Autobiografia de Snowden detalha como EUA espionaram o mundo

Livro descreve trajetória de técnico responsável por vazar segredos do governo americano

Daniel Avelar
Amsterdã

Esqueça os equipamentos mirabolantes do agente secreto James Bond. Hoje, a principal arma de espionagem é o smartphone, o computador ou o tablet em que você pode estar lendo este texto.

Parece obra de ficção, mas não é. Se hoje sabemos que nossas comunicações digitais são monitoradas a todo instante, isso se deve, em parte, ao esforço de Edward Snowden, ex-agente da NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA) que veio a público em 2013 para delatar um sistema de vigilância em massa que ele ajudou a montar.

Os detalhes do escândalo que mudou para sempre a relação com a tecnologia ocupam as páginas de “Eterna Vigilância”, recém-publicada autobiografia de Snowden.

Exemplar do livro "Eterna Vigilância", de Edward Snowden, lançado no último dia 17 de setembro
Exemplar do livro "Eterna Vigilância", de Edward Snowden, lançado no último dia 17 de setembro - Justin Sullivan/Getty Images/AFP

“Nas profundezas de um túnel sob uma plantação de abacaxis [...] eu me sentava diante de um terminal do qual tinha acesso praticamente ilimitado às comunicações de quase todos os homens, mulheres e crianças da Terra”, conta Snowden na obra, sobre o tempo em que trabalhou em uma base secreta no Havaí.

 

O livro descreve a trajetória do garoto nerd que cresceu na Carolina do Norte e passou a trabalhar como freelancer para a NSA e a CIA, até sua decisão de vazar segredos de Estado o forçar a viver no exílio.

Nascido em 1983, Snowden pertence à geração moldada pela proliferação da internet. No livro, ele lamenta que o anonimato on-line tenha sido substituído pela perda quase completa de privacidade.

nesse abismo entre o sonho do que a internet poderia ter sido e o pesadelo em que se tornou que reside a frustação de Snowden.

As informações reveladas por ele mostram como o governo dos Estados Unidos, sob a justificativa de combater seus inimigos após o 11 de Setembro, criou um vasto sistema de coleta de dados.

Snowden segue exilado na Rússia, sem saber se e quando poderá voltar ao país de origem. Longe de reconhecer qualquer interesse público que tenha motivado sua delação, os EUA continuam tratando-o como um traidor que colocou a segurança da nação em risco.

Lançado na terça (17), “Eterna Vigilância” já provocou reações das autoridades americanas.

O Departamento de Justiça entrou, no mesmo dia, com uma ação para reter os lucros que resultem da publicação —para o governo, Snowden violou regras da CIA e da NSA, que exigem que seus ex-funcionários submetam suas obras à revisão prévia.

O livro é particularmente interessante para o público brasileiro: entre as revelações de Snowden estava a de que o governo americano rastreava comunicações da então presidente Dilma Rousseff.

A obra atravessa questões debatidas hoje no país, dos riscos representados por autoridades que violam prerrogativas legais à legitimidade das ações de hackers e jornalistas que expõem essas violações em prol do interesse público.

Considere-se Snowden herói ou traidor, “Eterna Vigilância” é fundamental para compreender o potencial criativo e destrutivo das novas tecnologias de comunicação.

Eterna Vigilância
Autor: Edward Snowden. 
Ed. Planeta (288 págs., R$ 44,90)

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