Descrição de chapéu The New York Times

Cinco anos depois, mistério do desaparecimento de 43 estudantes no México permanece

Caso tornou-se símbolo da falência do Estado de direito

Marina Franco
The New York Times

O fim de semana começou como muitos outros naquela cidade no sul do México: a praça principal sediou um comício político e houve uma partida de futebol nas proximidades. Alunos de uma faculdade rural de formação de professores tentavam pegar ônibus para uma viagem à Cidade do México.

Mas o que aconteceu naquela sexta-feira, 26 de setembro de 2014, tornou-se um símbolo da violência, impunidade e falência do Estado de direito que atormentam o México.

No final da noite, seis pessoas estavam mortas e 43 dos estudantes, vistos pela última vez sendo forçados a entrar em caminhões da polícia, haviam desaparecido. Cinco anos depois, seu paradeiro ainda é desconhecido; seus casos não foram resolvidos.

Fotografias dos 43 estudantes desaparecidos são vistas no centro da Cidade do México no dia 19 de setembro - Celia Talbot Tobin/The New York Times

Eles estão agora entre as mais de 40 mil pessoas registradas como desaparecidas no México, muitas na guerra às drogas do país.

Isto é o que se sabe: em uma noite violenta e caótica, policiais locais, trabalhando com uma quadrilha criminosa e o prefeito, pararam e atiraram nos ônibus que levavam os estudantes de magistério.

Mais tarde, eles dispararam contra outros que estavam saindo da cidade —táxis e o ônibus do time de futebol—, embora não tivessem ligação com os estudantes. Ainda não há informações sobre o que aconteceu exatamente, o porquê, quem esteve envolvido ou mesmo onde estão os alunos.

O presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, que assumiu o cargo em dezembro, prometeu que faria mais que seu antecessor para descobrir o que aconteceu na cidade de Iguala naquele dia. Ele criou uma comissão especial, nomeou um promotor e, mais recentemente, anunciou um novo inquérito depois que os tribunais ordenaram que a primeira investigação, fortemente criticada, fosse refeita.

Um juiz federal também negou recentemente acusações contra 77 pessoas envolvidas no crime, argumentando que houve uso generalizado de tortura para forçar confissões.

"Esta é uma chance de mostrar que essa investigação deve ser legalmente conduzida, de cima para baixo", disse Ángela Buitrago, advogada colombiana membro do grupo de especialistas internacionais inicialmente convidados a investigar o caso e consultora do novo inquérito. "É isso o que legitima um Estado."

Os acontecimentos daquela noite —e o fracasso do governo em descobrir fatos básicos sobre o que ocorreu com os estudantes desaparecidos da Faculdade de Professores Raúl Isidro Burgos— mudaram a vida das pessoas envolvidas.

Todos os meses, no dia 26, seus pais viajam quase 300 quilômetros até a Cidade do México, tendo encontrado um objetivo em um ritual de protesto.

"Como alguém que carrega o fardo de perder um filho, você tenta lutar na esperança de que os outros sejam encontrados vivos e bem", disse Inés Gallardo, 40, cujo filho foi um dos três estudantes mortos naquela noite.

Em seu quinto aniversário, o New York Times conversou com pessoas diretamente afetadas pelos acontecimentos daquela noite.

Uma mãe

Três dias se passaram antes que Cristina Bautista Salvador soubesse que seu filho Benjamín estava desaparecido.

Na pequena vila montanhosa onde ela morava não há serviço de telefonia celular e muitos só falam a língua local, "náhuatl". Pouquíssimos moradores se comunicam em espanhol. A faculdade onde o filho morava, a Faculdade de Professores Raúl Isidro Burgos, na cidade de Ayotzinapa, ficava a três horas de viagem.

Depois de telefonar para ele e não ter resposta, a mãe correu para lá na segunda-feira, pegando duas vans e um táxi, para descobrir o que tinha acontecido. A busca por respostas a consumiria tanto que ela não voltou para casa durante três anos.

Depois que Benjamín desapareceu, Cristina aprendeu a falar espanhol. Era a única maneira de se comunicar com funcionários e advogados, ou de divulgar o caso, o que ela fez na Colômbia, Argentina, Estados Unidos e Brasil.

Hoje, a participação nas marchas diminuiu.

"Se houver muitos ou poucos, nacional ou internacionalmente, continuaremos pressionando até descobrir o que aconteceu", disse ela. "Até encontrá-los."

Uma vítima

Alfredo Ramírez García estava em um táxi com alguns colegas a caminho de casa, na capital do Estado, Chilpancingo, após um comício. O carro deles diminuiu a velocidade perto do que parecia ser um posto policial improvisado.

Os policiais não disseram nada. Apontaram as armas para os passageiros, disse ele. Então atiraram.

"Fui atingido, mas não doeu no começo, apenas senti calor e meu braço ficou dormente", disse ele. "Eu estava com um paletó azul novo, e primeiro apenas pensei: 'Esses bastardos acabaram de estragar meu paletó'".

Uma mulher em outro táxi também foi baleada naquela noite. Ela estava entre os seis mortos.

