Trump levanta questionamentos éticos ao sugerir seu resort como sede do próximo G7

Realização da cúpula em complexo de luxo traria ganhos financeiros pessoais para o americano

Michael D. Shear Peter Baker
Doral (Flórida) | The New York Times

Os presidentes geralmente usam as cúpulas internacionais para promover sua agenda política no palco mundial.

Mas o presidente Donald Trump converteu uma aparição pública no sul da França na segunda-feira (26) em algo que mais pareceu um informercial sobre seu resort e clube de golfe no sul da Flórida, que não vem tendo bons resultados.

Ao sugerir que a próxima cúpula de líderes mundiais do G7 aconteça em seu próprio resort de luxo em Doral, Flórida, a oeste de Miami, Trump destacou da maneira mais gritante possível seu desrespeito pelos limites éticos que historicamente sempre restringiram as atividades que misturam a Presidência e negócios com fins lucrativos.

Entrada do Trump National Doral Miami Golf Club, na Flórida, resort onde o presidente americano quer sediar a cúpula do G7 em 2019 - Michele Eve Sandberg/AFP

E não se trata de qualquer negócio pessoal: o Trump National Doral Miami Golf Club é a maior propriedade lucrativa da família Trump.

Ela vem dando sinais de dificuldades financeiras desde que Trump iniciou sua campanha para presidente, em 2015.

Trump disse que seu resort, “um lugar fantástico”, tem condições que o tornam singularmente bem equipado para sediar um encontro do G7 em 2020.

O resort tem uma área tremenda, muitas centenas de acres, de modo que poderemos dar conta de qualquer coisa que venha a acontecer”, Trump se gabou em Biarritz, na França.

“As pessoas realmente gostam de lá, e além disso o resort tem prédios com 50 a 70 unidades, de modo que cada delegação pode ficar em um prédio.”

“Ainda não encontramos nada que chegue sequer perto de competir com Doral”, disse a jornalistas no início de um encontro bilateral com a chanceler alemã, Angela Merkel.

Mas David J. Sangree, consultor de hotéis em Ohio, ironizou a ideia de que o resort de Trump possua qualidades especiais que o distinguem dos muitos outros espaços possíveis nos EUA que poderiam sediar uma cúpula global.

“O Doral é um lugar que provavelmente comportaria uma cúpula”, comentou depois de examinar uma lista de 37 páginas de hotéis nos EUA que também recebem a classificação de quatro diamantes da AAA.

“Mas há uma centena de lugares nos EUA que comportariam um evento desse tipo.”

Diferentemente dos locais geralmente escolhidos para essa finalidade, que costumam ser mais isolados, seria difícil garantir a segurança do resort: sua entrada, ladeada por palmeiras, fica perto de um dos cruzamentos mais movimentados de Doral.

No ano passado um homem armado abriu fogo contra policiais no saguão do hotel. Desde que se tornou presidente, Trump só esteve na propriedade uma vez, para um evento de levantamento de fundos promovido pelo Comitê Nacional Republicano em junho.

O prefeito de Doral, Juan Carlos Bermudez, disse que o Serviço Secreto informou o departamento de polícia da cidade dois meses atrás que o resort é um de uma dúzia de potenciais sedes da cúpula.

“Ter um evento dessa magnitude ocorrendo aqui nos proporciona ótima exposição”, disse Bermudez. “Mas será um trabalho logístico enorme.”

Críticos argumentam que a cúpula, que atrai atenção internacional, milhares de funcionários governamentais e representantes da mídia internacional, representará um ganho financeiro enorme para a propriedade de Trump, garantindo um aumento imediato de receita e elevando o perfil do resort em todo o mundo.

O resultado, para eles, infringiria um limite que presidentes anteriores evitaram desrespeitar.

“Basicamente, Trump estaria obrigando governos estrangeiros a gastar dinheiro em seu resort pessoal, e, ao mesmo tempo, promovendo o resort mundialmente”, explicou Deepak Gupta, advogado especializado em ética e experiente em casos desse tipo.

“Isso contradiz o texto e o espírito da Constituição”, disse. “O modo como Trump utiliza seu cargo oficial para seu ganho pessoal é tão flagrante e frequente que acho que nunca antes vimos nada semelhante por parte de um presidente dos Estados Unidos.”

Desde que se tornou presidente, Trump vem em grande medida ignorando críticas desse tipo. Como presidente eleito, ele prometeu que se afastaria da gestão de seus negócios, mas mais tarde colocou seus filhos no controle deles.

