Com estilo sem rodeios, embaixador do 'lagostagate' é elo de Bolsonaro e Israel

Temperamento de Yossi Shelley foge de figurino diplomático e gera reclamações, mas abre portas

Fábio Zanini
São Paulo

Dois amigos almoçam num domingo antes de ir ao estádio ver um jogo de futebol. Fazem uma foto, logo postada nas redes sociais.

A situação, a princípio corriqueira, tinha algo de diferente. E não apenas pelos personagens envolvidos, o presidente Jair Bolsonaro e o embaixador de Israel em Brasília, Yossi Shelley.

Duas manchas pretas aplicadas graficamente, escondendo o alimento, tornaram a imagem um meme instantâneo. Uma patinha vermelha que escapou do borrão denunciava: ali havia uma lagostim, de consumo vetado pelos judeus ortodoxos.

O presidente Jair Bolsonaro com Yossi Shelley durante almoço em Brasília; foto foi divulgada com borrões sobre os alimentos
O presidente Jair Bolsonaro com Yossi Shelley durante almoço em Brasília; foto foi divulgada com borrões sobre os alimentos - Israel no Brasil no Instagram

"Foi apenas um gesto de respeito a uma expressiva parcela da população israelense", justifica Shelley à Folha sobre a foto, feita antes da final da Copa América, em julho. "Não quer dizer que eu tenha comido", afirma ele, que se declara não religioso.

Shelley tornou-se, em poucos meses de governo Bolsonaro, figura inseparável do presidente. O "lagostagate" foi apenas um exemplo da proximidade do diplomata com o chefe de Estado, que não se resume a eventos oficiais.

Em junho, no jogo entre Flamengo e CSA pelo Campeonato Brasileiro, Shelley estava junto de Bolsonaro e do ministro Sergio Moro (Justiça) fazendo selfie na tribuna de honra do estádio Mané Garrincha.

Dias depois, marcou presença ao lado de Bolsonaro no palco da Marcha Para Jesus, evento evangélico em São Paulo. Em português vacilante, discursou brevemente para a multidão reunida.

Na final da Copa América, desceu ao campo para festejar a conquista. "Não pude deixar passar a oportunidade de tietar os campeões", escreveu, na legenda de mais uma selfie.

A relação de Shelley com Bolsonaro é um toque pessoal na aproximação estratégica entre os dois países, forjada desde a campanha presidencial do ano passado.

O viés pró-Palestina da diplomacia na era PT deu lugar à aliança com Israel, marcada pela afinidade ideológica do presidente com o premiê Binyamin Netanyahu e pelo apoio dos evangélicos, um dos pilares do bolsonarismo, ao Estado judeu.

Shelley, empresário que nada tem da sutileza dos diplomatas de carreira, tornou-se o intermediário perfeito da parceria. Seu estilo expansivo abre portas políticas e comerciais para Israel, algo admitido até pelos muitos que antipatizam com ele.

Reservadamente, segundo relatos colhidos pela Folha, abundam reclamações sobre seu temperamento avesso a qualquer protocolo e, não raro, grosseiro e dado a gracejos vistos como inadequados por mulheres. 

Um ex-ministro de Bolsonaro classificou à Folha como "absolutamente inconveniente" a relação do presidente com o embaixador. Seu estilo já incomodou autoridades como o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o vice-presidente Hamilton Mourão.

Shelley rompeu com a tradição de uma certa deferência de embaixadores com o consulado de São Paulo, sede da mais influente comunidade judaica do Brasil. Em julho, ele cancelou em cima da hora, sem explicação, evento de despedida do então cônsul na cidade, Dori Goren, contribuindo para o mal-estar.

Entre diversos líderes judeus, a frequência com que é visto com Bolsonaro incomoda. A maior parte dos cerca de 120 mil judeus do país sempre pendeu mais para o PSDB e, em menor parte, o PT. 

Já o bolsonarismo judeu é um fenômeno mais recente, representado pelo secretário de Comunicação do governo, Fábio Wajngarten, o ministro Abraham Weintraub (Educação) e empresários como Meyer Nigri (Tecnisa).

A tudo isso, Shelley dá de ombros. "As pessoas acham: 'ah, ele tem uma influência...' Se tenho oportunidade de falar ou comentar alguma coisa, posso fazer isso, mas ele [Bolsonaro] faz o que ele quer, não o que eu quero", declarou o embaixador à Folha.

Para ele, a figura tradicional do embaixador formal e protocolar está em decadência num mundo dominado pelas novas ferramentas de comunicação.

