Status de aliado militar dos EUA favorece indústria, diz Brasil

Anúncio de Trump é celebrado como mudança de patamar estratégico para o país

São Paulo

A concessão do status de aliado prioritário dos Estados Unidos fora do âmbito da Otan, a aliança militar liderada desde 1949 por Washington, foi recebida pelo governo brasileiro como uma oportunidade de mudar seu patamar estratégico e de fortalecer a indústria de defesa local.

 

O governo do presidente Donald Trump anunciou na noite de quarta (31) a entrada do Brasil num clube que tem 17 países, alguns parceiros estratégicos importantes como a Austrália e outros inócuos, como a Argentina —até aqui a única latino-americana do grupo.

O Ministério da Defesa e o Itamaraty divulgaram uma nota conjunta em que comemoram o acesso a "maiores oportunidades de intercâmbio e assistência militar, compra de material de defesa, treinamentos conjuntos e participação em projetos".

Trump e Bolsonaro se cumprimentam durante encontro bilateral na cúpula do G20 em Osaka (Japão), em junho
Trump e Bolsonaro se cumprimentam em encontro na cúpula do G20 em Osaka (Japão), em junho - Brendan Smialowski - 28.jun.2019/AFP

Nada disso é exatamente automático. Como o caso de Buenos Aires mostra, a "relação carnal" que era celebrada pelo governo argentino em 1997 não logrou modernizar as Forças Armadas do país, que de resto definharam com o governo no começo dos anos 2000.

Mas acertam as pastas ao dizer que "a base industrial de defesa brasileira poderá ser beneficiada pelo status ao integrar-se de forma mais competitiva nas cadeias globais de valor de alta tecnologia do setor".

"Poderão ser discutidas opções de maior acesso ao mercado norte-americano e a financiamentos para produtos de defesa exportados pelo Brasil, além da participação em licitações e empreendimentos conjuntos", diz o texto.

Aqui está a grande oportunidade colocada pelo largamente simbólico status. O Brasil tem alguns poucos produtos militares de ponta no mercado, como o avião de transporte multimissão KC-390 e o caça leve Super Tucano, e há a possibilidade de abertura do maior mercado militar do mundo a eles.

Essa integração já tem um pé estabelecido no acordo em que a Boeing americana comprou o controle da área de aviação comercial da Embraer, fabricante das aeronaves. Elas seguirão sendo feitas pela empresa brasileira remanescente, e no caso do KC-390 foi formada uma joint-venture comandada pela Embraer para vender o produto.

No caminho inverso, há a possibilidade de captação de produtos de alta tecnologia para programas estratégicos desenvolvidos no Brasil.

Aqui, o velho temor dos militares brasileiros segue, ainda que reduzido pelo novo status: que eventuais produtos acabem sujeitos a embargos determinados pelo Congresso americano, que nem de longe é automaticamente alinhado ao Executivo da ocasião.

O mercado de defesa e segurança brasileiro movimentou, no único estudo disponível feito a pedido da associação do setor em 2014, 4% do PIB do país e emprega 60 mil pessoas. Já o orçamento militar é engessado: dos R$ 102 bilhões gastos em 2018, só 11,5% foram destinados a investimentos, fatia que deve cair ainda mais devido aos contingenciamentos deste ano.

Politicamente, é uma vitória para Jair Bolsonaro (PSL), que assumiu a Presidência prometendo alinhamento total a Trump, seu ídolo ideológico. O mandatário já se encontrou duas vezes com o americano e indicou o filho, o deputado federal Eduardo (PSL-SP), para ser o novo embaixador brasileiro em Washington.

A escolha foi muito criticada pelo aspecto de nepotismo e inexperiência do deputado de 35 anos, mas Trump a elogiou ao ser questionado sobre o tema. Eduardo ainda precisa ter a indicação avaliada pelo Senado brasileiro. 

Em uma postagem na internet, ele disse nesta quinta (1º) que futuramente o Brasil poderia até entrar na Otan, como Trump havia insinuado num encontro com Bolsonaro. Isso é bem mais complicado, pois ensejaria uma mudança no Tratado do Atlântico, que instituiu a aliança, aprovada pelos seus 29 membros.

No seu artigo 10, o tratado especifica que apenas países europeus podem ser convidados a integrar o grupo, criado para conter a expansão militar da então União Soviética. Como Trump vem tratando os membros da Otan a pontapés desde que assumiu em 2017, cobrando maior investimento financeiro nas operações militares, é improvável que uma eventual iniciativa nesse sentido prospere.

É possível, contudo, que o Brasil se una à aliança como um "parceiro global", status que implica colaboração militar inclusive em combate. Na América Latina, apenas a pró-americana Colômbia tem tal designação.

 
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