Pressão para declarar Hizbullah grupo terrorista opõe militares e núcleo olavista

Agentes de inteligência afirmam que, se ceder à pressão dos EUA, o Brasil criará inimigos que hoje não existem no país

Ricardo Della Coletta Gustavo Uribe
Brasília

A possibilidade de o Brasil declarar como grupo terrorista o Hizbullah opõe mais mais vez a ala olavista do governo e os militares.  

Respondendo a uma pressão dos Estados Unidos, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o chanceler Ernesto Araújo trabalham para que a organização seja incluída na lista do governo brasileiro em que hoje estão Al Qaeda, Estado Islâmico e Taleban.

No entanto, há forte resistência no Ministério da Defesa, na Abin (Agência Brasileira de Inteligência) e na Polícia Federal. 

A milícia libanesa Hizbullah (partido de Deus, em árabe) surgiu em 1985 como um movimento de resistência a Israel, que àquela época ocupava o sul do Líbano.

O presidente Jair Bolsonaro discursa durante evento no Palácio do Planalto, em Brasília
O presidente Jair Bolsonaro discursa durante evento no Palácio do Planalto, em Brasília - Evaristo Sá - 16.ago.19/AFP

A facção segue o ramo xiita do islã e se alinha ao Irã e ao regime da Síria. Há inúmeros atentados atribuídos ao Hizbullah, incluindo o ataque na Argentina em 1994, razão pela qual EUA, Israel e Argentina, mais recentemente, descrevem a organização como terrorista.

O filho do presidente Jair Bolsonaro defendeu publicamente a inclusão do Hizbullah na lista de grupos terroristas reconhecidos pelo Brasil nesta segunda-feira (19).   

“Essa questão do Hizbullah envergonha o Brasil no exterior. Temos que mudar essa realidade o quanto antes", escreveu no Twitter o parlamentar, que também é presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados.

"Desconheço argumentos plausíveis que justifiquem considerar o grupo terrorista Hizbullah como partido político.”  

Eduardo —que deve ser indicado por seu pai ao cargo de embaixador do Brasil em Washington— publicou a mensagem nas redes sociais ao comentar a decisão do Paraguai de declarar o Hizbullah uma organização terrorista, seguindo os passos da Argentina, que fez o mesmo há cerca de um mês

Militares e agentes de inteligência brasileiros se opõem e afirmam acreditar que o Brasil deve evitar tomar lado no intrincado tabuleiro geopolítico do Oriente Médio. 

Nas palavras de um militar, se ceder à pressão dos EUA nesse tema, o Brasil criará inimigos que hoje não existem no país e sofrerá uma redução na sua capacidade de conduzir sua política externa de forma independente de Washington.

Assim como ocorreu na promessa de campanha de Bolsonaro de transferir a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém, os militares temem que o Brasil vire alvo de atividades terroristas.

Na avaliação de um interlocutor que acompanha o tema, embora haja forte vontade política para que o Hizbullah entre na lista, a ala olavista terá dificuldades em conseguir seu objetivo.

Isso porque a lei brasileira não prevê grupo seja declarado terrorista sem que haja um reconhecimento anterior pelo Conselho de Segurança da ONU. 

Nas conversas com autoridades brasileiras em que defendem a inclusão do Hizbullah na lista de organizações terroristas, os norte-americanos usam o argumento de que o grupo atua no Brasil, principalmente na região da tríplice fronteira. 

Caso concretize o ato, o Brasil deve abrir uma nova frente de atrito com o Irã, aliado do Hizbullah e importante financiador do grupo. 

As relações entre os dois países já foram impactadas nos últimos meses pela decisão da Petrobras de não vender petróleo a dois navios iranianos que ficaram quase 50 dias parados no porto de Paranaguá (PR).

A estatal brasileira temia ser alvo de sanções dos EUA, e a situação só foi resolvida após uma decisão do presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Dias Toffoli, que determinou à empresa que o combustível fosse fornecido às embarcações.  

Outro país que é contrário ao gesto é o Líbano, sede do Hizbullah e onde o grupo também atua como um importante partido político.

A pressão para que o Brasil declare o Hizbullah uma organização terrorista não vem apenas dos Estados Unidos. Países como Israel e Emirados Árabes Unidos —parceiros preferenciais do governo Bolsonaro na região— também têm defendido o ato em conversas com autoridades brasileiras.

Os árabes, por exemplo, também pedem que o Brasil considere terrorista a Irmandade Muçulmana. 

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