Cicciolina, pioneira da pornopolítica, amarga insucessos e dívidas na Itália

Primeira a levar mundo das celebridades para as urnas, ex-atriz pornô se vê como personagem incômoda

Mulher lendo jornal sentada em uma fileira de cadeiras
Cicciolina durante sessão do Parlamento italiano nos anos 1990; ela foi eleita deputada em 1987 e ficou no cargo até 1992 - Angelo Palma/Fotoarena/Alamy
Lucas Ferraz
Roma

Houve um momento em que a política italiana se aprumou rumo à ópera-bufa que a caracterizaria nos últimos anos, e ele se deu na campanha eleitoral de 1987. 

Cicciolina, a grande personagem daquela temporada, respira fundo e joga os cabelos loiros para trás: “Eu derrubei o senso comum do pudor, isso foi o mais importante”.

Ilona Staller, nome de batismo da húngara naturalizada italiana que se transformou em ícone da indústria pornô, foi pioneira ao levar a pornografia à política. 

Nas décadas seguintes, em diferentes lugares do mundo, vários seguiriam seu exemplo —ela, contudo, conciliou o mandato com novos filmes.

mulher loira com vestigo preto e casaco cor de rosa em frente a muro
Cicciolina, que tem como nome verdadeiro Ilona Staller, na Fundação Prada, em Milão - Jacopo Raule - 7.mai.17/Getty Images

​Cicciolina fez história ao se eleger na legislatura que precedeu o fim da chamada Primeira República italiana —logo viria a operação Mãos Limpas, em 1992, e a política nunca mais foi a mesma. 

Desde então, o país viria de tudo: do bunga-bunga berlusconiano ao modo de governar da praia, com mojito, um calção de banho e entre dançarinas, como fez neste verão o ex-ministro Matteo Salvini.

Sentada na grama do condomínio de prédios onde mora há mais de 40 anos, nos arredores de Roma, Cicciolina —ela prefere ser chamada pelo nome artístico, um diminutivo para se referir a alguém de modo carinhoso— sabe que foi protagonista de uma mudança cultural.

“Levei uma nova onda ao Parlamento, e, mais do que do ponto de vista político, foi importante para a revolução comportamental e sexual”, disse, lembrando de como o país era “carola” e “hipócrita”.

Nascida em Budapeste, ela se mudou para a Itália em 1972, com seu primeiro marido. O sucesso começou numa rádio romana em que apresentava nas madrugadas um programa erótico. Depois, enveredou para os filmes adultos, tornando-se uma estrela mundial.

“Gostava de ser a diva do pornô. Era uma forma de expressão livre do corpo e da sensualidade”, conta. Ela só não gosta das referências presentes hoje na internet de que transou com cavalos. “Lenda. Já notifiquei o Google várias vezes.”

Quem a levou para a política foi Marco Pannella, chefe do Partido Radical (hoje insignificante), cuja bandeira libertária e anticlerical coube perfeitamente no figurino da atriz e modelo, que já tinha flertado com a política (sem sucesso) no final da década de 1970.

A campanha de 1987 escandalizou o país com atos nos quais Cicciolina exibia os seios —era beijada e tocada pelo público— e um ursinho de pelúcia que levava a tiracolo. Defendia a descriminalização das drogas, os direitos humanos, educação sexual nas escolas, direito dos presos terem sexo na prisão e a proteção dos animais. Obteve 20 mil votos, a segunda mais votada do seu partido —analistas falaram em voto de protesto, o que ela rechaça: “É inveja!”.

A eleição causou um estupor nacional. Os primeiros a se manifestarem foram os intelectuais. O escritor Umberto Eco disparou: “Imoralidade por imoralidade, já vimos coisas piores”. 

O cineasta Federico Fellini considerou a vitória um “sonho da sociedade italiana”. “Digo sonho não no sentido de uma realidade desejada, mas no sentido de algo profundo que surge involuntariamente e com o qual devemos lidar. Desse tipo de sonho que pode ser aterrorizante, o surgimento de Cicciolina tem um aspecto transgressor.”

Quando tomou posse, ela foi acompanhada por amigas do pornô (que mostraram os seios na entrada do Parlamento). 

Aquela seria a última legislatura em que reinou a Democracia Cristã, partido de influência católica que dominava a cena desde 1946 e que seria extinto com a Mãos Limpas.

O jornalista Filippo Ceccarelli, que criou um dos arquivos mais completos do poder italiano, hoje no Parlamento, escreveu sobre a atriz-deputada: “Com ela, nela e através dela a ordem, a harmonia e a racionalidade da vida pública foram interrompidas pela primeira vez, sem retorno: e por trás dos olhares desejosos ou escandalizados, as gargalhadas e as culpas, as sutilezas, as estupidezes e os porquês, foi possível vislumbrar a sombra de um enorme e misterioso deslizamento de terra na época repleto de consequências contraditórias”.

Cicciolina, ao seu modo, ajudou na dessacralização da “séria” política do pós-guerra. Nos seus cinco anos de Parlamento, pior que estava não ficou. 

Sua presença atraiu mais flashes do que efetivamente novas medidas (nenhum projeto de sua autoria vingou). 

A mudança ocorreu nos modos: ela, por exemplo, tentou a paz no Oriente Médio quando estourou a guerra do Golfo em 1990 ao propor se deitar com Saddam Hussein em troca do cessar-fogo, sem êxito. “Os colegas parlamentares sempre me trataram com respeito”, afirma.

Em 1991, no penúltimo ano de mandato, ela se casou com o artista americano Jeff Koons, depois de posar com ele em cenas explícitas de sexo para a série “Made in Heaven”. 

O casamento durou um ano. “Ele se tornou rico e famoso graças a mim”, disse sobre Koons, com quem já travou inúmeras batalhas na Justiça nos últimos 27 anos.

Cicciolina tenta ludibriar o tempo com pesada maquiagem e intervenções estéticas (os seios são muito maiores do que nos tempos do pornô), apesar de as mãos não esconderem a condição de sexagenária —faz 68 anos em novembro. 

Com direito a uma pensão vitalícia do Estado italiano, atualmente bloqueada por dívidas com o fisco, a ex-atriz não passa por situação financeira confortável. Ela insistiu para o repórter comprar sua fotobiografia (100 euros, ou cerca de R$ 450) e tem anunciado sua memorabilia e até jantares com fãs na internet, além de ainda atuar como modelo.

A ex-deputada não esconde o desalento. Desde 1992, quando não conseguiu ser reeleita, tentou voltar para a política em três ocasiões. Falhou em todas: para a prefeitura de Monza, no norte da Itália, para o Parlamento da Hungria e depois para a Câmara de Vereadores de Roma. “Minha política é diversa, é a política do outro. É a política do amor.”

Sobre o país natal, governado pelo ultradireitista Viktor Orbán, diz que os húngaros que votaram nele agora precisam aguentá-lo: “Na Hungria se alguém vai contra a situação, vai preso. E se você vai contra o seu presidente, não fazem o mesmo?”.

Ela só se impacientou ao ser questionada sobre os atuais políticos italianos: “Se falo de política italiana, me excomungam, não encontro trabalho. Até agora não fiz nenhum reality show na Itália. Por quê? Não é por causa do pornô, outras atrizes que não valem minha unha já fizeram. Por que não faço? Porque me tornei um personagem incômodo”.

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