Trump prometeu não fechar novos negócios, mas não colocou seus negócios em um fundo fiduciário dito “cego” (em que os beneficiários não têm conhecimento dos investimentos feitos).

O relatório de bens que Trump tem a obrigação de registrar junto ao governo citou o resort de Doral como a joia da coroa da Organização Trump, constantemente garantindo uma receita anual de mais de US$ 50 milhões. Trump não é obrigado a divulgar os lucros ou prejuízos de seus negócios.

Documentos mais detalhados traçam um quadro menos positivo. Como foi divulgado pelo Washington Post em maio, os documentos foram apresentados ao condado de Miami-Dade como parte de um apelo judicial para reduzir o imposto territorial pago pelo resort.

Os documentos mostram que a receita operacional líquida do resort —o que resta após a dedução dos custos— caiu quase 69% em dois anos.

A receita operacional líquida foi de US$ 13,8 milhões em 2015, US$ 12,4 milhões em 2016 e US$ 4,3 milhões em 2017, o ano em que Trump tomou posse como presidente e o último ano para o qual existem cifras disponíveis.

Os documentos —que são públicos e foram examinados pelo New York Times— também mostram que o movimento do resort foi mais fraco em todas as áreas em 2017.

A receita de diárias no hotel caiu cerca de 9% de um ano a outro. O dinheiro que o resort gera com golfe caiu quase 8%, e a receita gerada com comida e bebida teve uma queda de 23%.

O resort enfrenta dificuldades desde 2012, quando Trump o comprou por supostos US$ 150 milhões devido à falência dos antigos proprietários. Em 2014 o resort sofreu prejuízo de US$ 2,4 milhões.

Em 2016, pouco depois de ser concluída uma renovação do resort no valor de US$ 250 milhões, a PGA Tour anunciou que enquanto Trump era candidato a presidente, ela ia transferir para a Cidade do México o torneio internacional de golfe promovido no resort, que havia mais de cinco décadas atraía atenção internacional para Doral.

A Organização Trump contestou sugestões de que o clube de golfe venha sofrendo dificuldades, admitindo apenas uma queda local na demanda após um surto de zika em 2016 e a passaram do furacão Irma em 2017.

“Doral está indo muito bem e teve seu melhor ano em 2018”, disse a Organização Trump em comunicado em maio, no qual explicou a performance de seus bens imobiliários no ano passado.

O resort se beneficiou da presença de Trump na Presidência, pelo menos de algumas maneiras.

Documentos revelam que o clube de golfe recebeu pelo menos US$ 1,4 milhão em pagamentos de grupos políticos republicanos, sendo o terceiro local mais frequentado por agentes políticos.

Os dois outros são o resort de Mar-a-Lago, de Trump, em Palm Beach, e o Trump International Hotel, em Washington, segundo análise da organização Cidadãos em defesa da Responsabilidade e Ética em Washington.

O presidente americano, Donald Trump, caminha ao lado do dirigente da China, Xi Jinping, em seu resort Mar-a-Lago, localizado em Palm Beach, na Flórida
O presidente americano, Donald Trump, caminha ao lado do dirigente da China, Xi Jinping, em seu resort Mar-a-Lago, localizado em Palm Beach, na Flórida - Doug Mills - 7.abr.17/The New York Times

Desde que chegou ao poder, o presidente em várias ocasiões já misturou seus deveres oficiais com propriedades que lhe pertencem. Trump recebeu o dirigente chinês, Xi Jinping, para uma cúpula em 2017 em Mar-a-Lago.

Ele fez escalas em suas viagens presidenciais em seu clube de golfe na Irlanda. E ele frequentemente faz negócios ou assiste a eventos em outras propriedades suas, incluindo o hotel Trump em Washington e seu clube em Bedminster, Nova Jersey.

Muitos presidentes passados já receberam líderes mundiais em suas residências particulares.

Mas, segundo Walter Schaub, ex-diretor do Escritório de Ética do Governo, a diferença é que essas residências não eram negócios com fins lucrativos que geram receita que beneficia diretamente o presidente e sua família.

Em Biarritz, Trump não falou de possíveis preocupações éticas com a realização da cúpula em Doral. Em vez disso, falou da proximidade da propriedade com o Aeroporto Internacional de Miami, a cerca de 20 minutos de distância de carro.

“Você só precisará andar cinco minutos de carro”, disse Trump a Merkel.

Tradução de Clara Allain 

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