.

Ela esteve na cerimônia de abertura do evento e visitava a Vila Desportiva Nacional (o parque olímpico do Pan) na última quinta (1º) para assistir aos jogos de handebol.

A sensação de muitos peruanos ouvidos pela reportagem é que desde o ano passado, com a primeira participação do país na Copa do Mundo após 36 anos, o esporte ajudou a elevar a autoestima local.

Chegar à final da Copa América contra o Brasil, no último mês, e sediar o Pan contribuíram com esse processo.

Pesquisa do jornal El Comercio realizada de 27 a 29 de julho em Lima e divulgada na última sexta (2) aponta que 94% aprovam os Jogos no país. Em novembro, eram 78%.

“Não estamos alheios ao que se passa na política, mas temos de apoiar nossos atletas”, diz Hector Villarreal, 51, professor do ensino secundário.

Se no Congresso Vizcarra encontra barreiras para aprovar uma reforma constitucional que elimina a imunidade parlamentar, no Pan as portas estão mais abertas para ele.

Tanto que o presidente discursou na cerimônia de abertura, em um estádio Nacional praticamente lotado, sob mais aplausos do que vaias, algo que Lula, Dilma e Michel Temer não conseguiram fazer quando o Brasil sediou grandes eventos esportivos, como o próprio Pan (2007), além da Copa e da Olimpíada.

No primeiro dia de distribuição de medalhas do Pan, Vizcarra participou da entrega delas e posou para fotos com os maratonistas da casa Gladys Tejeda e Christian Pacheco, que venceram suas provas. Também parabenizou outros atletas peruanos pelas redes sociais nos dias seguintes.

Após apresentar sua proposta, no domingo (28), em meio ao longo feriado dedicado à comemoração da independência do país, ficou uma semana sem fazer aparições relacionadas aos Jogos. Retornou a eles neste domingo (4), condecorando os medalhistas olímpicos do surfe.

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