Derrocada de Macri vira arma para a esquerda na Bolívia e no Uruguai

Candidatos usam fracasso do argentino para criticar rivais mais à direita e sobem nas pesquisas

Sylvia Colombo
Buenos Aires

O fracasso de Mauricio Macri nas eleições primárias deu fôlego a candidatos de esquerda de outros países da América do Sul que também vão eleger seus presidentes nos próximos meses.

Os líderes nas pesquisas tanto no Uruguai quanto na Bolívia têm usado o argentino como exemplo para atacar os rivais mais à direita do espectro político.

Manifestantes participam de ato contra Macri em Buenos Aires - Ronaldo Schemidt - 6.set.19/AFP

É o caso de Evo Morales, que concorre a um polêmico quarto mandato na Bolívia —a Constituição permite apenas uma reeleição, mas ele conseguiu aprovação da Justiça para concorrer novamente. 

Em seu discurso de campanha, a Argentina tem sido apresentada como um anti-exemplo nos comícios. 

“Os neoliberais e a extrema direita começam a cair na região. Vejam a Argentina: Macri se ajoelhou diante do FMI [Fundo Monetário Internacional] e agora está sendo castigado nas urnas. A Bolívia, em nosso governo, se libertou do FMI”, disse ele em La Paz.

Evo tem afirmado ainda que a Bolívia se prepara para um “retorno massivo de bolivianos que vivem na Argentina para seu país de origem, para escapar da crise argentina”.

Cerca de 1 milhão de bolivianos vivem no país vizinho, que passa por uma crise econômica, com inflação acima de 50% ao ano e desemprego em 10,5%.

Em entrevista à Folha, há algumas semanas, o presidente boliviano disse que gosta de Macri “pessoalmente, mas sua escolha política foi errada e está sofrendo as consequências”. 

As últimas pesquisas na Argentina mostram que o candidato opositor, Alberto Fernández —que tem a ex-presidente Cristina Kirchner como vice— tem ampliado a vantagem sobre Macri.

A diferença, que nas primárias em agosto ficou em 15 pontos percentuais, já chega a 20 em alguns levantamentos. 

Na Bolívia, a esquerda também aparece na liderança, embora as pesquisas no país não sejam muito confiáveis.

Os levantamentos mostraram, inicialmente, o ex-presidente Carlos Mesa em primeiro lugar. Aos poucos, porém, Evo virou o jogo em uma disputa apertada. Pesquisas mais recentes já dão certa folga ao atual presidente.

Foi justamente depois da derrota de Macri nas primárias que o boliviano tomou a dianteira com mais vigor. Ele agora tem 34%, contra 27% de Mesa. 

“A derrota de Macri tem feito bem à candidatura de Morales, pois lhe dá argumentos contra o modelo neoliberal”, afirma o analista político Fernando Molina. 

Ele alerta, porém, que outros fatores também devem influenciar a votação. “A atuação dele com relação aos incêndios na Amazônia o prejudicaram a princípio, mas ele já vem se recuperando. É preciso ver como isso vai se refletir nas pesquisas”, diz Molina.

De todo modo, todas as sondagens na Bolívia têm mostrado um alto número de indecisos, por volta de 15%, o que ainda pode pesar a balança para um lado ou para o outro. 

Caso nenhum candidato consiga mais do que 50% dos votos, haverá um segundo turno em dezembro. 

Para aproveitar ao máximo a carona no atual êxito de Fernández na Argentina, Evo recebeu o candidato kirchnerista na última semana, em La Paz, para conversar sobre o futuro da região. 

O argentino, certo de sua conquista, apesar de a real eleição ocorrer apenas no dia 27 de outubro, tem feito um tour internacional visitando outros líderes —passou por Espanha, Portugal e Peru, além da Bolívia.  
Já no Uruguai, a derrota de Macri nas primárias deu novo vigor à Frente Ampla, coalizão de esquerda que comanda o país desde 2005. 

O candidato governista, Daniel Martínez, lidera a disputa —na semana passada, subiu de 35% para 39% das intenções de voto, segundo dados do instituto Factum.

Em segundo lugar, com 26%, vem Luis Lacalle Pou, candidato do Partido Nacional, de centro-direita. Em terceiro, aparece com 18% o nome do Partido Colorado, o centrista Ernesto Talvi.

O mau desempenho de Macri nos prejudica e alimenta as esperanças do candidato governista. Mas estamos seguros de que os eleitores uruguaios irão entender que cada país tem suas particularidades. E, no caso do Uruguai, a esquerda já completou um ciclo”, disse Talvi à Folha.

Martínez também tem usado o fracasso de Macri nas primárias argentinas em seu discurso.

Em um comício recente, em Colônia do Sacramento, afirmou que “um amigo que não é eleitor da Frente Ampla me disse que estava vendo na oposição uruguaia o que vimos que ocorreu com Macri, que achava que o problema a ser resolvido era muito fácil”.

“Macri chegou a dizer que controlar a inflação era muito fácil. É o mesmo que dizem nossos opositores aqui, mas não conhecem o problema”, afirmou ele. 

Em outro discurso, Martínez afirmou que “nenhum candidato pode dizer que administrar um país é como administrar uma empresa privada, como fez Macri. Isso seguramente leva ao fracasso”.

A eleição uruguaia ocorrerá em 27 de outubro, uma semana após a boliviana. Até lá, o que acontecer na Argentina deve seguir influenciando os dois pleitos. 

Todos os olhares devem se voltar para o que vai acontecer em Buenos Aires.

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