Descrição de chapéu The Washington Post Brexit

Três maneiras pelas quais Boris Johnson pode se tornar o premiê britânico mais breve da história

Negociação do brexit pode causar problemas sérios para primeiro-ministro

Karla Adam
Londres | The Washington Post

O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, está no cargo há menos de um mês, e as classes tagarelas do país já estão falando sobre sua demissão.

Johnson prometeu tirar o Reino Unido da União Europeia, o chamado brexit, com ou sem um acordo, em seus primeiros cem dias.

 

Mas poderá ele permanecer no número 10 da Downing Street mais de 119 dias —o mandato do primeiro-ministro mais breve do Reino Unido, George Canning, que serviu de abril a agosto de 1827?

Talvez. Theresa May sobreviveu no cargo por dois anos depois que sua primeira rodada de obituários políticos foi escrita.

Aqui estão três cenários sendo discutidos sobre como Johnson poderá sair.

O premiê britânico Boris Johnson durante evento em Londres - Daniel Leal-Olivas - 12.ago.2019/Reuters

Johnson perder um voto de desconfiança e renunciar

O líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, disse que pedirá um voto de desconfiança contra Johnson para impedir um abrupto brexit sem acordo —para o qual Johnson disse que o Reino Unido deve se preparar e que para os economistas poderá causar turbulências nos dois lados do canal da Mancha.

Corbyn poderia convocar uma votação já na semana de 3 de setembro, quando os membros do Parlamento retornam do recesso de verão. Ele disse que introduziria a moção em um "período muito inicial" e "no momento em que pudermos vencê-la".

Quão realista é uma derrota de Johnson? Bem, ele tem maioria no Parlamento de apenas um assento, e alguns legisladores de seu Partido Conservador indicaram que considerariam a opção nuclear de votar contra seu próprio governo se fosse necessário para evitar um brexit sem acordo.

Mas também há legisladores independentes e políticos apoiadores do brexit no Partido Trabalhista que poderiam apoiar o primeiro-ministro em um voto de desconfiança.

Para deixar o hipotético se realizar: se Johnson perdesse, os legisladores teriam 14 dias para formar um governo alternativo que poderia comandar uma maioria na Câmara dos Comuns. John McDonnell, do Partido Trabalhista, sugeriu que Corbyn "pegasse um táxi até o Palácio de Buckingham para dizer: 'Estamos assumindo o controle'".

Talvez ele não quisesse dizer isso literalmente, mas Corbyn com certeza tentaria ganhar o apoio da maioria dos legisladores.

Não está claro se Corbyn —ou qualquer outra pessoa— conseguiria reunir uma maioria. Mas se o fizesse Johnson ficaria sob extrema pressão para renunciar.

Johnson poderia perder uma eleição

A próxima eleição geral no Reino Unido está marcada para 2022, mas existem algumas maneiras que podem levar a uma muito antes.

Se Johnson perdesse um voto de confiança e se nenhum outro governo viável surgisse naquela janela de duas semanas, o Parlamento seria dissolvido e uma eleição seria realizada 25 dias úteis depois.

Alternativamente, Johnson pode querer convocar uma eleição por vontade própria —seja para fortalecer seu mandato para implementar o brexit (se o Parlamento de alguma forma conseguir bloqueá-lo) ou para capitalizar qualquer repercussão depois de ter feito o brexit acontecer.

De qualquer forma, ele sem dúvida gostaria de melhorar essa maioria de um assento.

Johnson descartou uma eleição antes do prazo final do brexit, 31 de outubro. Alguns de seus aliados informaram que ele poderia marcar uma data para o início de novembro.

Michael Gove, que está encarregado do planejamento do Brexit sem acordo, ficou preocupado com a sugestão dele de que 1º de novembro seja declarado feriado bancário, para limitar o pânico do mercado após a falta de acordo.

Poderia ser uma data que eles visariam para uma eleição? Teria a vantagem de ocorrer antes de os eleitores sentirem os efeitos desestabilizadores de sair da UE sem um acordo para administrar a retirada.

Corbyn reagiu, indicando a convenção de que os governos não tomam grandes decisões políticas durante uma campanha para eleição geral. Mas Johnson não é o político mais convencional.

Então, como Johnson e seus conservadores poderiam se sair em uma eleição? Lembre-se de que Johnson ainda tem de enfrentar o eleitorado britânico —ele foi escolhido por um pequeno contingente de membros pagantes do Partido Conservador, cujo perfil predominante é de homens brancos e mais velhos.

Os conservadores foram trucidados nas eleições na primavera para o Parlamento Europeu e em disputas locais. Mas a última pesquisa do YouGov indica que o apoio ao partido aumentou desde que Johnson se tornou primeiro-ministro.

Questionados sobre intenções de voto hipotéticas, 31% disseram Conservador, 22%, Trabalhista, 21%, Liberal-Democrata, e 14%, Partido Brexit.

Se Johnson pudesse vender a ideia de que o Parlamento estava frustrando seus esforços para entregar o brexit no qual o povo votou, ele poderia conseguir ainda mais apoio, reconquistando os desertores do Partido Brexit de Nigel Farage.

Mas se ele perseguisse um brexit sem acordo e houvesse o caos, ele poderia ver seu apoio evaporar.

Nesse caso, os eleitores pró-UE —que estão espalhados por vários partidos— poderiam se unir em oposição a ele.

Johnson​ perder um voto de desconfiança, recusar-se a renunciar e ser demitido pela rainha

Imagina-se que a rainha Elizabeth 2ª não gostaria de tocar no ninho de vespas que é o brexit nem com uma vara de 3 metros. A monarca britânica é notoriamente neutra quando se trata de todas as coisas políticas.

Até quando se refere obliquamente ao relacionamento do Reino Unido com a União Europeia ela o faz de maneira régia e benevolente.

Mas há especulações de que a monarca de 93 anos possa ser sugada.

Johnson se recusou repetidamente a dizer o que faria se perdesse um voto de desconfiança. Se Corbyn ou outra pessoa formasse um governo alternativo viável, e se Johnson ainda se recusasse a ceder, alguns diriam que a rainha poderia efetivamente demitir o premiê.

A rainha "não é um adendo decorativo", disse o conservador Dominic Grieve, ex-ministro da Justiça, ao Times de Londres.

"É verdade que ela procurou se manter bem longe dos solavancos da política, mas no final das contas há poderes residuais e responsabilidades que cabem a ela. Ela poderia ter que dispensar seus serviços sozinha."

David Howarth, professor de direito e política pública na Universidade de Cambridge, disse à LBC Radio que a rainha poderia, em teoria, demitir Johnson, mas que, mais provavelmente, Johnson seria solicitado a se afastar para não "constrangê-la".

Tony Travers, professor de governança na London School of Economics, também está entre os céticos.

"Acho difícil acreditar que a rainha, como indivíduo, gostaria de tomar uma decisão que mudasse o governo do país", disse ele.

Quando foi a última vez que um monarca interferiu na escolha de um primeiro-ministro? Em 1834, quando o rei Guilherme 4º demitiu William Lamb. Seis meses depois, Lamb foi renomeado primeiro-ministro e se tornou um dos conselheiros mais próximos da rainha Vitória.

É improvável que a rainha Elizabeth 2ª esteja perdendo o sono por causa disso.

Ela está oficialmente em férias no Castelo de Balmoral, na Escócia. Mas observadores da realeza dizem que ela está a par das notícias, que no fim de semana passado incluíam esta manchete na primeira página do Daily Telegraph: "Palácio de Buckingham e Downing Street planejam manter a rainha fora da iminente crise constitucional sobre o brexit".

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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