Quando Ramírez tentou registrar uma denúncia junto à agência federal responsável, eles "mal se importaram", segundo disse. "Então eu simplesmente desisti."

Uma testemunha

Othokari González Agustín, jogador de futebol, lembra que sua equipe venceu o jogo fora naquele dia em Iguala, por 3 a 1. Ele marcou um gol.

No caminho de volta para Chilpancingo, o ônibus parou ao lado de um táxi crivado de balas. Momentos depois, disse ele, estavam sob tiroteio. Um de seus companheiros de equipe foi morto, assim como o motorista do ônibus.

González, hoje estudante universitário, ainda joga futebol. Ele tinha começado a treinar o time em que jogara naquela noite, até que a violência voltou a ocorrer. "Treinei até alguns meses atrás", disse ele, "quando o dono da equipe foi morto."

Um jornalista

Sergio Ocampo Arista é jornalista, mas a princípio ele ouviu com tranquilidade os rumores do tiroteio em Iguala. Na época, o Estado de Guerrero tinha a maior taxa de homicídios do país. Ele ficou desconfiado apenas quando ligou para o prefeito e o comissário de polícia e descobriu que eles estavam "enfaticamente tentando minimizar o assunto", disse ele.

Ocampo reuniu uma caravana de jornalistas e dirigiu os quase 100 quilômetros de Chilpancingo até Iguala. Quando chegaram, os corpos dos que estavam no táxi e no ônibus do time de futebol já tinham sido levados, relatou ele.

Mas quando passou pela polícia e em direção à avenida principal viu que outros corpos ainda estavam espalhados: os dos três estudantes que foram baleados naquela noite.

Ele e seus colegas tiraram fotos. Seu despacho naquele domingo foi a primeira notícia que algumas famílias receberam sobre o que aconteceu naquela noite. O relatório também ajudou os investigadores a reconstruírem alguns dos fatos.

Uma mãe

Nicanora García González estava comprando peixe no mercado no domingo quando soube da reportagem de Ocampo e viu a foto de um dos estudantes mortos. Ele levou um tiro no rosto.

Seu filho, Saúl, frequentava a mesma escola de magistério em Ayotzinapa. Ela ligou e descobriu que ele estava entre os desaparecidos.

Ela mudou-se para Ayotzinapa, a sete horas de sua cidade natal, para procurar respostas. Durante anos, acampou lá, junto com outros pais.

Todo mês ela junta US$ 25 (cerca de R$ 110) para a viagem de ida e volta à Cidade do México, onde marcha com os retratos de seu filho. "Eu preciso", disse ela.

"Os meninos não estão desaparecidos: eles foram levados por pessoas de uniforme", afirmou. "Eles sabem onde os deixaram, apenas se recusam a nos contar."

O diretor

O Colégio de Professores Raúl Isidro Burgos está mergulhado em uma história de protesto social. Os graduados incluem guerrilheiros e líderes revolucionários do século 20.

"Ele tem uma linhagem de lutas a ser ouvida", disse o ex-diretor José Luis Hernández Rivera.

A escola também abriu caminho para muitos de origem pobre e indígenas progredirem em Guerrero, onde 66% da população vivem na pobreza.

E assim, mesmo após o desaparecimento, a comunidade queria mantê-lo aberto.

"Esta escola continuou sua luta", disse Hernández. "Em outros lugares, pode ser que tivesse fechado, todos teriam saído."

Em vez disso, a escola também foi aberta aos pais dos 43, muitos dos quais se mudaram para suas salas de aula nos primeiros anos de buscas.

Um advogado

Santiago Aguirre Espinosa recebeu a notícia do ataque no final de semana em que aconteceu. Uma delegação do Centro Prodh, organização de direitos humanos, estava em Guerrero investigando outro massacre.

Com o tempo, ele passou a representar os pais, testemunhando sua dor, a frustração crescente e a mudança de expectativas.

Alguns pais ainda passam a noite na porta da frente, para estar lá caso o filho volte, disse ele. Mas as famílias se referem cada vez mais "a descobrir a verdade, seja ela qual for, do que especificamente encontrar seus filhos —uma implicação de partir o coração", disse ele.

A angústia, para alguns, é familiar. O tio-avô de Cutberto Ortiz Ramos, um dos 43, também desapareceu forçadamente décadas atrás.

"Como país, fizemos algo errado que realmente precisamos remediar", disse ele.

Um pai

Em sua busca para encontrar o filho desaparecido, Emiliano Navarrete Victoriano perdeu o contato com seus dois outros filhos.

Ele se agarrou a todas as pistas, todas as buscas: em um campo de papoulas, ao longo das margens do rio, nas passagens das montanhas. Cada uma trazia uma nova decepção. As expectativas de seus filhos mais novos tornaram-se insuportáveis.

"Eu sabia que não seria capaz de olhá-los nos olhos, porque os olhos deles perguntavam: 'Você o encontrou?'"

Navarrete começou a evitá-los, para não ver sua decepção compartilhada.

Mas ele não pode parar a busca. "Neste ponto, não me importo com o que eu perca, desde que o encontre", afirmou.

Colaborou Vania Pigeonutt, de Chilpancingo

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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