Descrição de chapéu The New York Times

'Derrotado', Boko Haram está de volta, agora com drones melhores

Depois de uma década de guerra, grupo terrorista está mais bem armado

Dionne Searcey
Konduga (Nigéria) | The New York Times

Numa rua de terra em um vilarejo escondido entre os campos de milho, Abdul, 10, levantou a camisa. Uma cicatriz recente se estendia de cima a baixo de seu estômago —resultado de um atentado a bomba suicida do Boko Haram em junho, cujos estilhaços rasgaram sua barriga.

Meia dúzia de outros garotos se reuniram ao redor dele e levantaram as camisas. Todos tinham cicatrizes semelhantes, causadas pelo ataque.

A guerra da Nigéria contra o grupo extremista islâmico Boko Haram já deveria ter terminado. O presidente Muhammadu Buhari, ex-governante militar, foi reeleito no início deste ano depois de se gabar do progresso na luta contra o Boko Haram. Ele declarou diversas vezes que o grupo foi "tecnicamente derrotado". Na terça-feira (10), o presidente admitiu que "seus membros ainda são um incômodo".

Com uma década inteira de guerra, no entanto, os militantes do Boko Haram ainda vagam pelo campo na impunidade. Seus combatentes agora têm drones mais sofisticados do que os militares e estão bem armados após ataques bem-sucedidos às brigadas militares, de acordo com políticos e analistas de segurança locais.

homens carregam morto na áfrica
Homens carregam vítima de ataque do Boko Haram em julho, no nordeste da Nigéria - Audu Marte/AFP

Militantes controlam quatro das dez zonas do Estado de Borno, no norte, perto do Lago Chade, segundo analistas de segurança e uma autoridade federal. Eles realizam ataques quase diários, inclusive abriram fogo na semana passada contra o comboio do governador do Estado de Borno.

Para pessoas em aldeias como Konduga, a derrota do Boko Haram parece distante. O ataque de 17 de junho que feriu Abdul e seus amigos (seu sobrenome está sendo omitido para protegê-lo de represálias) também matou 30 pessoas —oito delas crianças.

Segundo muitos relatos, os militares nigerianos estão desmoralizados e na defensiva. Alguns soldados se queixam de não terem uma folga para visitar as famílias há três anos. Suas armas e veículos estão danificados. Em agosto, o novo comandante da Operação Lafiya Dole, que significa "paz pela força", lembrou publicamente seus oficiais de campo para dar comida e água às tropas. Ele é o oitavo comandante em dez anos.

Os militares anunciaram em agosto que estão retirando suas tropas de postos avançados no campo e reunindo-as em assentamentos fortificados que chamam de "supercampos".

Os supercampos ficam em cidades-guarnições, onde os militares nigerianos assentaram dezenas de milhares de civis nos últimos anos —depois que o Boko Haram os expulsou ou soldados queimaram suas aldeias e os cercaram, dizendo que isso protegeria o campo. As cidades-guarnições são cercadas por trincheiras para retardar as invasões de militantes, mas a retirada deu aos combatentes do Boko Haram rédeas livres na árida região rural.

No supercampo em Bama, numa tarde recente, um tanque camuflado balançava pela rua, soltando fumaça azul por baixo, suas esteiras parecendo dentes soltos prestes a cair. Era pilotado por soldados sem capacetes, com as camisas abertas, e um artilheiro usando uma coroa de folhas. Eles avançaram contra uma minivan estacionada que bloqueava parcialmente a rua, esmagando o veículo.

O major Ak Karma, sentado atrás de sua mesa nas proximidades, no quartel-general do supercampo de Bama, disse que um ataque ao Boko Haram havia sido frustrado dias antes, mas minimizou a ameaça.
"Temos um ou dois ataques problemáticos do Boko Haram, mas isso não significa que eles tenham uma grande ofensiva", disse Kama. "Bama é uma fortaleza."

O acampamento foi atacado novamente no dia seguinte.

A guerra com o Boko Haram devastou a população no nordeste rural da Nigéria, uma das regiões mais pobres da Terra. Mais de 2 milhões de pessoas fugiram de suas casas, dezenas de milhares foram mortas e muitas mais feridas, sequestradas e recrutadas para participar da luta. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha disse nesta semana que quase 22 mil nigerianos desapareceram durante a crise.

