Um ano após eleição, caos econômico ameaça maior liberdade no Zimbábue

Ambiente político melhorou com Mnangagwa, mas apagões e inflação geram tensão na população

São Paulo

Um ano após a eleição de Emmerson Mnangagwa, 76, como presidente do Zimbábue, o clima político no país africano é um pouco menos sufocante do que durante a ditadura de seu antigo mentor, Robert Mugabe, que durou 37 anos.

Ativistas relatam alguma abertura para o diálogo, e jornalistas dizem que o controle feito pelo governo, se não sumiu, é feito de forma mais sutil.

O presidente do Zimbábue, Emmerson Mnangagwa, em encontro com sindicalistas em Harare - Philimon Bulawayo - 5.jun.19/Reuters


A situação econômica da ex-colônia britânica, por outro lado, continua calamitosa, com uma taxa oficial de inflação anual de 73%, mas que chega a 800% em estimativas extraoficiais. Faltam combustível nos postos, dinheiro nos bancos e comida nos supermercados. Apagões diários chegam a durar até 18 horas.

“Estamos vivendo um desastre econômico. Não há confiança em nossa moeda, o país não reúne as condições de sustentá-la”, afirma Tendai Biti, ex-ministro da Economia e atualmente deputado pelo partido de oposição MDC (Movimento Pela Mudança Democrática, na sigla em inglês).

Entre 2009 e 2013, Biti comandou a economia do Zimbábue durante um governo de coalizão entre Mugabe e oposicionistas, formado após pressão internacional devido à crise política e econômica no país.

Na época, a hiperinflação era ainda maior do que a atual, e o dólar zimbabuano chegou a ter cédulas que nominalmente valiam bilhões, mas não tinham poder real de compra. 

A solução foi a adoção do dólar americano como moeda corrente, o que num primeiro momento derrubou a hiperinflação, mas não eliminou a subida de preços, em razão da escassez de oferta de produtos.

O país, que já foi um celeiro da produção agrícola, hoje importa alimentos, e tem no tabaco sua única cultura relevante. Em junho, o dólar zimbabuano foi reintroduzido como moeda do país, levando a novos temores de perda de valor.

“Há uma dupla agressão do governo contra a população: a política e a econômica. Nossa situação só não é pior que a da Venezuela”, afirma Biti, que é vice-presidente do MDC.

A eleição de Mnangagwa (pronuncia-se “munangágua”) foi contestada pela oposição, mas confirmada por um Judiciário visto como leniente ao Executivo. Seu triunfo com 50,8% dos votos completou a transição iniciada com a derrubada de Mugabe por militares em novembro de 2017.

Mugabe, 95, hoje vive recluso em uma mansão na capital, Harare, e tem sido preservado pelo atual presidente, que ocupou diversos cargos durante o longo reinado do ex-ditador.

No Parlamento, a oposição, que tem 42% da Câmara e controla o Senado, consegue atuar e criticar o governo com certa liberdade. Segundo Biti, a prioridade nesse momento é aprovar reformas que estabeleçam maior independência das autoridades eleitorais.

Nas ruas, a situação é tensa. Em janeiro, a decisão do governo de aumentar o preço de combustíveis levou a uma série de manifestações.

Wisdom Mdzungairi, editor-chefe do News Day, maior jornal independente do país, diz que a instabilidade gerada pela situação econômica traz a maior ameaça hoje de endurecimento do governo. 

“A crise é algo que certamente poderá levar a uma rápida deterioração do cenário político”, afirma ele, cujo veículo tem 50 mil cópias impressas por dia e 18 milhões de acessos no site por mês.

Segundo Mdzungairi, medidas draconianas do regime anterior foram repelidas, e prisões de jornalistas praticamente cessaram. Mas ainda existe pressão sobre a mídia.

“Fui chamado diversas vezes ao Ministério da Informação para ouvir reclamações de altas autoridades. Sempre dizem que a imprensa e o governo têm de trabalhar juntos pelo bem do país”, afirma ele.

O governo procura propagar a visão de que há um novo clima no país, mais aberto e propenso ao diálogo.

Cita como exemplo a iniciativa do presidente de conversar com sobreviventes e famílias de vítimas de um dos episódios mais traumáticos da história do país, os massacres da etnia ndebele nos anos 1980, cometidos por forças de segurança do Zimbábue com a ajuda de militares da Coreia do Norte.

Na época da matança, que teria deixado até 30 mil mortos, Mnangagwa era responsável pelas forças de segurança.

Em artigo, o ministro da Informação, Nick Mangwana, disse que o presidente pretende unir um país intensamente polarizado e juntar todos os cidadãos num exercício de construção da nação.

“Ele [o presidente] tem dito que é suave como lã, e é esse temperamento que tem ajudado o país a seguir em frente”, afirmou o ministro.

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