Descrição de chapéu

Recuo sobre Paraguai mostra semelhanças entre diplomacias de Bolsonaro e Lula

Generosidade do governo com Abdo Benítez lembra crise do gás boliviano de 2006

Fábio Zanini
São Paulo

Opostos ideologicamente, Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva aproximam-se no populismo traduzido em retórica messiânica, ataques à imprensa e comunicação direta com o povo. O atual presidente pelas redes sociais, o antigo por meio de inúmeros discursos diários feitos de improviso, que exasperavam sua assessoria.

O fenômeno se estende à diplomacia, que nos aspectos gerais não poderia ser mais diferente, mas cujos pontos de contato são óbvios. A generosidade estratégica do atual governo com o Paraguai, com o objetivo de preservar um aliado à custa do contribuinte brasileiro, lembra muito a crise com a Bolívia em maio de 2006.

lula dá as mãos a evo, os braços erguidos; ambos sorriem
Evo Morales e o então presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, ecomemoram em 2007 a assinatura de acordo de cooperação, no qual a Bolívia promete não deixar faltar gás natural para o Brasil após nacionalizar suas reservas - Alan Marques - 15.fev.2007/Folhapress

Na ocasião, Lula, iniciando a campanha de reeleição, foi surpreendido pela decisão do presidente Evo Morales de cercar refinarias em seu país, incluindo duas da Petrobras. O objetivo era nacionalizar a produção e aumentar o preço cobrado pelo gás natural, que tinha no Brasil um dos maiores clientes.

Mas Evo era um aliado estratégico na onda bolivariana que estava instalada no continente, e o máximo a que o governo brasileiro se permitiu foi classificar a atitude de "inamistosa".

O Itamaraty na época disse respeitar a soberania do ato hostil do vizinho, e o próprio Lula passou a repetir uma frase feita sempre que questionado sobre o motivo de o Brasil se comportar de forma tão passiva.

"Se não briguei nem com o Bush [George W. Bush, então presidente dos EUA], como é que vou brigar com o Evo?", dizia.

Um ano depois, negociando de uma posição de força, a Bolívia conseguiu impor um aumento substancial à tarifa cobrada do Brasil pelo produto.

Lula tinha consciência de que Evo agia movido pela política interna, assim como Bolsonaro sabe que o recuo no acordo sobre a hidrelétrica de Itaipu foi importante para a preservação de seu aliado, Mario Abdo Benítez.

Conveniências regionais e proximidade ideológica, nos dois casos, falaram mais alto. Isso se manifesta também em outra característica comum a Bolsonaro e Lula, o cultivo de "ditadores de estimação". A defesa dos valores universais de democracia e respeito aos direitos humanos acaba relegada aos inimigos.

No caso do petista, o aliado mais simbólico, obviamente, foi o venezuelano Hugo Chávez, mas havia outros, na África e no Oriente Médio, para não falar do amor antigo que é a ditadura cubana.

Bolsonaro inclina-se por autocratas no leste europeu e nas Filipinas. Num recente documento interno do Itamaraty enviado à missão do Brasil em Genebra, a situação filipina é descrita como diferente das de Venezuela e Nicarágua, não por acaso dois regimes ditatoriais de esquerda.

Isso apesar da ocorrência quase diária de massacres cometidos por forças de segurança no âmbito de uma guerra às drogas e do cerco crescente à imprensa.

Seria curioso imaginar como um governo do PT compararia as situações. Provavelmente, o sinal seria invertido, com uma crítica dura ao governo filipino e a relativização das ditaduras amigas da América Latina.

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