Bolsonaro e Shelley, tenente-coronel do Exército, têm em comum o passado militar. A relação dos dois começou em 2017, quando o israelense foi nomeado embaixador e o presidente era deputado.

Mais de uma vez o brasileiro foi socorrido pelo amigo, mesmo que para isso Shelley tivesse que contrariar compatriotas.

Em abril, o embaixador acusou a líder do partido de esquerda israelense Meretz, Tamar Zandberg, de ser uma judia que odeia judeus, depois que ela acusou Bolsonaro de ser racista. Advertido pela chancelaria israelense, foi obrigado a pedir desculpas. "Página virada", disse ele à Folha.

Também ajudou Bolsonaro quando ele disse que os crimes do Holocausto podiam ser perdoados, embora não esquecidos. A declaração, dada logo após a visita presidencial a Israel, repercutiu mal na opinião pública israelense, e Shelley ajudou o amigo a elaborar um comunicado explicando que não estava minimizando o massacre de judeus na Segunda Guerra.

A maior derrota, até agora, foi o recuo de Bolsonaro na transferência da embaixada brasileira para Jerusalém, após pressão de países árabes.

A grande ligação de Shelley com Netanyahu foi responsável por um dos grandes reveses de sua carreira. Ao assumir o cargo de presidente da Autoridade Postal de Israel, ele omitiu sua ligação com o Likud, partido do premiê. 

Acusado de perjúrio, em 2012 fez um acordo com a Promotoria pelo qual ficou três anos sem poder assumir cargo público. O caso pesou quando Netanyahu tentou fazer dele o diretor-geral do partido em 2013, segundo relatou o jornal "The Jerusalem Post". A indicação naufragou.

Shelley minimiza o episódio: "Nunca fui condenado por nada e meu julgamento foi apenas por um erro de formalidade", afirma.

No Congresso, o embaixador conseguiu articular uma base de apoio atuante, que protege Israel em momentos críticos. Seus principais interlocutores são os deputados Marcos Pereira (PRB-SP), Marco Feliciano (PODE-SP) e Alan Rick (DEM-AC), todos evangélicos.

"Num dos últimos ataques do Hamas a Israel, o Yossi me ligou e imediatamente fizemos uma carta de apoio com 50 deputados", afirma Rick. "Nós sempre procuramos deixar claro que Israel não ataca, Israel reage quando provocado", diz.

Em sua longa carreira, ele esteve ligado a diversas empresas, a mais recente como diretor-geral do grupo israelense YSB, que atua na área de infraestrutura. Em agendas oficiais, não perde a oportunidade de fazer propaganda de empresas de seu país, algo condizente com seu perfil de empresário.

"Vocês gostam do Waze [aplicativo de trânsito], né? Pode usar, não paga nada", brincou em discurso na Assembleia Legislativa de São Paulo no último dia 26, quando recebeu uma homenagem.

O embaixador de Israel no Brasil, Yossi Shelley, cumprimenta Bolsonaro durante cerimônia de insígnias da Ordem do Rio Branco, no Itamaraty
O embaixador de Israel no Brasil, Yossi Shelley, cumprimenta Bolsonaro durante cerimônia de insígnias da Ordem do Rio Branco, no Itamaraty - Pedro Ladeira - 3.mai.19/Folhapress

No mesmo evento, cumprimentou e tirou selfies com bombeiros e lembrou da participação de militares israelenses no resgate de Brumadinho (MG).

A cooperação no trágico episódio não foi sem turbulência, contudo. Shelley não gostou de ouvir do comando local da operação que os equipamentos trazidos de Israel não eram adequados e disse que havia "ciúmes".

"Se compararmos as minguadas críticas com a gratidão manifestada a Israel, desde o presidente da República até o povo de Brumadinho, veremos que as primeiras são infundadas e desprezíveis", afirma o embaixador. Diz que prova disso foi o Brasil ter aceitado ajuda para o combate aos incêndios na Amazônia, na forma de produtos químicos para apagar o fogo. 

As próximas semanas serão cruciais para o futuro de Shelley no Brasil. É provável que tenha de deixar o país em caso de derrota do atual primeiro-ministro na eleição de 17 de setembro. As pesquisas apontam cenário indefinido.

Mas ao menos uma liderança na comunidade judaica não descarta que ele continue mesmo em caso de troca de governo, por ter forjado uma relação pessoal com o presidente.

Caso contrário, o "bromance" entre Bolsonaro e Shelley terá de se tornar uma relação de longa distância.

Colaboraram Igor Gielow e Carolina Linhares, de São Paulo, e Daniel Carvalho, de Brasília

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