Descrição de chapéu The New York Times

Casa Branca pressionou órgão para repudiar meteorologistas que contradisseram Trump

Presidente insistiu que furacão Dorian atingiria o Alabama, mesmo com previsão de que estado não seria afetado

Washington | The New York Times

A Casa Branca esteve diretamente envolvida na pressão sobre um órgão científico federal para repudiar os meteorologistas que contradisseram a afirmação do presidente Donald Trump de que o furacão Dorian provavelmente atingiria o Alabama, segundo várias pessoas familiarizadas com o caso.

Mick Mulvaney, chefe de gabinete interino da Casa Branca, disse ao secretário de Comércio, Wilbur Ross, que a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (Noaa, na sigla em inglês) devia negar publicamente a posição de seus analistas de que o estado não estava sob risco.

A Noaa, que faz parte do Departamento de Comércio, emitiu uma declaração sem assinatura na sexta-feira (6) em resposta, dizendo que o escritório de Birmingham, Alabama, errou ao contestar o aviso do presidente.

Ao pressionar o administrador interino do órgão a agir, Ross alertou que os principais funcionários da agência poderiam ser demitidos se a situação não fosse resolvida.

O porta-voz de Ross negou que ele tenha ameaçado demitir alguém, e uma autoridade graduada do governo afirmou nesta quarta (11) que Mulvaney não disse ao secretário de Comércio que fizesse essa ameaça.

Donald Trump com mapa no qual se vê uma linha preta adicionada como forma de estender o trajeto da tempestade sobre o Alabama
Donald Trump com mapa no qual se vê uma linha preta adicionada como forma de estender o trajeto da tempestade sobre o Alabama - Jonathan Ernst/Reuters

A divulgação da declaração da Noaa provocou queixas de que o governo Trump estava interferindo indevidamente no sistema profissional de previsão do tempo para justificar a afirmação equivocada do presidente.

O inspetor-geral do Departamento de Comércio está investigando como essa declaração foi publicada, dizendo que poderia pôr em perigo a independência científica.

O Comitê de Ciência, Espaço e Tecnologia da Câmara, que é controlado pelos democratas, anunciou nesta quarta que também abriu uma investigação sobre os atos de Ross.

A Casa Branca não comentou, mas o alto funcionário do governo disse que Mulvaney estava interessado em corrigir o registro, porque, na opinião dele, os analistas de Birmingham tinham ido longe demais e o presidente estava certo ao sugerir que havia previsões mostrando possíveis impactos no Alabama.

Trump ficou furioso por ser contrariado pelos meteorologistas do Alabama. Em 1º de setembro, o presidente escreveu no Twitter que o Alabama "provavelmente será atingido (muito) mais do que o previsto".

Alguns minutos depois, o Serviço Nacional de Meteorologia de Birmingham postou no Twitter que "o Alabama NÃO sofrerá qualquer impacto do Dorian". "Repetimos: nenhum impacto do furacão Dorian será sentido em todo o Alabama."

Durante quase uma semana, Trump continuou insistindo que estava certo, exibindo mapas desatualizados, incluindo um que aparentemente havia sido alterado com um marcador para parecer que o Alabama estaria no caminho da tempestade.

Ele pediu que seu assessor de segurança nacional divulgasse uma declaração em seu apoio.

Ross ligou para Neil Jacobs, administrador interino da Noaa, da Grécia, para onde o secretário tinha viajado para reuniões, e instruiu Jacobs a corrigir a aparente contradição da agência com o presidente, segundo três pessoas informadas sobre as conversas.

Jacobs se opôs à demanda e foi informado de que os nomeados políticos da Noaa seriam demitidos se a situação não fosse corrigida, de acordo com os três indivíduos, que pediram anonimato porque não estavam autorizados a discutir o episódio.

A equipe política de uma agência inclui normalmente um punhado de altos funcionários, como Jacobs, e seus assessores.

Eles são nomeados para os cargos pelo governo atualmente no poder, em oposição aos funcionários de carreira, que permanecem em seus empregos à medida que as administrações vão e vêm.

O comunicado divulgado pela Noaa no final da sexta-feira (6) chamou a declaração do escritório de Birmingham de "inconsistente com as probabilidades dos melhores produtos de previsão disponíveis no momento".

Jacobs, desde então, tentou tranquilizar sua força de trabalho e a comunidade científica em geral, preocupada com a interferência política.

"Este governo está comprometido com a importante missão de previsão do tempo", disse Jacobs em uma conferência sobre clima em Huntsville, no Alabama, na terça-feira (10).

"Não há pressão para mudar a maneira como você comunica ou prevê riscos no futuro."

No discurso, Jacobs elogiou Trump, chamando-o de "genuinamente interessado em melhorar as previsões do tempo", e ecoou a posição do presidente de que o Dorian inicialmente ameaçou o Alabama.

"A certa altura, o Alabama estava na mistura, assim como o resto do sudeste", disse ele.

Jacobs também disse que ainda tinha fé no escritório de Birmingham.

"O objetivo da declaração da Noaa era esclarecer os aspectos técnicos dos possíveis impactos do Dorian", afirmou.

"O que ela não disse, porém, é que entendemos e apoiamos totalmente a boa intenção do escritório de previsão do tempo de Birmingham, que foi acalmar os temores em prol da segurança pública."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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