Os comandantes militares, diante de reclamações de que sua estratégia é antiga e ineficaz, dizem que os supercampos são uma maneira nova e mais eficaz de lidar com uma insurgência que hoje tem maior capacidade de desencadear ataques mais complexos contra os militares.

Mas algumas autoridades chamam os supercampos de simples recuo. Uma autoridade federal, que pediu para não ser identificada por medo de criticar os militares e prejudicar sua segurança, disse que os soldados estavam apenas se entrincheirando nos supercampos. A autoridade disse que os combatentes do Boko Haram estão tomando o equipamento que os soldados deixam para trás quando abandonam seus postos e vão para os supercampos.

A corrupção também pode estar prolongando a guerra, segundo algumas autoridades do governo, analistas de segurança e trabalhadores humanitários. No nordeste da Nigéria, o Boko Haram é acusado há muito tempo de lucrar com a pesca ilegal ao longo do Lago Chade, onde toda a pesca é proibida, e de tributar os veículos que passam. Agora, os militares são acusados de fazer o mesmo.

O governo aloca o equivalente a quase US$ 80 milhões por trimestre para o esforço de guerra. No entanto, os soldados nigerianos não dispõem de munição e assistência médica —levando muitos moradores a se perguntarem para onde vai todo o dinheiro.

No início deste ano, em Rann, onde não há iluminação após o pôr do sol, soldados descontentes sem equipamento de visão noturna abandonaram seus postos, segundo vários trabalhadores humanitários.

Alguns soldados fugiram diante dos ataques, em vez de ficarem e lutar, segundo relatos de moradores.
Abubakar, 13, disse que estava voltando da escola na cidade de Gubio no final de agosto, quando viu vários soldados correndo pela vila. "Corram por suas vidas", eles gritavam enquanto fugiam, disse ele. "O Boko Haram está chegando!"

O garoto, que não será identificado por razões de segurança, disse que viu soldados tirarem os uniformes e vestirem roupas do dia a dia. Eles estacionaram o caminhão do Exército debaixo de uma árvore, se amontoaram num carro civil e fugiram em disparada.

Outra mulher de Gubio, que também não será identificada, disse que quatro soldados aterrorizados se juntaram à sua família no esconderijo e mais cinco se esconderam na casa do vizinho. Ela disse que ficaram em silêncio durante dois dias, enquanto militantes saqueavam a cidade e se gabavam em voz alta da facilidade da pilhagem.

A maioria dos moradores e soldados fugiu durante o ataque, que matou pelo menos três pessoas, segundo autoridades. Vários dias depois, o Boko Haram voltou, saqueou os remédios de um hospital e incendiou edifícios do governo e tendas militares. Eles fugiram em veículos que os militares tinham deixado para trás.

As autoridades julgaram que os ataques foram executados pela Província da África Ocidental do Estado Islâmico, grupo dissidente de cerca de 3.000 combatentes que foi endossado por líderes do Estado Islâmico. A facção se separou em 2016 das forças comandadas pelo antigo líder do Boko Haram, Abubakar Shekau, por reprovar seus ataques a civis muçulmanos.

Desde 2018, a facção do Estado Islâmico, que recebeu orientação de propaganda do Estado Islâmico na Síria, atacou um quartel-general da brigada e o centro de uma iniciativa militar multinacional de combate ao terrorismo, roubando grandes quantidades de máquinas e armas, segundo autoridades e analistas.

Acredita-se que esse grupo tenha se dividido em outras facções, algumas das quais controlam áreas próximas ao Lago Chade e outros lugares, operando tribunais, serviços de saúde e mercados, de acordo com Vincent Foucher, consultor do Grupo Internacional de Crises.

Em algumas áreas fora do alcance dos militares, as pessoas dizem que agora estão apenas tolerando a presença de militantes. Os moradores locais voltaram para suas fazendas para ganhar a vida, preferindo isso a se amontoar em campos lotados, propensos ao cólera e a outras doenças.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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