Descrição de chapéu Brexit

Em sessão tumultuada, Parlamento britânico retoma as atividades

Boris Johnson pede moção de desconfiança contra seu próprio governo, mas oposição recusa a proposta

Londres e São Paulo | Reuters e AFP

Com duras críticas ao primeiro-ministro Boris Johnson e o habitual tumulto de suas sessões, o Parlamento britânico retomou suas atividades na manhã desta quarta (25) após a tentativa do premiê de suspender as atividades legislativas por cinco semanas ser derrubada pela Justiça. 

O ápice da confusão aconteceu quando Boris pediu à oposição que propusesse um voto de desconfiança contra seu governo, o que levaria a novas eleições, cenário em que o premiê acredita que conquistaria nova maioria, facilitando a aprovação de um brexit sem acordo.

O plano foi imediatamente negado pelo líder trabalhista, Jeremy Corbyn.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, discursa na Câmara dos Comuns, em Londres, na Inglaterra - Roger Harris - 3.set.2019/Reuters

O diálogo entre eles transformou o Parlamento em um estádio de futebol. Em certo momento, Boris fez um sinal com as mãos provocando os trabalhistas a gritarem mais alto. A resposta veio logo depois, em uníssono: “Renuncie! Renuncie!”, berraram.

Visivelmente irritado, o presidente da Casa, John Bercow, avisou que manteria a sessão aberta por toda a madrugada se a situação não se acalmasse. A ameaça deu certo, e os deputados diminuíram o tom das manifestações, permitindo que o premiê terminasse seu discurso.  

Na terça (24), em mais uma derrota para Boris, a Suprema Corte do país julgou como ilegal a suspensão do Parlamento e ordenou a retomada dos trabalhos "assim que possível".

A situação exasperou o procurador-geral britânico, Geoffrey Cox, aliado de Boris. "Este Parlamento é uma desgraça", gritou ele durante a sessão de reabertura. 

Cox afirmou, no entanto, que o governo aceita o julgamento e sua derrota. "Se toda vez que eu perdesse uma causa fosse chamado a renunciar, eu, provavelmente, nunca teria tido um trabalho", afirmou.

Para os oposicionistas, a decisão judicial de reabrir a Casa mostra que o premiê violou a lei e, portanto, deveria renunciar, o que ele tem se recusado a fazer. 

Boris, que estava em Nova York para participar da Assembleia Geral da ONU, encurtou a viagem e retornou a Londres na quarta para participar da reabertura da Casa.

Se não fosse pelo julgamento do tribunal, as duas câmaras do Parlamento britânico só voltariam aos trabalhos em 14 de outubro, duas semanas antes da data-limite prevista para o brexit —a saída do país da União Europeia (UE).

Nos últimos dias de funcionamento, o Legislativo aplicou uma dura derrota a Boris: aprovou uma lei que obriga o governo a pedir uma prorrogação do prazo para a saída da UE caso não haja um acordo firmado até 19 de outubro. 

A medida contou com o apoio de um grupo de parlamentares conservadores rebeldes, que votaram contra o próprio partido e minaram, assim, a maioria de Boris na Casa. 

​Nesta quarta, o Partido Liberal Democrata, uma sigla menor da oposição, anunciou que tentará garantir o mais rapidamente possível que esse prazo seja respeitado. 

"Simplesmente não podemos esperar até 19 de outubro para ver se o primeiro-ministro se recusará a obedecer à lei novamente", afirmou sua líder, Jo Swinson. 

O premiê afirma ter intensificado as negociações em busca de acordo, mas líderes europeus dizem que o país não apresentou nenhuma proposta viável.

Um relatório do próprio Executivo britânico afirma que sair nessas condições poderia causar escassez de remédios e alimentos frescos.

Boris, porém, segue afirmando que realizará o brexit no dia 31 de outubro de qualquer maneira. A oposição teme que ele tente alguma nova manobra para tirar o Reino Unido sem acordo antes do prazo

Para tentar resolver esse impasse, o premiê tem defendido a convocação de uma eleição geral antes da data-limite, proposta que já foi barrada duas vezes. 

Mesmo se fosse derrotado, Boris ganharia tempo, já que seria aberto um prazo de duas semanas para a escolha de um novo premiê e, caso as negociações falhassem, um novo pleito seria convocado automaticamente —e caberia a ele mesmo definir a data. 

Nesse cenário, o país teria chances de chegar ao Dia D sem acordo e sem pedir uma prorrogação do prazo. 

Corbyn, o líder trabalhista, afirmou que a moção de desconfiança só seria apropriada quando houver a certeza de que um brexit sem acordo será evitado.

"É muito simples, se você [Boris] quer eleições gerais, consiga um adiamento" da data de saída da União Europeia, disse.

Apesar de o premiê ter perdido a maioria na Casa, ele segue no cargo, pois Corbyn não tem apoio suficiente.

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