Descrição de chapéu Venezuela

Saída de Maduro de negociações mostra que está encurralado, diz opositor exilado

Julio Borges, que liderou tratativas anteriores, afirma que ditador está fragilizado

Sylvia Colombo
Buenos Aires

Para o líder opositor Julio Borges, autoexilado em Bogotá, a reação de Maduro ao deixar a mesa de negociação em Barbados demonstra fragilidade e deixa claro que ele está encurralado.

Borges, 49, foi líder da Assembleia Nacional, de maioria opositora, até ser pressionado pelo regime venezuelano a deixar o país, refugiando-se na Colômbia. 

Maduro o acusa de ser um dos mentores do suposto atentado contra o ditador no episódio do ataque dos drones, em 4 de agosto de 2018.

"Maduro sabe que, num processo de diálogo cujo objetivo é buscar uma solução política, não importa que decisão ele tome, não tem como ganhar", afirma. 

Líder opositor venezuelano Julio Borges em reunião em Lima para discutir crise política em seu país
Líder opositor venezuelano Julio Borges em reunião em Lima para discutir crise política em seu país - Guadalupe Pardo - 6.ago.19/Reuters

"Se aceita ir a eleições, perderá. Caso deixe a mesa [de negociação] em Barbados, como acaba de fazer, perde ainda mais, porque fecha uma porta importante e demonstra ao mundo que não quer uma saída por meio do diálogo."

Referência importante dentro da oposição, Borges fundou com Henrique Capriles o partido Primeiro Justiça. E, com Leopoldo López (Vontade Popular), ajudou a montar o plano para que Juan Guaidó se elegesse líder do parlamento, em janeiro, e, a partir daí, afirmar que o cargo de presidente vago, o que abriu caminho para que se declarasse presidente interino do país.

Borges avalia que, desde então, a oposição conseguiu muitas vitórias. Destaca o aumento do apoio internacional e da pressão sobre Maduro, além das dissidências na base do ditador. 

Destaca ainda que violações de direitos humanos, que, segundo ele, antes eram apenas ditas, agora estão numa denúncia formal por meio do relatório da ONU e na Corte Internacional de Haia.

Borges liderou as negociações nas tratativas realizadas na República Dominicana, com mediação do Vaticano e do ex-premiê espanhol José Luis Zapatero. Para o opositor, o problema, tanto naquela tentativa como agora, em Barbados, é o mesmo. 

"O problema é sempre Maduro. Porque ele não cede no ponto em que nós não queremos ceder, que são as eleições livres e diretas. Então não há como chegar a um acordo conversando", diz.

"Isso não mudou, por isso víamos com cautela a tentativa de Barbados, porque temos a experiência de diálogos anteriores que fracassaram, por causa de Maduro."

Borges vê o processo de saída do ditador do poder como irreversível, porque "o apoio de Rússia e China não é ideológico como o de Cuba".

"É um apoio pelo lado comercial, e também é um apoio circunstancial. Creio que na última reunião do Grupo de Lima [na última terça-feira, 6, no Peru] foi possível enviar uma mensagem forte a esses dois países."

John Bolton, assessor de segurança nacional dos EUA, esteve na reunião em Lima. Além de comentar as novas sanções do governo norte-americano à ditadura venezuelana, também reforçou o pedido para que outros países deixem de fazer comércio ou investimentos que possam ajudar o regime a se manter no poder.

Questionado se não haveria um cansaço dos venezuelanos em seguir saindo às ruas para protestar num cenário em que a o desânimo esvazia protestos, Borges disse que "o grande protagonista, o mais heróico, nesses 20 anos de luta, é o venezuelano". 

"É fato que há altos e baixos na participação nas manifestações, mas é que estão lutando por suas vidas, por seu sustento. Há ocasiões em que estão dispostos a passar três meses nas ruas, como em 2017, mas há ocasiões em que a crise os obriga a focar suas necessidades imediatas. E há momentos de desânimo quando não se atinge rápido um objetivo. Mas nosso apoio têm aumentado claramente."

Nos últimos encontros com outros líderes e representantes de países da região, Borges disse que há grande preocupação com o aumento de refugiados e em como responder a essa crise humanitária. 

Outro tema que vem se tornando cada vez mais frequente é o da fronteira, "onde Maduro está armando sua última resistência, com o apoio de guerrilhas colombianas, como o ELN (Exército de Libertação Nacional) e os dissidentes das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), além de grupos criminosos em geral".

Borges afirma que a presença da milícia libanesa Hizbullah e de outros grupos extremistas islâmicos na América Latina, alardeada pelo secretário de Estado americano, Mike Pompeo, é um fato. 

"Por razões de segurança, não se pode divulgar localizações nem nomes, mas eu mesmo já vi documentos e evidências de que estão na Venezuela e em outros países da região."

Sobre a hipótese de uma intervenção militar, diz que ninguém está colocando a opção em primeiro lugar, mas que "o pior que pode acontecer à Venezuela é que nada aconteça". 

Nesta semana, Guaidó declarou apoio à reeleição do presidente Mauricio Macri na Argentina. Borges disse que se trata de "armar uma franquia nossa, dos nossos aliados, como Maduro tem a dele, financiando regimes como os de Honduras e Guatemala, unindo-se a Evo Morales [Bolívia] e Cuba".

Para o opositor, essas alianças permitiram a Maduro se manter no poder. "Os negócios de Lula com Chávez e Maduro deram impulso e dinheiro para que a ditadura continuasse. Por isso demonstramos apoio a quem nos apoia agora, como o presidente Mauricio Macri. Temos de nos defender."

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