Teorias sobre explosão nuclear russa sugerem corrida armamentista desenfreada

Especialistas especulam que acidente pode estar relacionado a nova geração de armas

Bloomberg

Entre os mistérios que cercam a explosão em uma instalação militar russa que matou pelo menos cinco pesquisadores e causou um breve pico de radiação, uma coisa é clara: a nova corrida armamentista está a toda velocidade.

A explosão em 8 de agosto num centro de testes remoto no Mar Branco (costa noroeste da Rússia) permaneceu um segredo bem guardado pelos militares.

As estações russas de monitoramento de radiação repentinamente deixaram de enviar dados para as agências internacionais nos dias que se seguiram.

O presidente russo, Vladimir Putin, diria apenas que o acidente envolveu "trabalho em sistemas de armas promissores" que a Rússia está desenvolvendo em resposta ao "que nossos parceiros, incluindo os americanos, estão testando".

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi mais próximo em um tuíte sobre o acidente, dizendo que envolvia um novo míssil de cruzeiro nuclear conhecido no Ocidente como "Skyfall", mas acrescentando que a versão americana é melhor.

O porta-voz de Putin insistiu que o da Rússia é superior.

O presidente russo, Vladimir Putin, e o presidente dos EUA, Donald Trump, se encaram durante a cúpula do G20, em Osaka
O presidente russo, Vladimir Putin, e o presidente dos EUA, Donald Trump, durante a cúpula do G20, em Osaka - Mikhail Klimentye/AFP - 28 jun. 2019

Os americanos testaram uma nova arma no início desta semana, um míssil de cruzeiro que estava proibido sob o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário de 1987 até que o governo Trump se retirou do pacto, em 2 de agosto.

Cada lado culpa o outro pelo colapso do acordo histórico acertado durante a Guerra Fria, o primeiro a eliminar toda uma classe de armas.

Na sexta-feira (23), dizendo que queria evitar uma "corrida armamentista cara, que seria destrutiva para a nossa economia", Putin ordenou que as principais autoridades apresentassem uma "resposta simétrica" ao teste mais recente dos EUA. Ele não deu mais detalhes.

No ano passado, Putin anunciou uma série de novos sistemas de mísseis que a Rússia está desenvolvendo em resposta à saída de Washington em 2002 do Tratado de Mísseis Antibalísticos, outra pedra angular do controle de armas da Guerra Fria.

"Não há necessidade militar de a Rússia desenvolver essas armas, pois ela já tem poder de fogo suficiente para sobrepujar e destruir as defesas dos EUA, e o mesmo vale para as capacidades americanas", disse Daryl Kimball, diretor-executivo da Associação de Controle de Armas, em Washington.

"A Guerra Fria faz 30 anos, e essa geração de líderes esqueceu o fato de que não há vencedores em uma corrida armamentista nuclear."

Dada a falta de detalhes sobre o acidente no Mar Branco, na região norte de Arkhangelsk, especialistas especularam que o acidente pode estar relacionado a uma nova geração de armas que a Rússia está desenvolvendo à medida que a infraestrutura de controle de armas da Guerra Fria desmorona.

Rosatom, o monopólio nuclear russo que perdeu cinco especialistas no acidente, forneceu uma pista sobre o que o experimento envolvia.

A instituição afirmou que a explosão ocorreu em uma plataforma no mar durante um teste de "fontes de energia isotópicas" em um "sistema de propulsão líquida".

Alguns analistas sugeriram que os militares estavam testando um dispositivo conhecido como "Bateria de Putin", uma fonte de energia nuclear que depende de decomposição radioativa, e não uma reação em cadeia, para ajudar a manter os mísseis no ar por mais tempo.

O míssil Skyfall, por outro lado, usa um pequeno reator nuclear para efetuar um voo quase ilimitado, segundo Putin.

Abaixo estão algumas das novas armas em que a Rússia está trabalhando e que podem ter sido testadas no acidente.

Burevestnik / SSC-X-9 Skyfall

O tuíte de Trump popularizou a especulação de que os militares estavam testando um míssil de cruzeiro movido por um reator nuclear para permitir que ele permanecesse no ar por mais tempo.

Jeffrey Lewis, diretor do Programa de Não Proliferação do Leste Asiático, do Instituto Middlebury, na Califórnia, disse que as fotos de satélite das instalações no Mar Branco tinham desenho semelhante ao de um local que teria sido usado em testes anteriores do SSC-X-9.

Poseidon / Status 6 / Kanyon

O Poseidon é um drone de torpedo não tripulado, movido a energia nuclear, anunciado por Putin no ano passado.

Alguns especialistas descartaram este e o SSC-X-9 como concorrentes, porque acredita-se que eles dependem de um reator, e não de uma fonte de energia que se alimenta de isótopos radioativos, como a "Bateria de Putin", que se encaixaria melhor na declaração da Rosatom.

No entanto, o analista militar Alexander Golts diz que a Rússia pode ter desenvolvido uma fonte de energia isotópica poderosa o suficiente para impulsionar o Kanyon.

Skif / SS-N-23

Esse míssil balístico é disparado do fundo do oceano para dificultar a detecção. O jornal Novaya Gazeta especula que o SS-N-23, altamente secreto, é um candidato provável porque usa um tipo de sistema de propulsão líquida semelhante ao que aparentemente explodiu.

Testar esse míssil pode ser uma violação de um tratado de 1972 que proíbe armas nucleares no fundo do mar.

Tsirkon / SS-N-33

Esse é um míssil de cruzeiro antinavio em desenvolvimento, que Putin afirmou em fevereiro que poderá atingir velocidades de até Mach 9.

Michael Kofman, membro do Wilson Center em Washington, disse que esse míssil usa um motor de alta potência com combustível líquido e está sendo desenvolvido ativamente para a Marinha, o que o torna um candidato ao teste de 8 de agosto.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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