Descrição de chapéu The New York Times

Senador Cory Booker ataca Biden e é destaque de debate democrata

Para especialistas, favoritos Biden e Kamala Harris tiveram atuação boa, mas não memorável

The New York Times

O primeiro debate da segunda rodada entre os pré-candidatos democratas à presidência dos Estados Unidos, na terça (30), foi dominado pelos favoritos, os senadores Bernie Sanders e Elizabeth Warren.

Mas os favoritos da quarta-feira (31), o ex-vice-presidente Joe Biden e a senadora Kamala Harris, da Califórnia, não conseguiram se equiparar à hegemonia dos dois primeiros.

O senador Cory Booker, destaque do segundo debate democrata
O senador Cory Booker, destaque do segundo debate democrata - Lucas Jackson/Reuters

O debate entre os democratas foi dividido em duas partes, devido ao excesso de pré-candidatos. Dos 25 nomes, foram convidados os 20 que arrecadaram mais doações e somam maior pontuação nas pesquisas. Dez deles compareceram a cada encontro.

No de quarta, nem Biden nem Harris se saíram mal. O ex-vice de Obama superou sua performance pouco notável no primeiro debate e a senadora se defendeu bem contra uma saraivada de ataques, provavelmente frutos de sua própria performance forte na vez passada.

Mas os especialistas parecem concordar que a atuação mais memorável da quarta-feira foi a do senador Cory Booker, de Nova Jersey, apesar de que tantos candidatos marcaram pelo menos alguns pontos que os estrategistas questionam se haverá grande mudança nas sondagens de opinião.

Candidatos democratas no debate de quarta à noite; da esq. para a dir, Michael Bennet, Kirsten Gillibrand, Julian Castro, Cory Booker, Joe Biden, Kamala Harris, Andrew Yang, Tulsi Gabbard, Jay Inslee e Bill de Blasio
Candidatos democratas no debate de quarta à noite; da esq. para a dir, Michael Bennet, Kirsten Gillibrand, Julian Castro, Cory Booker, Joe Biden, Kamala Harris, Andrew Yang, Tulsi Gabbard, Jay Inslee e Bill de Blasio - Brendan Smialowski / AFP

A seguir, uma amostra de reações nas redes sociais de algumas pessoas que conhecem melhor que ninguém o que envolvem os debates presidenciais: estrategistas de campanha veteranos e consultores de ambos os partidos.

Booker foi o grande destaque

Cory Booker atacou Biden fortemente na questão da justiça criminal, repisando o papel desempenhado pelo ex-vice na criação das políticas que ele (Booker) agora quer reverter. Biden, por sua vez, criticou a atuação de Booker como prefeito de Newark, em Nova Jersey. Mas o consenso entre os estrategistas foi que Booker emergiu por cima.

Eles também elogiaram o argumento apresentado por Booker no início do debate de que os candidatos deveriam focar menos em suas divergências intrapartidárias sobre saúde e mais em seu adversário real, o presidente Donald Trump.

“Biden contra-atacou Cory Booker em relação ao policiamento de Newark durante sua administração como prefeito. Mas Booker sacou sua arma mais rápido e saiu à frente em pontos de estilo” — David Axelrod, ex-assessor sênior do presidente Barack Obama

“Declaração final forte de Cory Booker. Ele possui o dom de entremear histórico familiar com seus valores. E seu agradecimento à cidade que sediou o debate (Detroit) não foi visto como bajulação”, — Laura Belin, comentarista política do Iowa

“Acho que está claro que Cory Booker teve o melhor desempenho da noite. Apresentou seus argumentos e o fez bem”, diz Jennifer Palmieri, ex-porta-voz da Hillary Clinton e de Obama

Biden superou as baixas expectativas

Ficou claro na quarta-feira que Joe Biden estava mais preparado e polido que no primeiro debate, quando levou uma sova de Kamala Harris. Biden chegou armado de pesquisas de oposição sobre Harris e Booker e, de modo geral, mostrou-se mais confiante que no último debate.

Seu desempenho foi desigual em alguns momentos —e vários comentaristas notaram que ele foi o único candidato que parou de falar abruptamente, às vezes no meio de uma sentença, quando os moderadores assinalaram que seu tempo terminara. Mas ele não teve dificuldade em superar seu desempenho fraco no debate passado.

“Ótima declaração de abertura de Joe Biden para começar. Elevou-se acima das divergências, enfocou Trump. Atitude correta para a eleição geral. Está funcionando.” — Adrienne Elrod, ex-assessora sênior de Hillary Clinton

“Joe Biden finalmente jogou a carta que deveria ter usado no debate passado, quando Kamala Harris o desafiou na questão racial. Barack Obama examinou seu histórico e o escolheu para ser vice-presidente.” — Axelrod

“Biden se alternando entre momentos fortes –muito melhores que em Miami— e tropeços desajeitados.” — Mike Murphy, consultor republicano

“O ataque de Castro contra Biden foi forte. Mas este é um Biden diferente daquele que vimos no primeiro debate. Em Miami, ele parecia pego de surpresa, despreparado. Hoje, não. Ele está recebendo os golpes e contra-atacando.” — Mo Elleithee, ex-porta-voz de Clinton e do Comitê Democrata Nacional

Kamala Harris ficou principalmente na defensiva

Harris dominou o primeiro debate do começo ao fim. Esse fato a elevou significativamente nas pesquisas de opinião, mas também fez com que na quarta-feira ela se tornasse alvo de ataques, tanto quanto Joe Biden. Onde antes ela estivera na ofensiva, agora ela se viu na defensiva.

Mesmo assim, apesar de não ter brilhado tanto quanto antes, ela defendeu sua posição.

“Kamala Harris está na defensiva a noite inteira. Uma diferença marcante em relação ao primeiro debate.”  — Patti Solis Doyle, assessora sênior da campanha de Obama em 2008

“Kamala Harris está sendo muito atacada e está reagindo bem. Não entendo o que estão vendo as pessoas que acham que ela está instável ou nervosa. Bizarro.” — Palmieri

“A declaração final de Kamala Harris é de arrepiar. Geralmente essas declarações são padronizadas. A dela é tão contundente. Trump como predador é algo que muitos democratas sentirão que é uma verdade profunda.” — Paul Begala, ex-assessor de Bill Clinton

Gillibrand dividiu os comentaristas

A senadora Kirsten Gillibrand, de Nova York, pode ter tido a fala mais memorável da noite, se não a mais substantiva: “A primeira coisa que vou fazer quando eu for presidente será passar água sanitária em todo o Salão Oval”. Ela também incluiu os tópicos da desigualdade de gênero e da violência sexual em um debate que até então se esquivara deles.

Mas em relação ao que ela evidentemente esperava que fosse um momento definidor —uma crítica a Biden por ele ter se oposto à expansão do crédito para creches em 1981—, as reações foram ambíguas. Alguns estrategistas adoraram. Dentro do teatro, contudo, os aplausos deixaram pouca margem para dúvidas de que a plateia estava do lado de Biden nessa questão.

“Argumento forte da senadora Gillibrand sobre como ela encara uma desvantagem insuperável, com um bom misto de suas próprias realizações e como ela enfrentará Trump.” — Christina Reynolds, porta-voz da EMILY’s List

“Acho que a senadora Gillibrand está tendo uma noite boa. Melhor do que eu previa: não mordendo a isca para atacar, reiterando sua mensagem, elevando as mulheres nas discussões de políticas públicas de saúde e imigração.” — Emily Farris, cientista política da Texas Christian University

“Uau. Joe Biden critica Gillibrand por acusá-lo de ser contra mulheres que trabalham fora de casa. Podemos criticar Biden por muitas coisas, mas esse ataque cheira a politicagem tosca, e Joe a desmascarou como tal. A plateia aplaude.” — Begala

“Essa troca de farpas entre Gillibrand e Joe Biden a respeito das palavras dele no passado sobre mulheres que trabalham fora de casa mostra como questões de gênero serão um ponto fraco. Isso pode ser apenas um arranhão na superfície para Biden, como poderemos ver nos próximos meses se ele mantiver a liderança.” — Christian Grose, cientista político na University of Southern California

Gabbard, Inslee e Yang marcaram alguns pontos

Embora não tenham liderado o debate, vários candidatos menos pontuados conseguiram se destacar ao menos uma vez. A deputada Tulsi Gabbard, do Havaí, em especial, criticou o histórico de Harris como promotora de uma maneira que outros candidatos optaram por não fazer ou não conseguiram. Andrew Yang e o governador de Washington, Jay Inslee, também tiveram seus momentos.

“Tulsi Gabbard mencionou todos os pontos contra Kamala Harris para os quais comentaristas na internet vêm chamando a atenção há vários meses. Se Joe Biden conseguisse derrubar um adversário tão bem quanto Tulsi Gabbard acaba de fazer, ele já seria o candidato nomeado.” — Frank Luntz, pesquisador e consultor republicano

“Então Gabbard é a pessoa que finalmente teve a coragem real de atacar Kamala por seu histórico na justiça criminal. Foi FEROZ. Eu estava esperando por isso. Kamala está se baseando em seu histórico, e ela é MAIS FEROZ. Só estou dizendo. Discussão contundente.” — Aisha Moodie-Mills, estrategista democrata

“Yang está se saindo muito bem no debate. Não é apenas que ele está mais à vontade, mas que soa diferente de outros candidatos sem soar maluco. É o papel de Williamson, mas desempenhado por um obcecado em IA analítica.” — Ezra Klein, editor da Vox

“Também acho que Jay Inslee se saiu muito bem. Não chamativo, mas sincero. E forte na questão da mudança climática.” — Axelrod

Resumindo

“Conclusões: Biden melhorou dramaticamente; Kamala e Booker tiveram desempenho forte. Gillibrand e Bennett tiveram alguns momentos memoráveis, mas isso fará diferença? Meu palpite é que no máximo cinco pessoas que participaram hoje vão chegar ao terceiro debate. Foi estranho, mas a noite de terça pareceu mais cheia de energia.” — Elrod

“Não vou fingir que sei quais candidatos ganharão mais pontos nem o tamanho da melhora que terão. Direi que não aconteceu o suficiente neste debate para mudar a situação dramaticamente. Biden foi atacado durante duas horas, mas reforçou sua posição de favorito.” — Larry Sabato, diretor do Centro de Política da Universidade da Virginia

Tradução de Clara Allain 

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